Corpo e Alma do Brasil: ostracismo dos não-convidados
Segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Corpo e Alma do Brasil: ostracismo dos não-convidados

Imagem: Rovena Rosa / Agência Brasil

 

Por Marilia Gabrielle de Paula

 

No dia 03 de novembro deste ano, o Exame Nacional do Ensino Médio solicitou em sua edição que os alunos redigissem um texto dissertativo sobre a “democratização do acesso ao cinema no Brasil”. Lembremos que o Enem é a avaliação que viabiliza, em maior extensão, o ingresso de jovens oriundos da rede pública às universidades federais assim como possibilita a concessão de bolsas e de financiamentos estudantis. 

 

Contudo, a ambiguidade do tema em um contexto ápice de descaso com ensino básico e com a agenda de pesquisa científica no país, sobretudo envolta no obscurantismo da extinção do Ministério da Cultura, causou incômodo e revelou como as atenuações simplistas de sua ontologia evidenciam a necessidade de que se remonte as matrizes complexas e profundas dos legados da colonização e da escravidão. 

 

Perguntas ressonantes: como um adolescente que nunca frequentou um cinema poderia situar-se confortavelmente para articular sobre a problemática exposta? Por que faz parte do projeto educacional não levar em conta a otimização do desempenho de populações limítrofes, fronteiriças, ribeirinhas e de baixa renda? Vejamos.

 

Canindé, meados da década de 1950. 

 

Na primeira grande favela da cidade de São Paulo, o filme divulgado durante uma campanha contra esquistossomose realizada pela Secretaria da Saúde forjou-se, para seus moradores, como a aparição do cinema de rua descrito no livro Quarto de despejo, escrito por Carolina Maria de Jesus e publicado em 1960. 

 

Dada a construção do imaginário social e aquém dos benefícios provenientes do período de intenso processo de industrialização e urbanização no país, firmou-se que a iluminura da cena disposta àqueles sujeitos em situação de extrema vulnerabilidade seria, por sua vez, tão somente o de ver “como é que o caramujo” transmitia a “doença anêmica”. Nos anos 1960, nem barracos lhes sobraram, a favela foi desocupada para a construção da Marginal Tietê e Canindé sumiu do mapa ainda esperando o cinema que nunca chegara.

 

No Brasil, nada é mais romantizado do que a engrenagem da marginalização que compõem nosso o “corpo e alma”[1] enquanto Estado-nação. Há, ainda hoje, quem leia a obra da escritora e naturalize seus pontos nevrálgicos junto às arestas sangrentas de nossa desigualdade socioeconômica e político-cultural. E, como uma avalanche que nenhuma vanguarda futurista fora capaz de prever, 2019 ainda parece ser o ano distópico no qual existe quem, mesmo estando de barriga farta, negue a fome no estômago alheio. 

 

Em redes sociais pode-se encontrar gente esbravejando que a Terra é plana e defendendo a censura para jornais de grande circulação. Por coincidência ou não, eles glorificam o suplício e demonizam a ciência. Não sei se pelos astros ou se pelo acaso, tem também aquele que envia vídeo no grupo do WhatsApp dizendo que “ator hollywoodiano está queimando a Amazônia: [vejam as provas!!1!1]”. Deem-me a licença poética para a grafia dessa última expressão. No entanto, o escárnio fatídico vem da seguinte constatação: não seriam eles a mesma gente? Bom, o Brasil nunca foi para principiantes. 

 

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Mas se: penso, logo existo, então, penso eu – dentro da lógica cartesiana – que para termos um filete de pluralidade nas narrativas sociológicas, precisamos debater as consequências que advêm de grupos altamente sádicos no poder e escolhidos mediante voto democrático, não à toa, por essa mesma gente que insiste em não reconhecer a assimetria social gerada pela falta de equidade que nos assola. Que fique claro: a não compreensão dos eleitos sempre foi uma escolha. Não obstante, voltemos. A discussão sobre educação e seus movimentos de alcance à cultura precisa ser feita não somente na esfera pública, mas em todas as miudezas das esferas privadas.

