De Claude Lévi-Strauss a Lula: As mudanças da imagem do Brasil na Europa
Terça-feira, 22 de janeiro de 2019

De Claude Lévi-Strauss a Lula: As mudanças da imagem do Brasil na Europa

No período em que estive na França, entre 2011 e 2016, no contexto de meu doutorado e pós-doc em Paris e Nanterre, uma situação era constante, aonde quer que eu fosse, na rua, na Universidade, nas lojas, nos parques, nos aeroportos, nos bares e restaurantes, tanto na França, quanto nos outros países pelos quais passei, dentre eles Espanha, Inglaterra, Itália, Portugal e Holanda.

Ao ser identificada como brasileira, quase sempre ouvia comentários eufóricos sobre Lula, Dilma e Gilberto Gil (sim, o Gil!!):

“ – Super le Brésil, Lula et Dilma”, disseram-me muitas vezes os nem um pouco arrogantes parisienses. (É clichê a arrogância dos franceses, mas não corresponde à realidade.)

Logo que fui morar em Paris, no momento em que eu fazia o plano de saúde, o funcionário da assurance olhou-me, ao ler o campo nacionalidade, e disse: “ – J’adore Gilberto Gil!”. Eu fiquei mais surpresa ainda, quando ele me contou que conheceu Gil inicialmente pela função que exercia como ministro de Lula. E só depois passou a ouvi-lo como artista da música.

Durante as aulas de Análise do Discurso, por exemplo, meu orientador da Sorbonne, o profesor Dominique Maingueneau, em algumas oportunidades contextualizava para os alunos, franceses e vindos de todo canto, o Brasil e o governo de Lula. Maingueneau também falava da música do Brasil, que era o tema específico de minha presença ali nas aulas. Uma vez fiquei maravilhada com esse grande teórico da linguagem, quando ele, ao falar de ethos na música, citou os gestos de mão de Maria Bethânia, ao cantar.

Em uma noite de descanso, em um restaurante da Île Saint-Louis, o garçom, quando viu que eu e meu marido éramos brasileiros, comentou: – Ah, tem um músico brésilien que vem sempre aqui. Ele estava falando de, ninguém mais, ninguém menos, Chico Buarque de Hollanda, que mora a poucos metros dali.   

Em outro momento, indo da França para a Itália, no aeroporto de Roma, ao ser “parada” na imigração, por um policial federal (eles normalmente abordam mulheres desacompanhadas, jovens e mestiças), foi sui generis demais, depois de ele saber que sou professora de português, vê-lo quase dançando na minha frente, ao perguntar-me o que significava “shimbalaiê”, termo do hit da cantora brasileira Maria Gadú, que fazia estrondoso sucesso por lá e ele adorava. Mal imaginaria o profissional que eu trabalho exatamente com a análise do discurso das canções.

Em seguida, após a explicação em italiano do que era “shimbalaiê”, do sentido da letra da música, de quem é Maria Gadú e do que ela representa no discurso da MPB, de ele saber que eu era pesquisadora, fazendo estudos em uma das maiores universidades europeias etc., os estereótipos sobre o Brasil caíram ali mesmo na minha frente. Ali, o Brasil estava longe de ser o País do carnaval, da bunda e do futebol. Não demorou nada para o policial começar a falar sobre Lula e de como ele admirava il Brasile.

Por falar em futebol, nunca ouvi de ninguém, na Europa, nesta temporada, o enunciado esperado “ – Brasil, Pelé etc.” (É verdade que eu nunca fui a jogo do Paris Saint-Germain, onde certamente surgiria a relação Rei do futebol, Neymar e parceiros!)

O que significa que, nas últimas décadas, a imagem discursiva do País no mundo foi consideravelmente ampliada, ultrapassando aquela associada ao domínio do corpo (que dança com ginga e se enfeita com classe, que mostra o corpo espontaneamente, que joga magistralmente), para uma imagem ligada a ideias de bem-estar social, as quais incluem a implementação ampla pelo Estado de políticas de educação, saúde e lazer, e abrangem campos como os das culturas e das artes, da música pós-Bossa Nova, das ciências e tecnologias.

Por onde passei neste período, ao falarem de Lula e de Dilma, aqueles que vivem no primeiro mundo olhavam para o Brasil e para os brasileiros com encantamento e extremo respeito e admiração. O ex-metalúrgico, que, de uma origem paupérrima, se transfomou no principal nome de seu País, arrebatava particularmente os franceses, que cresceram com o legado de uma revolução operacionalizada pelo povo.  

É preciso mencionar também que vivenciei na França situações anedóticas por causa de Michel Teló, que era sensação lá com a canção-chiclete “Ai, se eu te pego (Assim você me mata)”. Em rendez-vous festivos, os colegas estrangeiros, que sabiam que eu fazia investigações sobre música brasileira, logo colocavam Teló, para me homenagear. Daí eu explicar que eu não dançava aquela música e que Belchiôr (o objeto de minha tese na USP e Sorbonne) só se assemelhava a Telô (pronúncia francesa), na rima do nome, era um exercício. No fim das contas, eu contava aos amigos que a MPB é bastante diversa, falando um pouco dos tão diferentes estilos e conteúdos das canções. Evidentemente, eles não faziam ideia do significado da letra da música de Teló, mas a avaliavam como vinda de um País muito alegre, de nenhuma maneira falso moralista, que eles desejavam conhecer.

O fato era que o Brasil de Lula e Dilma, e também de Gil, Bethânia, Chico, Gadú, Teló e Gisele Bündchen (cuja beleza aparecia onipresente nos sofisticados outdoors de Paris, Roma e Londres), estava na pauta do mundo europeu (na imprensa e nas ruas) como assunto prestigiado e como país soberano que se posiciona, a partir da arte, da moda e do futebol, é certo, mas, àquela altura, especialmente através da política de melhoria da vida de grande parte de seu povo mais excluído e, no plano internacional, da convivência harmônica com outros povos. Ninguém tem dúvida de que o governo Lula foi o principal responsável por esses deslocamentos positivos da imagem do Brasil na Europa e em inúmeras partes do mundo.

A partir da figura de Lula, nós, os brasileiros, passamos a ser vistos, fora das fronteiras nacionais, muito além dos pré-conceitos que nos carimbaram durante séculos, sobre esta terra denominada pelo grande antropólogo e pensador francês Claude Lévi-Strauss com o epíteto “les tristes tropiques”.

Neste contexto, em que andei por distintos lugares, esse alargamento da imagem do Brasil, além de me encher de orgulho como pessoa, deu-me perante nossos colonizadores um empoderamento expressivo, como professora e acadêmica da língua portuguesa do Brasil, como pesquisadora da música popular brasileira, como mulher nascida numa esquina do mundo, no Nordeste.

Hoje, em pleno momento de discurso político no Brasil, que “prega”, literalmente, a desglobalização e o nacionalismo, com a defesa absurda do fechamento de fronteiras, pergunto-me sobre quem seremos nós diante do mundo a partir de agora.

Que não voltemos a ser os tristes trópicos, pois, permitindo-nos discordar do admirável Lévi-Strauss, nós adoramos a Baía de Guanabara.

Por Josely Teixeira Carlos é pós-Doutora em Análise do Discurso e Música pela Paris X. Doutora em Letras pela USP/Sorbonne. Pesquisadora da USP, com mestrado e doutorado sobre Belchior

 

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