Adolf Eichmann: um “cidadão de bem” do seu tempo
Sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Adolf Eichmann: um “cidadão de bem” do seu tempo

Arte: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Raique Lucas de Jesus Correia e Marta Gama

 

Era 11 de Abril de 1961, quando Adolf Eichmann, após ser capturado na Argentina, enfim foi levado a julgamento por crimes praticados contra o povo judeu. Ao contrário do que as circunstâncias poderiam fazer acreditar, sentava-se no banco dos réus, um homem pacífico, comum, nada “assustador”, a bem da verdade, um homem de muitas “virtudes”.

 

 

Despido dos “estereótipos”, Eichmann não era o que a promotoria e, de certa maneira, toda opinião pública esperavam, nem mesmo o que ele próprio imaginava ser, pois sua vida pautada em várias tentativas de se tornar uma pessoa importante no governo nazista, foi tão frustrada quanto os esforços dos seus acusadores em colocá-lo como um dos arquitetos da Solução Final, ao extremo de enquadrá-lo como um antissemita pior ou tão pior quanto Hitler. 

 

Eichmann não era um monstro ou alguém movido pelos ideais mais diabólicos, surpreendentemente, qualquer um que o conhecesse, não enxergaria nada além de um homem absolutamente monótono e “normal”, como a maioria das pessoas são, sem qualquer traço de maldade, ou qualquer característica que pudesse induzir a imagem de um sujeito cruel e perverso. Pessoalmente, escreve Hannah Arendt, “ele não tinha nada contra os judeus; ao contrário, ele tinha ‘razões pessoais’ para não ir contra os judeus”[1], conta-se, inclusive, de um relacionamento amoroso que ele havia tido com uma mulher judia antes de todo o horror do regime nazista.

 

Como se pode ver, estamos diante de um sujeito totalmente estranho daqueles julgados em Nuremberg, não se tratava de alguém do alto escalão, como Göring ou Kaltenbrunner, muito menos, um antissemita radical, Eichmann estava mais para o que sobrou do nazismo, do que para sua real encarnação. Nem burro, nem doutrinado, uma pessoa em perfeito estado mental, Eichmann é um daqueles casos que desafiam a lógica; como seria possível admitir que uma pessoa como Eichmann pudesse ser capaz de promover a morte e o sofrimento de centenas de milhares de pessoas?

 

Para esta pergunta, não há uma resposta óbvia, completa ou absoluta, o que há – e o que de fato nos interessa – são pistas de um fenômeno maior, de um dilema moral profundo e que talvez nunca se esgote, sobretudo, se imaginarmos que Eichmann não foi o único nestas condições, ele não era uma exceção dentro do Reich a propósito, naquele cenário só se podia esperar que os “anormais” agissem dentro da “normalidade”. Estamos, portanto, diante de uma espécie de “mal” sem sua face diabólica, um “mal” que não se pode enxergar tão claramente quanto se pôde ver luminoso em Hitler e, por essa razão, um “mal” que é mais devastador que todos os outros tipos juntos. 

 

De fato, não encontraremos em Eichmann o “mal explícito” ou uma personalidade sádica, contudo, isso não o torna menos assustador, ao contrário, só mostra como o “mal” é multiforme e, por isso, dispensa sua face demoníaca. Neste sentido, a “banalidade do mal”, em seu aspecto mais autêntico, nada mais é do que uma falta de consciência sobre os próprios atos, a tal ponto do “mal” torna-se imperceptível, algo natural e, inclusive, exigível. Não à toa, milhares de alemães muitos dos quais assim como Eichmann, sem ódio aos judeus ou qualquer predisposição a perversidade, em outros termos: “cidadãos de bem” , tornaram-se os mais sanguinários algozes do último século.

 

Respeitador das leis, defensor da família e dos bons costumes, contrário a corrupção, defensor vigoroso da pátria e com notável gosto pelo trabalho, Eichmann é a imagem perfeita de um eleitor do Bolsonaro, com a única diferença de que na sua época ainda não existia o WhatsApp e, claro, a bandeira da Alemanha não é verde e amarela. Salvo esses detalhes menores, Eichmann representa com maestria o que é ser um “cidadão de bem” e as consequências de se adotar uma postura como esta. 