 

De acordo com o ensaio Raízes do Brasil, 1936, do historiador e sociólogo Sérgio Buarque de Holanda, aqui nos trópicos, como herança de nossa colonização aventureira e da mentalidade escravocrata, esteve presente em nossa formação social uma tal de cordialidade. Longe de pressupor apenas gentileza, concórdia ou bondade, ela consistiria em um traço, espécie de dificuldade estrutural que nos distanciaria da validação de normas e comportamentos calcados em relações abstratas e impessoais. 

 

Nesse sentido, vinculadas à cordis e, portanto, juntas do coração, as relações com fundo emocional estariam na base da cultura personalista que permeia as nossas instituições políticas. A noção de familiaridade a qual nos remete o termo vai, numa ambivalência, aproximando indivíduos socialmente desiguais, feito nos bairros de Paraisópolis e Morumbi. 

 

Isso, pois, o cunho afetivo e transbordante transforma o coração em ponto central, marginal e violento, que, em última instância, acaba sendo uma afabilidade muito perversa. Nesse cenário, o ato de avizinhar contrários não garantiu historicamente que se popularizasse e que fossem asseguradas as premissas de cidadania e de direitos humanos ao contingente periférico da equação, nem às suas práticas e tão pouco às suas demandas.

 

Paraisópolis, dia primeiro de dezembro de 2019. 

 

Segunda maior favela de São Paulo e a quinta maior do país. Nove pessoas morreram, por pisoteamento, e mais 12 ficaram feridas durante uma intervenção policial no “tradicional” Baile da 17, evento que reuniu cerca de mais de 5 mil pessoas na última madrugada de domingo. 

 

O que se sabe, dentro das “causas” que ainda estão sendo apuradas por competências jurídicas e de segurança pública, é que o ocorrido envolveu arbitrariedade e abuso de poder por parte das autoridades que estavam no local. Vídeos, imagens e depoimentos apontam para uma atuação fortemente repressiva, na qual os PMs utilizaram munição química, bombas de gás lacrimogênio e de efeito moral, balas de borracha, golpes com cassetetes e também, com sarcasmo, hostilizaram os jovens ali presentes. 

 

Na versão da polícia, a mesma afirma que, na tentativa de abordagem de uma motocicleta a qual, em fuga, disparava tiros contra os policiais, a PM cercou a área onde aconteciam os pancadões e o encurralamento daqueles indivíduos, teoricamente, justificaria-se pelo uso, agora por parte dos supostos “criminosos”, de um escudo humano na réplica de escapar. 

 

Para responder ao sistema, o jeito escolhido, ainda que fosse o pior, então, consistiu em acuar e agredir inocentes. No entanto, os policiais até o momento não encontraram nem a moto perseguida e nem sequer seus ocupantes. As vítimas, que tinham entre 14 e 23 anos, reforçam as estatísticas de minorias que morrem mais cedo e de forma mais belicosa e colérica. Para além dos futuros esclarecimentos e verificação total dos fatos, o Brasil possui um longo e ultrajoso currículo disponível para análise.

 

Perto do aniversário do mais célebre revolucionário antagonicamente torturado e assassinado da história, todavia, o que se ouve não são sons natalinos ou presságios de ressurreição. “Rá tá tá tá, Fleury e sua gangue vão nadar numa piscina de sangue”. Ao contrário, os mais atentos escutam, desde a hecatombe, o que sai das sombras do diário de um detento, do diário de uma favelada, do diário dos mortos em Paraisópolis. Mas o Enem não pede para que os candidatos escrevam diários, certo? Voltemos, mais uma vez. 

 

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Na madrugada de domingo, abutres cercaram os corpos de jovens, negros e pobres que não frequentam os cinemas e que não podem pagar por ingressos que custam, no mínimo, trinta reais. Nas alcovas, são adolescentes que não existem na geografia das cidades e na arquitetura dos centros culturais da metrópole. Infames, são atropelados em vielas e tocas estreitas, pois, afinal, ali nos bailes a entrada é de graça. E o medo também.

