O caminho de desamor para a mulher negra na disputa do poder
Terça-feira, 21 de janeiro de 2020

O caminho de desamor para a mulher negra na disputa do poder

Imagem: Grada Kilomba / Flip 2019

 

Coluna Discursos Não Pacificados

Por Ingrid Assunção Farias

 

“Quem empurra a esquerda para as lutas de esquerda são as mulheres negras” (Vilma Reis, 2019)

 

 

Vivenciamos um novo tempo político no Brasil, as lutas identitárias e dos grupos historicamente oprimidos cresce, mobiliza e organiza pessoas, dentro e fora das estruturas tradicionais de organização política. Nos últimos anos, o termo INOVAÇÃO POLÍTICA deixou de se relacionar a questões tecnológicas e passou a ser reconhecido como a necessidade de ordem social, do reconhecimento do que já é produzido como tecnologia social na forma de se organizar politicamente nas periferias e territórios tradicionais brasileiros. São iniciativas locais e comunitárias que resgatam raízes, valorizam identidades, provocam debates e reflexões e articulam, no território, a construção da lógica da política vivida. E, apesar da maioria dessas iniciativas ter participação e muitas vezes a liderança de mulheres negras, a realidade vivenciada por essas mulheres é o não reconhecimento de seu papel como agente de transformação e desenvolvimento político, econômico, social, científico, cultural e  ancestral, Mesmo diante do fato de que as mulheres representam a maior parte da população brasileira. 

 

Institucionalmente, os dados denunciam a histórica ausência das mulheres negras nos cargos e espaços de poder. Na atual legislatura federal, as mulheres negras representam apenas 2,5% (13 eleitas) do total de 513 eleitos, enquanto as mulheres brancas são 12,28% (63 eleitas), de acordo com dados divulgados pela FGV. Nas eleições municipais de 2016, apenas 8 em cada 100 candidatos foram pessoas negras. O sistema do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) responsável pela divulgação das candidaturas registradas no Brasil revela que apenas 8,65% (42.524) dos candidatos nas Eleições de 2016 se declararam negros. Os dados sobre a cor ou raça passaram a ser declarados a partir das Eleições de 2014, ano em que passou a valer a Resolução nº 23.405/2014, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que determina que todos os candidatos devem declarar sua cor ou raça. Entre os 57.838 vereadores eleitos em 2016, o quadro também é semelhante: 57,1% declararam ser brancos, 37% pardos, 5% pretos, 0,5% amarelo e 0,2% indígena.

 

Vivenciamos a contradição da democracia brasileira refletida numa realidade em que a população negra, maioria no país, é barrada nos espaços de poder. Mesmo vivendo essa democracia inacabada, que em sua estrutura ameaça a vida das mulheres negras que ousam ocupar a política, ainda conseguimos encontrar exemplos que têm inspirado e incentivado que outras mulheres negras também desafiem as estruturas cristalizadas pelo colonialismo. São passos que vêm de longe, como os de Antonieta de Barros, Jurema Batista, Benedita da Silva e tantas outras que regaram o chão onde floresceu Jô Cavalcanti, Áurea Carolina e nossa Marielle Franco, entre tantas outras que vêm ocupando e abrindo espaço para que outras mulheres negras se vejam capazes de também ocupar a política institucional, arrebatadas por uma necessidade de preservar a vida das pessoas negras, de garantir direitos por meio da disputa dos “instrumentos democráticos” e dos corações de nosso povo. Depois da morte de Marielle, a percepção da urgência em ocupar esses espaços ficou mais forte para as mulheres negras, referenciando que, em minoria nesses espaços, estaremos sempre em risco, isso fez com que haja esse levante para ocupar o máximo de espaços. E garantir a vida dos nossos e das nossas. 

 

E que caminho percorre a mulher negra que toma a decisão de disputar os espaços cristalizados pelo colonialismo?

 

Essa pergunta precisa ser feita agora, pois esse ano há um novo momento nas eleições, e assim como nas últimas, precisamos experimentar outros formatos e estratégias de como se faz a disputa do processo da democracia representativa. Desde 2016, com a eleição de um número maior de candidaturas localizadas no campo de defesa de direitos, candidaturas com formatos diferentes, visibilizando corpos que historicamente foram apagados. É fundamental demarcar que essa realidade de “inovação política” no processo das eleições também é fruto da transição de um conjuntura política global, representada por grandes levantes de mulheres em todo mundo, intitulado como “primaveras feministas”, pelas jornadas de junho de 2013, a denúncia do impeachment como ação misógina, e outros momentos que marcaram a ação coletiva e a inovação nos formatos de organização política.