 

Como um bom funcionário, Eichmann era implacável no cumprimento de suas funções, a ponto de “[…] embarcar milhões de homens, mulheres e crianças para a morte, com grande aplicação e o mais meticuloso cuidado”[2] e, por isso, “só ficava com a consciência pesada quando não fazia aquilo que lhe ordenavam”[3]. Como um bom pai de família, “sua atitude quanto a esposa e filhos, mãe e pai, irmãos, irmãs e amigos, ‘não [era] apenas normal, mas inteiramente desejável”[4]. Como um bom cidadão, quem haveria de negar, a rigor, seu exacerbado patriotismo, a ponto de permitir a morte de milhares de judeus por amor a sua nação. E, finalmente, enquanto muitos daqueles que ficaram conhecidos como “ala moderada” do partido nazista, já no período de decadência do Reich, inclusive, Himmler, apoiavam a venda de judeus, mesmo sabendo que esta não era a ordem da “Solução Final” ainda em curso, Eichmann quando tomou conhecimento destas práticas, não cedeu à corrupção, indignado, manteve-se firme até o último momento a Hitler e sua lei. 

 

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Como um “cidadão de bem” da sua época, seria improvável acreditar que em circunstâncias mais favoráveis, Eichmann viesse a responder por qualquer crime. Talvez pela má fortuna tenha nascido no lugar errado ou num período adverso, mas estes argumentos não podem servir como justificativa em face daquilo que ele executou, muito menos significar que uma postura como a de Eichmann é desejável em circunstâncias ditas “favoráveis”. 

 

Sua incapacidade reflexiva e nada mais foi o que o tornou um dos grandes criminosos do último milênio, o que nos leva a conclusão de que o “mal” nem sempre se apresentará com “chifres” e “rabo”, o que conflui, aliás, com a descrição das Escrituras acerca da beleza de Lúcifer. De igual forma, a “banalidade do mal” esconde qualquer traço de feitura, dissipa o odor e a repulsa que o “enxofre” nos causa, mas mesmo com essas perfumarias, não se poderia negar a aparência de “diabo”. 

 

Consequentemente, diante deste outro aspecto do maligno, seria ingênuo acreditar no reducionismo que se faz entre aqueles que são do “bem” e aqueles que são do “mal”. Essa rotulação esdrúxula, só leva em conta o “mal” e o “bem” tomados em sentido caricato, bem por isto, todo “cidadão de bem” ama dizer que é trabalhador e que não gosta de “vagabundos”, o seu lema é: “bandido bom é bandido morto”, mas isso só vale para alguns “tipos” de bandidos, não são todos, afinal, o “cidadão de bem” pode dirigir bêbado de vez em quando, sonegar impostos (como já defendeu o atual presidente), assistir filmes piratas, fazer gato da NET ou SKY, tudo isso sem qualquer peso na consciência, o que por sinal, faz sentido, mesmo porque assim como Eichmann, o “cidadão de bem” não tem consciência. 

 

“Só o bem tem profundidade e pode ser radical”[5], não existe uma “banalidade do bem”, ou seja, para fazer o bem é preciso querer e, mais do que isso, é necessário pensar. Todo “cidadão de bem” esconde em si um potencial destrutivo, em circunstâncias mais favoráveis não representam um grande problema, porém, as circunstâncias mudam, e assim como sucedeu a Eichmann, diante de circunstâncias desfavoráveis todo mal se torna possível, pois ainda que não possa ser radical e profundo, o mal pode vir a ser extremo, e não é preciso ser maligno ou perverso para perpetrá-lo; uma “existência inautêntica”, impessoal e mecanicamente ordenada, torna-se imediatamente o território perfeito para a “banalidade do mal”. “Essa distância da realidade e esse desapego podem gerar mais devastação do que todos os maus instintos juntos — talvez inerentes ao homem”[6], e essa é, de fato, a maior lição que pode ser aprendida com o julgamento de Jerusalém. 

 

 

Raique Lucas de Jesus Correia é discente do curso de Direito do Centro Universitário Social da Bahia (UNISBA). Voluntário do Programa Institucional de Bolsas para Iniciação Científica (PIBIC).

Marta Gama é doutora e mestra em Direito, Estado e Constituição pela Universidade de Brasília (UnB). Docente do Centro Universitário Social da Bahia (UNISBA). Pesquisadora no Grupo de Pesquisa Políticas e Epistemes da Cidadania (GPPEC/CNPq). Advogada e sócia-gerente da sociedade de advogados Gama, Pinto & Ribeiro.


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Notas:

[1] ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: Um relato sobre a banalidade do mal. Trad. José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1999, p. 20.

[2] Ibidem, p. 19.

[3] Ibidem

[4] Ibidem

[5] ARENDT, Hannah. O Mal pode ser extremo, não radical. Carta de Hannah Arendt. 2015. Trad. Moisés Sbardelotto. Disponível em: <http://www.ihu.unisinos.br/169-noticias/noticias-2015/539470-o-mal-pode-ser-extremo-nao-radical-carta-de-hannah-arendt->. Acesso em: 19 set. 2019.

[6] Op. Cit., p. 172.

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