26 de julho lembra das mães de Acari e seus filhos desaparecidos
Sexta-feira, 26 de julho de 2019

26 de julho lembra das mães de Acari e seus filhos desaparecidos

Foto: Reprodução Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência

 

Por Cassiano Ricardo Martines Bovo

 

Na noite de 26 de julho de 1990, três garotas menores de idade e oito rapazes (sendo cinco também menores) estavam em um sítio em Suruí, município de Magé (RJ), quando homens encapuzados, identificados como policiais, os levaram de lá. Seus corpos nunca mais foram encontrados, a não ser a Kombi de um deles, abandonada nas proximidades. 

 

 

“Se nossos filhos fossem ricos e não negros, pobres e favelados, os culpados já teriam aparecido e nós teríamos sido tratadas de outra maneira”  disse Vera Lúcia Flores Leite, mãe de Cristiane Souza Leite, 17 anos.

 

Edméia, mãe de Luís Henrique da Silva Euzébio (16 anos), uma das vítimas, foi assassinada em 1993 no estacionamento da Estação de Metrô Praça Onze, após ter visitado um preso no Presídio Hélio Gomes (Estácio) e, de acordo com as investigações, ter dado importante passo na elucidação dos fatos. 

 

Esse caso se reveste de especial importância porque: 

1 – Antecedeu uma série de outras chacinas (Candelária, Vigário Geral, Nova Brasília etc.) e massacres (Carandiru, Eldorado dos Carajás, Corumbiara etc.) que proliferaram na década dos 1990 e se tornaram famosos pela quantidade de mortos. 

 

2 – É precursor de um conjunto de ingredientes e características dos mais variados casos que virão em seguida e até os dias de hoje, se não igualmente, de forma análoga, em termos de padrões investigatórios, de impunidade, dentre outros. 

 

3 – Gerou o movimento “Mães de Acari” (em alusão ao fato de que a maioria das vítimas morava na Favela de Acari, na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro). A importância de seu surgimento, além do fortalecimento da luta, é que se trata da primeira experiência desse tipo no Brasil, ao que se sabe; a semente de tantas organizações e movimentos que surgiram como forma das mães lutarem contra a violência do Estado, como ex., Mães de Maio, Rede de Mães e Familiares da Baixada Fluminense, Mães em Luto da Zona Leste (SP), Mães de Curió, Mães de Manguinhos, Mães de Maio do Cerrado, Mães do Xingu, Mães Mogianas, Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência, Associação de Mães e Familiares de Vítimas de Violência do Estado do Espírito Santo, dentre outras, num país de tantas chacinas cometidas por agentes de segurança pública. 

 

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4 – Fez com que a mães tivessem que atuar como “investigadoras”, como acontece até hoje e que neste caso isso custou a vida de Edméia. As mães cobram, pressionam e fiscalizam para fazerem os processos e investigações andarem em meio à tão conhecida morosidade e falta de vontade que redundam em impunidade e injustiça. As mães fazem da luta o motor para aplacar a dor da perda de seus filhos (e neste caso, em especial, num luto incompleto).

 

5 – As Mães de Acari, como a maioria delas nos demais casos, tiveram que lutar contra a estigmatização e o preconceito de parcela da mídia (inclusive com matérias repletas de erros e imprecisões), autoridades governamentais e jurídicas, muitas vezes sendo chamadas de “mães de bandidos”, quando, na maioria dos casos seus filhos não eram, e se fossem, não justificaria a execução. Trata-se de sobreposição de lutas que elas têm que travar, e esta, com profundas repercussões subjetivas; estratégia de criminalização com vistas a deslegitimar e enfraquecer os movimentos de mães assim como tornar impunes os algozes, mas as mães não desistem.  

 

6 – Teve o mesmo script da maioria dos casos: investigações superficiais e inconclusas, prescrição e arquivamento por falta de provas, não punição ou absolvição dos réus, seguindo o padrão que as mães bem conhecem. O inquérito deste caso prescreveu em 2010 e ninguém foi indiciado. 

