A Croácia e a paixão nacional
Sexta-feira, 13 de julho de 2018

A Croácia e a paixão nacional

Foto: EBC

Copeira que sou, venho acompanhando a disputa pela Taça do Mundial na Rússia de 2018, e escrevo este texto na quinta-feira que antecede a grande final no domingo: ontem, 10 de julho de 2018, num desses lances que só o Sobrenatural de Almeida[1] explica, a seleção da Croácia venceu de virada a seleção da Inglaterra – nesse caso, talvez o Sobrenatural de Almeida tenha se manifestado na presença de Mick Jagger no estádio, com seu já tradicional pé-frio.

De absoluto inopino, me percebi sentindo uma até então desconhecida simpatia pela Croácia, sentimento cuja origem tenho atribuído ao meu “Eu Adolescente dos anos 1990”: a Guerra dos Balcãs durou de 1991 a 1995, o que permitiu que entre meus 13 e 17 anos eu pegasse ranço da Sérvia ao mesmo tempo em que sentia compaixão por croatas e bósnios. Passei esses anos vendo Zagreb , Dubrovnik e outras cidades croatas como cenário das piores notícias, vendo o cerco a Sarajevo, na Bósnia, ouvindo o U2 homenagear Inela Nogic em Miss Sarajevo[2], e lendo matérias sobre Zlata Filipović que, na época, foi tipo uma mistura de Malala com Anne Frank  dos anos 90, e aos treze anos escrevia seu diário na guerra, publicado em 1993[3].

Todas essas lembranças vieram com um espontâneo “caramba, que legal se a Croácia ganhar. Ainda mais com uma campanha dessa, invictos, poxa.”

Pois bem: lá pelas alturas das oitavas de final, já rolavam notícias sobre o que seria um apoio de jogadores croatas ao neo-facismo em seu país. Instantes depois do jogo contra a Inglaterra, reportagens sobre (o que foi entendido como) inclinações fascistas do zagueiro Vida e do auxiliar técnico Ognjen Vukojevic[4] inundaram a internet: foram escavados todos os mais complexos meandros geopolíticos da Península dos Balcãs desde o final da 1ª Guerra Mundial ou até antes; esmiuçaram detalhes históricos anteriores à ditadura de Tito na antiga Iugoslávia; levantaram-se todas as tretas da Ucrânia e do Kosovo com a Rússia[5]. Tudo para demonstrar, por A + B, que não, nada de torcer pela Croácia no domingo: torcer pela Croácia é dar apoio ao neofascismo no leste europeu.

Nesse caso, vamos de França? A França que invadiu a Indochina, a França da guerra contra a independência da Argélia, a França dos imigrantes representada no microcosmo escolar de “Entre os Muros da Escola[6], a França de Jean-Marie e Marine Le Pen?

Bom, complicou: se adotarmos esse critério, será que algum país – e os jogadores que os representam – tem o grau de correição moral política necessário para merecer torcida? Começando pela Alemanha, detentora não só do título da Copa de 2014, mas também de terra natal do Nazismo, o Vilão Político Universal (além do 7 x 1, claro – ufa, ainda bem que caíram na 1ª rodada, que essa torcida ia ser difícil de defender).  Ou o Japão, tão inspirador com seus torcedores limpando os estádios, mas – rá! – e a Ocupação Japonesa na Coreia, ou o horror da prática das “mulheres de conforto”[7]? E como simpatizar com a seleção da Austrália, sabendo o que eles fizeram com os aborígenes?

(Aliás, seguindo nesse caminho, fica difícil até torcer pra país onde tem gente que apóia ditadura militar e usa camiseta enaltecendo torturador, não é mesmo?).

De minha parte, garanto minha humanizante cota de ambiguidades e incoerências afirmando que poderia, sim, ter sido seduzida por uma seleção belga que fosse carismática e jogasse um baita futebol, apesar dos horrores do Congo. Ou que, mesmo achando a “Commonwealth” na melhor das hipóteses uma versão light dos graves problemas criados pelo Império Britânico, continuo amando os Beatles e os Rolling Stones. E que mesmo sabendo da catástrofe neocolonial na Indochina, Argélia ou Senegal, não consigo deixar de adorar Paris, Simone de Beauvoir e a Marselhesa: gente, a cena da Marselhesa em Casablanca[8] é mais linda que a queda da Bastilha e a Torre Eiffel juntas, e que ganha cores carregadas nesse clássico em branco-e-preto feito em 1942, retratando um Marrocos cheio de refugiados de guerra vindos todos os lugares e sem saber para onde iam – os EUA ainda não tinham entrado na guerra e ainda não se sabia que lado vai vencer a batalha. Aliás, o hino nacional francês é cantado nesse momento no filme porque o Marrocos, vejam só, era – sob o eufemismo de “protetorado”- colônia francesa. No mínimo contraditório  os “enfants de la patrie” entoarem seus versos sobre a liberdade triunfando sobre a tirania enquanto invadem a casa dos outros; mas, cara, que cena.

