Esse gol é pra você, mãe
Quinta-feira, 5 de julho de 2018

Esse gol é pra você, mãe

Foto: EBC

Vencer na vida para fazer de suas mães verdadeiras rainhas é o sonho de muitos jovens negros que chegam ao topo de suas profissões. Muito comum entre artistas e esportistas negros que saem, em sua grande maioria, das periferias do mundo para o estrelato, tal discurso guarda em si uma grande verdade histórica.

Abolida a escravidão e abandonado o cativeiro, a falta de preparo psicossocial do negro e de oportunidades efetivas para se integrar na sociedade de classes, principalmente nas zonas urbanas nascentes, fez com que muitos homens negros ficassem à margem da sociedade, enquanto as mulheres negras se tornaram provedoras de suas famílias, muitas vezes através do trabalho doméstico, outras até mesmo por meio da prostituição.

Em uma sociedade machista, em que se trata como devido que o homem seja o provedor do lar, mulheres têm se tornado “os carros-chefes” de suas famílias. Uma vez que elas são abandonadas pelos homens, que se furtam da realidade para viver como se fossem livres de responsabilidades, as mulheres são obrigadas por vezes a enfrentar a pobreza e suas consequências na busca do sustento e criação dos filhos.

Passados 130 anos da abolição da escravidão, a realidade das gerações que a sucederam ainda é a de uma família composta por mãe e filhos ou, quando presente o pai, de uma família traumatizada por relações abusivas e violência doméstica.

Assim, não é de se estranhar que 7 dos 11 titulares da seleção brasileira não tem pais e que, 6 dos 6 compartilham do sonho de proporcionar à mãe tudo de bom que o sucesso profissional lhes deu.

Tal sonho, na realidade, se traduz no reconhecimento de que eles só são o que são porque as suas respectivas mães fizeram o impossível para torná-los uma realidade muito distante da rotineira. E fizeram o impossível sozinhas, diga-se de passagem.

Indo além da seleção brasileira, este senso de responsabilidade para com a mãe é muito comum entre os jovens negros ao redor do mundo, já bem-sucedidos ou não, como se este fosse um fator de extrema relevância na busca pela ascensão social através do sucesso profissional, seja em qual área for.

Se a escravidão nos roubou a certeza da origem, a tendência é nos agarrarmos ao ancestral mais próximo, seja como ponto de referência, seja como objetivo de trazer orgulho a alguém em meio a uma sociedade que nos despreza em quase todos nossos aspectos.

Assim, muito mais que um clichê, o sonho de tornar a mãe uma rainha reflete uma realidade material oriunda de um processo histórico no qual a mulher é a protagonista e a referência.

Se o futuro do mundo é feminino, a sua vanguarda é o feminismo negro.

Rafael Brito é advogado.


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