 

7 – Revelou a impunidade e o acobertamento de grupos de extermínio compostos por policiais civis e militares, como até hoje acontece. No caso da Chacina de Acari, tratou-se de um dos mais famosos à época, os Cavalos Corredores, responsável também pela Chacina de Vigário Geral. 

 

8 – Acari continua sendo um local de corriqueira violência policial, tanto que o relatório “Você matou meu filho!”, da Anistia Internacional (2015), embora trate da violência policial em geral, retrata dez casos de mortes decorrentes de intervenção policial na Favela de Acari; nove comprovadamente se tratam de execuções extrajudiciais. O relatório é repleto de depoimentos de mães. A Anistia Internacional atuou intensamente na chacina e na morte de Edméia, de várias formas, inclusive com ações urgentes. 

 

A situação hoje em relação a esse caso é a seguinte: em 2011 o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro denunciou sete pessoas (a maioria policiais militares, inclusive um ex-comandante da PM e ex-deputado) pelo assassinato de Edméia. Em 2014 eles foram acusados de homicídio doloso e deveriam ser levados a júri popular. Houve apelação à instância superior e até agora ninguém foi julgado. 

 

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Como afirmou Jurema Weerneck, Diretora-executiva da Anistia Internacional Brasil, no ano passado:

“É inaceitável que, mesmo após 25 anos, o assassinato de Edméia continue impune. Neste tempo, durante as últimas duas décadas e meia, os possíveis responsáveis pela sua morte continuam andando livremente e progredindo em suas carreiras como policiais, alguns chegando a altos postos dentro da Polícia Militar”.

 

Então, ao menos, saudemos essas guerreiras e precursoras mães dos “onze de Acari”:

Ana Maria da Silva, Denise Vasconcelos, Edméia da Silva Euzébio, Ednéia Santos Cruz, Joana Euzilar dos Santos, Laudicena Oliveira do Nascimento, Márcia da Silva, Maria das Graças do Nascimento, Marilene Lima de Souza, Tereza Souza Costa e Vera Lúcia Flores Leite.

 

 

Para conhecer o caso com profundidade propõe-se a leitura dos seguintes conteúdos:

 

Livros:

Nobre, Carlos. Mães de Acari: uma história de luta contra a impunidade. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994. Com prefácio da ex-primeira-dama francesa Danielle Miterrand. 

Nobre, Carlos. Mães de Acari: uma história de protagonismo social. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio; Pallas, 2005

 

Dissertação de mestrado:

Araújo, Fábio Alves. Do luto à luta: A experiência das Mães de Acari. Dissertação de mestrado apresentada no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro em julho de 2007.

 

Relatórios:

Anistia Internacional. “Vim buscar sua alma”: o caveirão e o policiamento no Rio de Janeiro. Londres: Anistia Internacional, 2006.

Anistia Internacional. Você matou meu filho!: homicídios cometidos pela Polícia Militar na cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Anistia Internacional, 2015. 

 

Matérias da Anistia Internacional: 

Brasil: Vinte e cinco anos de impunidade alimentam as mortes cometidas pela polícia no Rio de Janeiro. 

25 anos da chacina de Acari expõe crise aguda do sistema de justiça criminal no Brasil. 

26 anos da Chacina de Acari.

 

Outras matérias: 

Após 25 anos, responsáveis pela chacina de Acari não foram punidos.

25 anos da chacina de Acari expõe crise aguda do sistema de justiça criminal no Brasil.

A chacina de Acari.

Mães de Acari pedirão ajuda internacional.

20 anos da chacina de Acari.

Chacina de Acari: manifestação contra arquivamento do caso reúne 150 pessoas.

 

Vídeos:

[DVD TV] – Crimes no Brasil – Chacina de Acari, em 1990.

Chacina de Acari completa 25 anos em meio à discussão sobre impunidade. 

Chacinas: Memórias de um passado presente – Ep.05 (Acari) 

 

Cassiano Ricardo Martines Bovo  é doutor em Ciências Sociais, mestre e graduado em Economia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Organizador Nacional Estratégico da Anistia Internacional Brasil, membro de Conselho Superior e coordenador de Departamento de Pesquisa de IES.

 


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