 

Diante do avanço das mulheres sobre a disputa da política, são muitos os registros de violência política, ou ACOSO POLÍTICO, como é nomeado em países vizinhos na América Latina, que é uma estratégia para desestimular a participação feminina na política através de ações promovidas por instituições, partidos ou candidatos visando a dificultar ou excluir mulheres da disputa política. Ações como bloqueio de apoios financeiro e político a candidaturas de mulheres, agressões psicológicas, xingamentos verbais durante campanha. E, se mesmo assim essas mulheres conseguirem ser eleitas, outras formas de apagamento e violências são usadas, como exemplo da designação das parlamentares mulheres para comissões de menos importância, ataques diretos, piadas racistas e machistas, assédio moral e sexual e ameaças contra elas. Mas, em especial, ameaças às suas famílias, até caso extremos, como o assassinato da vereadora Marielle Franco. 

 

Na Alemanha, o termo “realpolitik” foi criado para se referir à política ou diplomacia baseada principalmente em considerações práticas, em detrimento de noções ideológicas. O termo é frequentemente utilizado pejorativamente, indicando tipos de política que são coercitivas, imorais ou maquiavélicas. O realpolitik é a conceituação intelectual das noções de violação de direitos, mas infelizmente o uso de política coercitiva não é exclusivo de partidos fascistas e forças políticas coloniais. As mulheres negras que ousam disputar os espaços de poder e decisão precisam enfrentar também, por dentro de campos mais à esquerda, a violência política, em especial através da deslegitimação e não reconhecimento de trajetórias. E não existe nada mais doloroso para uma mulher negra do que o apagamento do que nós fomos e somos.

 

 “Falar torna-se, então, praticamente impossível. Não é que nós não tenhamos falado. O fato é que nossas vozes têm sido constantemente silenciadas através de um sistema racista, têm sido sistematicamente desqualificadas, consideradas conhecimento inválidos, ou então representadas por pessoas brancas que ironicamente tornam-se “especialistas” em nossa cultura e em nós mesmos… (Grada Kilomba, 2019)”

 

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É preciso falar sobre a POLÍTICA DO DESAMOR para as mulheres negras que ousam disputar os espaços de poder. São muitas as palavras de incentivo e discursos proferidos sobre a importância da participação da mulher negra na vida política, na construção de um novo marco civilizatório que altere as relações sociais de violência extrema. Mas como podemos, nós mulheres negras, sermos as condutoras de outra relação civilizatória não violenta, quando a sociedade nos trata a partir dessa prática violenta racista, sexista, lbtfóbica e classista? Quantas de nós mulheres negras já fomos comparadas a raivosas, indelicadas, mal educadas ou violentas por assumir um posicionamento político, filosófico ou social. As mulheres negras que têm assumido esse desafio gigante têm suas vidas mexidas, a dxs seus filhxs, do seu sustento e de tantas incertezas que acompanham aquelas que decidem se colocar nessa arena, e contribuir para construção da democracia brasileira. Nos querem para criar novos marcos civilizatórios, mas nos rejeitam quando decidimos que vamos assumir a autoria dessas transformações.

 

“Minha resposta ao racismo é raiva. Eu vivi boa parte da minha vida com essa raiva, ignorando-a, me alimentando dela, aprendendo a usar antes que jogasse minhas visões no lixo. Uma vez fiz isso em silêncio, com medo do peso. Meu medo da raiva não me ensinou nada. O seu medo dessa raiva também não vai te ensinar nada. Mulheres respondendo ao racismo significa mulheres respondendo a raiva; raiva da exclusão, dos privilégios não questionados, das distorções raciais, do silêncio, do maltrato, esteriotipização, defensividade, má nomeação, traição, e cooptação.  Minha raiva é uma resposta às atitudes racistas e às ações e presunção que surgem dessas atitudes. (Audre Lorde)”

 

As mulheres negras que ousaram e ousam disputar esses espaços de poder se comprometem com um processo diário de qualificação política, intelectual e social. Compreendem que, para ocupar espaços de poder, é necessário lutar com todas as armas pelos direitos de nosso povo. As mulheres negras têm feito de suas práticas cotidianas conceitos que constroem uma intelectualidade nascida e alimentada nas relações coletivas e comunitárias, reescrevendo as histórias apagadas pelo epistemicídio e genocídio promovidos pela cultura colonial da Europa Ocidental.