Mas, ainda sobre a França: como não se inspirar pelos ideais da Revolução Francesa, que mesmo aplicados de forma tão distorcida e seletiva pelos séculos seguintes, mudaram para sempre o jeito do Ocidente pensar a si mesmo?Ainda que o maniqueísmo nos ajude a organizar moralmente os sentimentos, não existe mocinho e bandido na política (ok, talvez o Trump seja lá uma exceção honrosa – e, ainda assim, vou fazer a advogada do Diabo e dizer que, naquelas bandas do hemisfério norte, pelo menos o presidente deles foi eleito…).

As coisas não são simples: não deveria ser necessário dizer que torcer pela Croácia não é o mesmo que apoiar politicamente o neofascismo no leste europeu ou onde quer que seja. Ou que torcer pela França é concordar com o que foi feito na Argélia ou na Indochina.

Aliás, o que é “torcer”? É lugar-comum dizer que “saudade”é uma palavra intraduzível da língua portuguesa. Pois bem: já tentou traduzir “torcer”? Não é exatamente o “hope” nem  o“expect” do inglês, nem o “espérer” do francês. Mete “torcida de futebol” lá no Google Translate pra ver: vem “soccer fan”, “les fans de football”; “tifoso de calcio”. Mas, até onde minha ignorância alcança, “torcer”é só no português (e, arrisco dizer, do Brasil). “Torcer” tá mais pro lado do feiticeiro e sua magia, do pensar forte, do querer muito e, se possível, fazer mandinga pra rolar.

Não dá pra ser mais irracional que isso, né?

Pois pensemos agora sobre a torcida de futebol. A gente escolhe por quem torce? Fazemos cálculos sobre desempenho do time, custo e benefício de gritar na arquibancada ou na frente da TV, para livremente escolher aquele que mais ganha? Ou escolhemos “porque meu pai torcia”, “porque minha tia me levava no estádio”, “porque quando eu era criança e assistia ao jogo tinha o fulano que era um craque e eu adorava”?

A torcida de futebol tem muito do sentimento de nação – opa, alguém aí lembrou da Nação Corinthiana? Pois é. O termo “nação” pode ser descrito, muito resumidamente, como um grupo de pessoas que se sente unido por compartilhar determinadas tradições e valores culturais (tais como idioma, religião, história oficial etc), independentemente de reconhecimento jurídico de sua existência: a nação se vale é de seus “símbolos nacionais”, como bandeiras, hinos, brasões, selos e todo tipo de imagem que remeta simbolicamente aos valores acalentados por aquelas pessoas que se identificam como nacionais.

A nação se vale do amor àquilo que reconhecer como seu, e do ódio àquilo que apontar como “O Outro”. Em Comunidades Imaginadas – Reflexões sobre a origem a difusão do nacionalismo, no capítulo sobre Patriotismo e racismo, Benedict Anderson propõe a seguinte reflexão: “Numa época em que é tão comum que intelectuais cosmopolitas e progressistas (sobretudo na Europa?) insistam no caráter quase patológico do nacionalismo, nas suas raízes encravadas no medo e no ódio ao Outro e nas suas afinidades com o racismo, cabe lembrar que as nações inspiraram amor, e amiúde um amor de profundo auto-sacrifício. Os frutos culturais do nacionalismo – a poesia, a prosa, a música, as artes plásticas – mostram esse amor com muita clareza, e em milhares de formas e estilos diversos. Por outro lado, como é difícil encontrar frutos nacionalistas semelhantes expressando medo e aversão!” (ANDERSON, p. 200, 1983). No dizer de Lilia Schwarcz, que assina o prefácio da edição brasileira deste livro, “Há todo um imaginário afetuoso (…), a língua, que conhecemos ao nascer e só perdemos quando morremos, restauram-se passados, produzem-se companheirismos, assim como se sonham com futuros e destinos bem selecionados.” (p. 14).

Faz muito sentido chamar o futebol de “paixão nacional”, e não só no Brasil: as seleções são chamadas  de “nacionais”,  e não “Estatais”. Não por acaso, quem joga na Copa não é “A Seleção do Reino Unido”, ou a “Seleção Britânica”: Escócia, País de Gales e Inglaterra defendem, cada um, sua nação[9].

O nacionalismo é, por definição, irracional. Tem a ver com compartilhamentos de passados simbólicos, afetividades, sentimento. Por isso mesmo, o problema resida talvez em levar os nacionalismos às políticas de Estado, que deveriam obedecer a outros critérios, relacionados à justiça e ao bem comum, por exemplo. Ou decidir o voto a partir de memórias afetivas ou tradições familiares – ou pior, a partir de pseudo-argumentos demagogos e inflados não de amor, mas de ódio nacionalista.

