“Mais alguém, alguém mais?”
Terça-feira, 6 de agosto de 2019

“Mais alguém, alguém mais?”

Imagem: Minilua

 

Por Pedro Daniel Blanco Alves

 

Há quem denomine “empreendedor” o jovem que burla a selvagem vigilância dos trens de São Paulo na tentativa de buscar sustento com a venda de todos os conhecidos itens do cardápio do “empreendedorismo” de uma economia periférica.

 

 

Em tempos de recrudescimento das políticas neoliberais, que de tão violentamente correspondentes ao pensamento hegemônico já não parecem destoar da aparente concretude manifesta a cada partícula do cotidiano, o drama do emprego nacional, que é uma das expressões do desemprego estrutural, parece camuflar-se por entre os elementos da paisagem social.

 

Segundo o IBGE, a força de trabalho brasileira é composta por 106,1 milhões de pessoas. O país encerrou o primeiro semestre de 2019 com 12,7 milhões de desocupados (12%), 7,3 milhões de subocupados por insuficiência de horas trabalhadas (6,9%) e 4,8 milhões de desalentados. Lidos conjuntamente, estes números totalizam quase 25 milhões de indivíduos, compondo a subutilização da força de trabalho. Da população ocupada, 24,1 milhões de pessoas exercem trabalho por conta própria (22,7%), das quais 19,3 milhões (80,3%) não possuem CNPJ, o que revela a preponderância da informalidade neste segmento ocupacional.

 

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Há quem denomine “empreendedor” o jovem que burla a selvagem vigilância dos trens de São Paulo na tentativa de buscar sustento com a venda de todos os conhecidos itens do cardápio do “empreendedorismo” de uma economia periférica. Por aqui, não é raro que se traduza como “inovadora” a sobrevivência nascida dos caminhos tortuosos de um trabalho intrinsecamente cruzado com a violência e insegurança em todos os níveis da subjetividade.

 

Narra a ilustração contemporânea, formada da grotesca ideologia do “self-made man”, que não se trata de sobreviver a partir da precariedade e da miséria, da explicitação espetacular de uma ferida que suplica, por sua imagem própria, socorro. É que o jovem inventivo, diz a narrativa, bem-sucedido nas vendas e na fuga do desemprego e da patrulha ostensiva, brilha no cenário da informalidade.

 

“Vai dar certo, seguramente, em qualquer ofício”, cochicham dois passageiros que parecem nunca terem entrado num trem, onde tudo é tão comum. “É um cara do marketing, veja como toca o desejo do público. Jovem talentoso! Daquele jeito venderá todo o estoque.”

 

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E, como todos ali, os turistas da linha férrea têm a oportunidade de se aproximarem de sua caricatura idealizada. “Patrão, patroa, é delícia, é qualidade; um por dois, três por cinco.” E não perdem a chance. “Mas você é bom nisso… Onde aprendeu a ser tão convincente?”

 

Agarrado aos dois embora separando mundos inteiros, o olhar do jovem trabalhador parecia revelar uma tal eloquência, também dirigida a si mesmo como se carregando a simplicidade de uma expressão secreta. Num instante em que o tempo parecia transcorrer tão vagarosamente, os poucos silenciosos segundos que antecederam a partida do garoto demoliram por inteiro a ponte que supostamente teria se formado entre os dois universos. Autofalante, o olhar era um projétil petrificante.

 

A resposta não audível era tão inequívoca a quem ali tenha sido capturado, que seguramente dava por encerrada qualquer tentativa de inquirição científica de um mundo cão, onde as constatações percorrem racionalidades próprias. Uma vez empurrado novamente para a concretude, já que por um instante transportado para o devaneio dos outros, o jovem aproveitava o último tempo de seu ponto itinerante para despistar tergiversações sobre aquilo que não teria acontecido, não para ele. “Mais alguém, alguém mais?”

 

E o espetáculo da reificação daquele corpo, que na realidade é o corpo de milhões de indivíduos absorvidos informalmente por um mercado de trabalho marcado estruturalmente por formas precárias de reprodução, prosseguiu em sua sina de sobreviver.

 

 

Pedro Daniel Blanco Alves é advogado em São Paulo

 


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