Goleiro Bruno, Mike Tyson e o estigma do criminoso
Terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Goleiro Bruno, Mike Tyson e o estigma do criminoso

Imagem: Renata Caldeira/TJMG

 

Por Rodrigo Antonio Stochiero Silva

 

“Grande coisa que dentro de 8 anos só teria 32 anos e poderia ainda recomeçar a vida! Viver para quê? A que almejar? A que dedicar meus esforços? Viver apenas por viver?

 

 

Assim pensou Raskólnikov durante o cumprimento de sua pena na Sibéria pelo assassinato da velha usurária Aliona Ivanovna e sua irmã Lisavieta. 

 

O célebre personagem de Dostoiévski se preocupara naquele instante em uma razão para viver, sem se dar conta de um dos efeitos mais perversos da prática de um crime. O estigma do criminoso, que dificilmente será esquecido.

 

Quando é proferida uma sentença penal condenatória, de modo direto e objetivo é determinada a pena prevista pelo ordenamento jurídico, ou seja, a privação da liberdade por um determinado espaço temporal, além de uma multa traduzida em valor pecuniário.

 

Simples, não é mesmo?

 

Nada disso.

 

A fria leitura da norma penal não é capaz de antever, ou decifrar, o pós-pena.

 

Porque, de fato, toda condenação penal gera também efeitos futuros não previstos pelo ordenamento jurídico. Para os fins deste texto, importa enumerar apenas um desses efeitos. O estigma do criminoso. A pena de não ser esquecido. Ou a pena de ser sempre lembrado como criminoso.

 

Nos últimos dias, o caso do conhecido “Goleiro Bruno” voltou a ser lembrado nas mídias sociais.

 

Segundo amplamente informado pela imprensa, Bruno recebera proposta de trabalho da agremiação futebolística Fluminense de Feira de Santana, para atuar como goleiro, fato este que causou comoção e repúdio de grande parte da opinião pública, merecendo registro a manifestação feita pela jornalista Jéssica Senra, que publicamente manifestou o seu descontentamento através do seguinte raciocínio: “Ilegalmente não há qualquer impedimento para que ele (Bruno) exerça a sua profissão para o qual esteja habilitado. Mas no caso do feminicida Bruno e a profissão de atleta, eu quero questionar você que está aí do outro lado: isso é moral?” (…) Poderíamos tolerar que o feminicida Bruno voltasse a posição de ídolo? Que mensagem mandaríamos para a sociedade?”.

 

Diante da repercussão negativa da notícia, a referida equipe desistiu de contratar Bruno, que em outras duas oportunidades já havia tentado se inserir no meio futebolístico para exercer sua profissão.

 

Em tempos de grande fluxo de informação e exposição da imagem, desnecessária a intervenção do Estado para incremento da punição daquele tido por criminoso. O próprio meio social se encarrega de manifestar desconforto com a reinserção do “criminoso” junto ao convívio social.

 

Não importa se o mesmo cumpriu com as regras postas. Exige-se mais. Muito mais. Mas precisamente o quê?

 

Ainda que se adote uma teoria idealista, que acredita nos modelos ressocializadores da pena, os poderes arbitrários de atuação não são passíveis de controle, afinal, a todos é permitido a liberdade de opinião, de expressão e, por consequência, de eterno julgamento da pessoa que ousou violar um bem jurídico, principalmente em ações irreversíveis, como no caso de um homicídio, que extermina com a vida de outra pessoa.

 

Leia também:

“Dissidência entre namorados” e outras lições do Judiciário“Dissidência entre namorados” e outras lições do Judiciário

 

É certo que por raras vezes a sociedade escolhe ignorar o contraventor.

 

Caso emblemático é o do pugilista Malik Abdul Aziz, mundialmente conhecido como Mike Tyson.

 

No auge de sua carreira como boxer, no ano de 1991, Mike Tyson foi acusado de estuprar Desirre Washington, de 18 anos de idade, sendo condenado pelo júri a uma pena de 6 anos de prisão.

 

Em 25 de março de 1995, após ter a pena reduzida por bom comportamento e deixar a prisão, Mike teve que responder a uma primeira pergunta: “Ei, Mike. Quanto tempo você precisa treinar para enfrentar Holyfield?”.

 

Sim, naquela ocasião a opinião pública norte-americana não foi tão implacável com o “demolidor”.

 

Aliás, após altos e baixos, inclusive com uma carreira de pugilista profissional pós-cárcere e um pedido de falência, a partir de 1999 Mike participou de nada mais nada menos que 29 produções cinematográficas, dentre elas os sucessos “The Hangover, part I and II (lançado no Brasil com o título “Se beber não case”).

 

No caso de Tyson, claramente a condenação pela prática de um crime sexual parece não ter sido suficiente para privá-lo do direito de recomeçar. Até porque o “recomeço” de Tyson era algo que movimentaria milhões de dólares, o que bem demonstra a influência do poder econômico nas decisões de afastamento ou acolhimento social dos “desajustados”.

 

Afinal, diante de tais perspectivas, há algo a ser feito?

 

Obviamente, estamos diante de um impasse. 

 

É fato que Bruno está cumprindo a punição imposta pelo Estado-Juiz e prevista pela legislação penal como a correspondente pela sua transgressão. 

 

É igualmente fato que o crime cometido é bárbaro e que Elisa não irá recuperar o sagrado direito de viver.

 

Entretanto, impedir Bruno de trabalhar não eleva o nome de Elisa, assim como permitir o mesmo o exercício do seu ofício de goleiro profissional não é dizer que o crime de algum modo compensa, ainda mais no meio futebolístico, local onde fatalmente terá a pecha de assassino cantada a plenos pulmões pela torcida adversária.

 

Em verdade, esse episódio só deixa clara a nossa predileção pela exclusão.

 

Como assinalado pelo pensador Zygmunt Bauman, se tem algo que os reality shows nos ensina é que nos acostumamos com a lógica do jogo social que mostra pessoas tentando excluir outras pessoas para evitar serem excluídas.

 

No caso de Bruno, a sentença extrapenal já foi dada. Não há castigo mais terrível que o trabalho inútil e sem esperança. Ele nunca será ídolo. Ele nunca será um cidadão normal. Ele será sempre o feminicida Bruno.

 

Como bem disse Dostoiévski, ele nem mesmo sabia que a nova vida não lhe seria de graça, que tinha que adquiri-la a custo de longos e dolorosos esforços, que teria de pagar por ela com uma grande realização no futuro.

 

Para ele, o esquecimento seria a melhor sorte, mas isso é impossível, e nem Dostoiéviski poderia imaginar e prever este final, tendo em vista o ilimitado poder punitivo da pós-modernidade através do fenômeno das redes sociais.

 

 

Rodrigo Antonio Stochiero Silva é Defensor Público do estado do Mato Grosso do Sul


O Justificando não cobra, cobrou, ou pretende cobrar dos seus leitores pelo acesso aos seus conteúdos, mas temos uma equipe e estrutura que precisa de recursos para se manter. Como uma forma de incentivar a produção de conteúdo crítico progressista e agradar o nosso público, nós criamos a Pandora, com cursos mensais por um preço super acessível (R$ 19,90/mês).

Assinando o plano +MaisJustificando, você tem acesso integral aos cursos Pandora e ainda incentiva a nossa redação a continuar fazendo a diferença na cobertura jornalística nacional.

[EU QUERO APOIAR +MaisJustificando]

Notas:

[1] Dostoiévski. Crime e Castigo, Ed. Martin Claret, 4.ª Edição. Pág. 546

Terça-feira, 21 de janeiro de 2020
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]