 

Não há como democratizar salas de cinemas enquanto caminharmos sobre corpos alvos pisoteados. O que têm em comum os que negam ingressos a jovens periféricos? A mesma racionalidade instrumental que espreme, em um funil, os alunos coagidos por não conhecerem cinematografia é a mesma que repudia a criação de suas próprias formas de entretenimento. 

 

Desse modo, o método dialético de exclusão se (re)institucionaliza na nova eugenia de pacotes anticrime que separa da lei, mais uma vez, os bem nascidos e condena outros por perfis genéticos e biológicos projetados em preceitos racistas de embranquecimento do Brasil, os quais suprimem as questões de respeito às diversidades étnicas-culturais. Que tempos virão, os de Francis Galton, Lombroso e Gobineau? É inviável organizar o futuro pautado no pressuposto da volta. 

 

Na terça-feira (03), o Ministério Público do Rio de Janeiro denunciou o policial militar Rodrigo José de Matos Soares, o qual foi acusado de homicídio qualificado pela morte de Ágatha Felix, 8 anos, morta em setembro no Complexo do Alemão, Rio de Janeiro. Já no dia seguinte, quando acordei para terminar este texto, deparei-me com outra notícia de óbito na favela de Heliópolis, em São Paulo, devida a ação bruta da polícia militar, a qual teria acontecido na mesma noite do ocorrido em Paraisópolis. 

 

Temos, em vista disso, outro corpo jogado em um beco e a lembrança iminente de uma criança agonizando dentro de uma kombi somados a pés por cima de pessoas. É impossível morrer em paz nas periferias. Nem após a morte há sossego e, assim, não se é livre nem quando a alma deixa de habitar um corpo condenável. Eles não valem nada – dizem.

 

Por essas e outras razões, quer queiram, quer não, teremos de falar sobre a democratização dos espaços, públicos e privados, e da inadequação de corpos negligenciados. De uma cidadania esfacelada. Tudo isso enquanto houver gente que nunca pôde comer da sua própria arte e enquanto tiverem a negação do direito de ir e vir, de transitar, de dançar. 

 

Não é sobre pão e circo. “Vocês não entenderam nada” já havia dito Caetano. É sobre a permissão simbólica e legítima do deleite de manifestações artísticas afro-brasileiras. É sobre ter funkeiros no baile Dz7 e nos cinemas. É sobre ter pessoas vivas. Vivas. E, assim, normatizar seus acessos aos lugares onde elas desejem estar. 

 

A arte é um tipo sublime de comida. E não há espetáculo mais bonito do que comer no sentido mais antropofágico possível. Ela é, simultaneamente, o fomento e o eixo complementar da educação, aquilo que nos dá insumo vital. O que acontece é que o Estado confunde caos com ordem e progresso com extermínio. 

 

Teimam em alegar que a antropofagia foi um delírio oswaldiano nessa paulicéia desvairada. E, agora, se a necropolítica carioca de Witzel parece não ser, sozinha, o suficiente para a barbárie, do lado de cá encurralamos a carne mais barata do mercado à la política doriana, da mais nociva, aquela que nada tem a ver com comercial de margarina.

 

O Estado brasileiro é agente basilar e responsável pela desnutrição sumária que desemboca em aniquilação. Porém, no banquete dedicado a celebrar as vidas que foram historicamente consideradas desprezíveis não se convida urubus. Hoje temos velas e velórios, o caminho é árduo, mas a história é agitada.

 

Arrombem as portas: porque eles vão entrar.

 

 

Marilia Gabrielle de Paula é mestra em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Paulo. Pesquisadora nas áreas de Pensamento Social Brasileiro e Sociologia da Literatura. É docente na educação básica, leciona as disciplinas de Sociologia e Filosofia e trabalha com gestão de projetos culturais e pedagógicos.


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Notas:

[1] Expressão utilizada em referência ao título do texto de Sérgio Buarque de Holanda originalmente publicado na revista Espelho, Rio de Janeiro, março de 1935

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