Bolsonaro governa para uma minoria
Segunda-feira, 1 de julho de 2019

Bolsonaro governa para uma minoria

 

Por Talita Ferreira de Brito dos Reis

 

O Presidente Jair Bolsonaro é o autor da frase que diz que “as minorias tem que se curvar para as maiorias”, proferida em 08 de fevereiro de 2017, em um comício em Campina Grande.

 

O mais curioso de tal afirmação é que o Presidente quis, no seu simplório entendimento do que seriam as “minorias sociais”, dizer que a maioria numérica da população é conivente com seus discursos e entendimentos, e que, portanto, aqueles que por ele se sentem ofendidos, vulnerabilizados e fragilizados, devem assim permanecer, uma vez que a maioria estaria ao seu lado.

 

Ocorre que, nesses primeiros seis meses de governo, Jair Bolsonaro tem adotado medidas que são voltadas para as pequenas parcelas da população, ou seja, para as minorias numéricas do país, a elite. Isso se comprova na medida em que, por exemplo, o Presidente cancela o contrato de radares fixos e móveis em rodovias, quando diz que eles seriam “armadilha para pegar os motoristas”.

 

 

Em um levantamento feito pelo jornal Folha de São Paulo, ficou constatado que a redução média de mortes foi de 27,7% nos quilômetros de rodovias federais em que os radares foram instalados. Ademais, os referidos dados ainda apontam que teria havido uma redução de 15% nos índices de acidentes após as instalações dos dispositivos. Esse contexto levanta o questionamento acerca de quem seria a população beneficiada com a medida adotada pelo Presidente. Se não for a elite, talvez, os borracheiros? Mecânicos? Aqueles que terão mais trabalho no conserto de carros, provavelmente, pois os motoristas, em razão de eventual imprudência, negligência ou imperícia, por não terem nenhum aparado que de certo modo condicione suas ações, serão cada vez mais vítimas de acidentes, inclusive fatais.

 

Ainda relativamente aos veículos automotores, trânsito, segurança e afins, o Presidente quer acabar com a multa imposta para quem transportar crianças no carro sem cadeirinha, indo de encontro ao que entende 85% dos pais de crianças. Dessa forma, percebe-se que a proposta de alteração do Código de Trânsito Brasileiro desagrada a maioria da população que por ela seria atingida e, supostamente, beneficiada. A segurança no trânsito e a manutenção de condições que diminuam índices de prejuízos à população parecem ser alvo direto de tais medidas que, sob o pretexto de conferir mais liberdade aos indivíduos, acabam sendo extremamente contraproducentes e desvantajosas à sociedade como um todo. 

 

 

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Outra medida polêmica do então Presidente, Jair Bolsonaro, seria a tentativa de facilitar o porte de armas para a população. Apesar de o Senado ter aprovado, em 18 de junho de 2019, por 49 votos a 28, o parecer da Comissão de Constituição e Justiça que pede pela suspensão de decretos com essa finalidade, resta saber quem seria o real beneficiário da medida, uma vez que uma arma pode chegar a custar o preço mínimo de R$ 3.000,00 até o valor de um carro popular. Insta salientar que, de acordo com dados levantados pelo IBGE, 50% da população ganha menos que um salário mínimo por mês, enquanto 1% da população ganha 36,3 vezes o valor que os 50% recebe. Isso quer dizer que uma Minoria numérica poderia fazer jus a tal medida, uma vez que possuir uma arma não seria uma prioridade daqueles que têm fome.

 

Percebe-se, portanto, que apesar de “as minorias terem que se curvar às maiorias” no entendimento do Presidente, o próprio tem adotado posicionamentos e atitudes que beneficiam uma pequena parcela da população. Ou seja, Minorias, mesmo que numéricas. Esse Governo, então, se configura como um Governo direcionado à minoria, uma vez que, aparentemente, uma ínfima parcela da população que possa não se entender privilegiada o suficiente na sociedade brasileira, e com o custo de colocar a si própria em risco, apoia tais medidas.

 

 

Talita Ferreira de Brito dos Reis é graduanda em Direito, na modalidade Integral, pela Escola Superior Dom Helder Câmara.

 

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