 

Nos últimos anos, diversas iniciativas têm tentado ampliar as possibilidades e apoios a candidaturas inovadoras nos processos eleitorais. Mas o fato é que essas iniciativas ainda circulam e mobilizam apoio a um  grupo social que transita nos espaços sociais de poder e reprodução de privilégios. Sendo assim, trago a reflexão sobre a urgência de COMO avançar nos modelos e formatos de INOVAÇÃO POLÍTICA que considerem o reconhecimento ao que já é realizado, em especial pelas mulheres negras, nos territórios tornados invisíveis. Um reconhecimento que gere ação e garanta prioridade na potencialização e apoio REAL de um número ainda maior de mulheres negras alinhadas com o projeto político coletivo nas disputadas dos espaços de poder (não apenas nas eleições, que é parte importante dessa disputa). 

 

Grada Kilomba, em seu livro Memórias da Plantação, cita o discurso de Paul Gilroy que descreve “cinco diferentes mecanismos de defesa do ego pelos quais o sujeito branco passa a fim de ser capaz de “ouvir”. Isto é, para que possa se tornar consciente de sua própria branquitude e de si próprio(a) como performer do racismo: recusa/ culpa/ vergonha/ reconhecimento/ reparação. No livro, Grada ainda continua a reflexão descrevendo as características de cada uma dessas fases. A última delas, a reparação, é descrita pela autora como a “negociação do reconhecimento”, quando finalmente após as diversas violências já vivenciadas para “convencer” o sujeito branco de que seu antirracismo não pode ser só uma fala bonita no palco, ou um tapinha nas costas. É necessário que as mulheres negras ajudem a branquitude em cada uma dessas fases, ignorando as diversas violências produzidas contra aquelas que precisam ser as “ensinadoras” de uma nova prática? Não é possível construir uma política inovadora de amor sem sair de cima dos seus privilégios, sem se deparar com suas contradições. Alguém precisa perder, ceder, recuar, abrir espaço. E não podem ser mais as mulheres negras a pagarem essa conta.

 

“Isto fica evidente, por exemplo, em ambientes autodenominados de esquerda e progressistas quando, sob qualquer protesto ou denúncia de negros em relação a um branco “apoiador”, pede-se que negros e negras sejam “compreensíveis”, “calmos” e, pior, educadores constantes daqueles e daquelas que vivem sob os privilégios de seu fenótipo como herdeiros de uma herança construída por estupros, usurpação, tortura, desumanização, escravização, assimilação e aculturação. Outra característica destes debates é a alusão à compaixão e ao amor diante de uma situação de opressão racista. (Lélia Gonzalez)”

 

Após a morte de Marielle várias mulheres negras de todo Brasil tem declarado publicamente o desejo de concorrer como candidatas às eleições. O desejo dessas mulheres esbarra nas estruturas de poder, nas regras eleitorais desiguais, no pouco ou nenhum investimento financeiro, e – especialmente – na solidão da mão que não segura a mão preta pra entregar o panfleto, ou apenas abraçar e chorar no dia que ela foi xingada de burra no debate eleitoral. Em geral, os partidos ainda não são espaços que acolhem a totalidade da presença e liderança das mulheres, ainda menos das mulheres negras, nem mesmo os partidos mais à esquerda. São muitos os casos das mulheres, em especial aquelas que não têm “vida orgânica” no partido, ou não fazem parte de uma organização interna, com problemas na prestação de contas à Justiça Eleitoral pela falta de apoio institucional. Correm o risco (mais um!) de serem abandonadas, sujando a única coisa que elas têm na vida: o nome! 

 

É importante que os partidos estejam dispostos também a dialogar com um campo que, por muito tempo, não construiu a disputa das eleições “por dentro”. Um campo composto por movimentos sociais, grupos, redes, coletivos que há muito fizeram uma escolha política de não se envolver em processos dessa disputa, gerando desarticulações e incompreensões dos papéis na disputa que pauta a condução de nosso país. As últimas eleições foram fundamentais para provocar esse debate e o MTST sai na vanguarda desse novo tempo, percebendo a eleição como um projeto estratégico para, inclusive, influenciar as eleições com outras lógicas e projetos políticos. Essas reflexões chegam em meio à conjuntura que precisa, mais do que nunca, resgatar e fortalecer a democracia.

 

Antirracismo como prática para preservar vidas negras

 

Há inúmeros desafios, mas temos a certeza de que é hora e vez das mulheres negras! É necessário apoio e investimento nessas inovações políticas, estimulando e gerando conexões, fortalecendo os territórios em suas potências, com recursos para o seu desenvolvimento e diálogo para a criação de novas culturas políticas que não adoeçam nem violentem as mulheres. Precisamos resgatar o brilho de como encantar com a política.

 

 

Ingrid Assunção Farias é antiproibicionista, abolicionista, nordestina e feminista negra periférica. Coordenadora da Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas, integrante da Rede Latino Americana de Pessoas que Usam Drogas e parte do coletivo A Quilomba.


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