Nessa Copa de 2018, a seleção brasileira não despertou em mim esse sentimento – nem de nação, nem de torcida. E até não jogamos mal (olha aí eu me traindo ao me incluir nesse plural, não é mesmo?), mas, a meu ver, foi justa sua eliminação na fase das quartas. Não dava pra muito mais que isso, não. E não consegui vibrar na torcida no estilo “my country, right or wrong”: não com um futebol que foi, no máximo, ok, e uma seleção bem pouco carismática, que  correu para o vestiário com uma cara mal humorada logo após o apito final, diferente de tantas outras (o Irã, gente, lembram? Ou mesmo o Japão) que emocionaram com seus gestos de agradecer à torcida após serem eliminados.

No fim, quando chegamos à esfera do indivíduo, talvez tudo se resuma as afetividades e idiossincrasias pessoais. Aquilo que afeta cada um. Em 1994 eu tinha dezesseis anos e vibrei demais na Copa dos EUA (e quem me perguntar vai me ouvir dizer que essa foi a melhor de todas as Copas até hoje, e ai de quem vier me falar de 1970, ou 1986). As pessoas da Croácia (da Bósnia, e mesmo da Sérvia) da mesma idade que eu, nesse ano, estavam lidando com bombardeios, cercos às suas cidades e ações de “limpeza étnica” que incluíram campos de estupro de mulheres bósnias e croatas com o intuito de engravidá-las de filhos sérvios[10].

Ver os habitantes de Zagreb em festa após o jogo da semi-final foi como se daqui uns 25 anos a guerra da Síria tivesse acabado e, quando sua seleção chegasse à final da Copa a TV mostrasse Aleppo em festa. Admito francamente que fui tomada de uma sensação de que as crises passam. Que dá pra ser diferente e ter um respiro de euforia na hora do gol. Apesar dos patrocinadores, dos estádios que viraram arena, da alienação (ou, como disse uma amiga numa crítica certeira outro dia: “claro, é só por causa do Neymar e do Galvão que a gente não está fazendo a revolução”) e de tudo de ruim que você quiser achar na copa. Provavelmente há fascistas em Zagreb, sim (aliás, e onde não, hoje em dia? Falo sobre isso neste texto: A pior herança do “Breve Século XX”, mas também teve gente celebrando.

Quem sabe na copa de 2026 não tem festa em Aleppo. E vou ficar emocionada à beça se aquele povo todo estiver no meio da praça que não vai mais estar destruída comemorando uma vitória da seleção síria. E não vou conseguir deixar de me emocionar com isso ainda que nesse dia utópico me digam, sei lá, que agora há extremistas sírios muçulmanos apoiados pelos antigos eleitores de Trump que os financiam para enriquecer a indústria bélica praticando atos terroristas contra grupos feministas no país. Na real: não vou nem tentar não me emocionar.

Maíra Zapater é doutora em Direitos Humanos pela FADUSP, especialista em Direito Penal e Processual Penal (Escola Superior do Ministério Público de SP), graduada em Direito (PUC-SP) e Ciências Sociais (FFLCH – USP). Professora de Direito e Processo Penal na FGV – Direito SP.


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[1] Personagem da crônica esportiva de Nelson Rodrigues, a quem o escritor atribuía as assombrações que prejudicavam o Fluminense.
[2] A canção foi feita em parceria do U2 com Brian Eno, falando sobre o concurso de miss realizado em Sarajevo durante o cerco à cidade. Leia aqui entrevista com Inela Nogic, a Miss Sarajevo, de 2012: http://revistamarieclaire.globo.com/Revista/Common/0,,EMI306749-17737-1,00-DE+VOLTA+A+SARAJEVO+APOS+VINTE+ANOS+FOTOGRAFO+RETORNA+AO+LOCAL+ONDE+ESTEVE+.html
[3] O diário foi publicado em 1993 como livro intitulado O diário de Zlata- a vida de uma menina na guerra (organizou), Em 2008, Zlata organizou com Melanie Challenger o livro Vozes Roubadas – Diários de Guerra (Cia. das Letras, 2008), coletânea de diários de crianças e adolescentes em períodos de guerra.
[5] Sobre o imbróglio dos conflitos entre Rússia e Ucrânia – bem mais complexo do que parece-, vale assistir o documentário Winter is on fire,de Evgeny Afineevsky, 2015. Disponível na Netflix.
[6] Filme de Laurent Cantet. França, 2008.
[7] Termo usado para identificar as mulheres da Coreia e Filipinas obrigadas a trabalhar em bordéis japoneses frequentados pelos militares do país. Veja aqui reportagem: https://g1.globo.com/mundo/noticia/imagens-raras-mostram-mulheres-de-conforto-coreanas-da-2-guerra-mundial.ghtml
[9] Veja aqui matéria bacana sobre isso: https://super.abril.com.br/mundo-estranho/por-que-o-reino-unido-disputa-a-olimpiada-como-uma-unica-nacao/
[10] Sobre esses crimes de guerra, e para um resumo sobre a guerra da Iugoslávia, recomendo o artigo “Campos de estupro: as mulheres na guerra da Bósnia”. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-83332011000200005
Sexta-feira, 13 de julho de 2018
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