O sutil poder da linguagem
Terça-feira, 21 de janeiro de 2020

O sutil poder da linguagem

Imagem: Fotógrafo/Agência

 

Por Bruno Barros Ferreira

 

‘Quando iam pegando no sono, arrepiavam-se, tinham precisão de virar-se, chegavam-se à trempe e ouviam a conversa dos pais. Não era propriamente uma conversa: eram frases soltas, espaçadas, com repetições e incongruências. Às vezes uma interjeição gutural dava energia ao discurso ambíguo. Na verdade nenhum deles prestava atenção às palavras do outro: iam exibindo imagens que lhes vinham ao espírito, e as imagens sucediam-se, deformavam-se, não havia como dominá-las. Como os recursos de expressão eram minguados, tentavam remediar a deficiência falando alto”.[1]

 

A insólita descrição do horizonte escasso de compreensão de Fabiano, restrito ao universo monossilábico que ao mesmo tempo o constitui e conforma os limites do seu mundo,  inspira a conclusão, de entrada,  como um atropelo à revelia do protocolo, de que o pensamento é, em última instância, composto de signos, os signos mediados pelas palavras e, articulados, delineiam a extensão e as fronteiras da própria realidade, do entendimento e da elaboração. O espectro semântico de cada palavra abre lugar a uma infinidade de sentidos e, então, quanto mais profícuas as ferramentas disponíveis (palavras), maior a rede de articulações, mais densas as dimensões de significação, mais verticais as discussões e mais sofisticadas as ideias, como grandezas diretamente proporcionais. 

 

Conclusão que, no entanto, não se apressa sem antes delinear os fatores outros que se justapõem à articulação dos signos. Ao reconhecer que as enunciações não apenas dizem, relatam ou descrevem coisas, verificáveis no nível apofântico (verdadeiro ou falso), os atos de fala  evidenciam que, quando veiculadas em contextos próprios,  executam ações (atos performativos), moldando o mundo exterior, como o faz um sim verbalizado em uma cerimônia de casamento ou um aceito exclamado no bojo de uma tratativa de negócios. E daí, pois, que se insere no âmbito do dito (ato locucionário) o não dito (ato ilocucionário) e os efeitos do que foi dito (ato perlocucionário), sendo perfeitamente razoável entender o porquê um interlocutor, a partir de uma enunciação do tipo pegue o casaco antes de sair de casa, entenda que possa vir a fazer frio e que efetivamente se aqueça caso acate a sugestão. Palavras e ação, pois. 

 

Não sem antes, também, aplaudir os contributos da crítica nietzscheana dirigida ao paradigma metafísico de pensamento, responsável por conferir à linguagem ocidental uma imobilidade insuportável[2]. Como natural decorrência das aspirações de um sujeito que atravessou toda a antiguidade e a modernidade em busca da verdade, a linguagem definiu, categorizou, enquadrou, limitou e, como quem coloca coisas em caixas, nomeou o mundo fugidio que não mais poderia escapar à designação, pavimentando o solo que conferiria segurança e ordenação ao andar cauteloso. Como contrapartida, claro, embotou a dimensão criativa da linguagem, que potencialmente poderia não só nomear como também expandir o quadro de percepções possíveis, dançando com os sentidos assim como  os sentimentos dançam com a música. 

 

Não sem antes aderir à fertilidade do pensamento que imbrica linguagem e discurso ao universo político, cultural e social que singulariza determinada realidade. Depois da proposta da linguagem como forma de vida[3] e da explicitação dos jogos contextuais que ela permite – palavras têm contextos e os contextos conduzem a interpretação -, entendê-la enquanto discurso é antes de mais nada perscrutar as condições de possibilidade  para o surgimento de um tipo de saber, sempre compreendido por intermédio de um feixe de relações de poder. Toda rede de conhecimento – o direito, a medicina, o jornalismo, a publicidade e qualquer logia – se consolida à luz de um background de sentido que permite com que a produção teórica tecida no bojo daquele ramo seja ele o que é, e, antes tudo, permite a sistematização dos elementos com que lida segundo uma ordem hierárquica congruente ao paradigma a que está inserido. [4]

 

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Não sem antes apostar na sociologia dos campos[5], que, em alguma medida, confirma a perspectiva proposta quando explicita como os sentidos autorizados – aqueles reputados como corretos e majoritariamente compartilhados sem que a grande maioria das pessoas se dê conta que a eles aderiram -, quase nunca são frutos de um acordo e nem sempre decorrem da coerência interna segundo um determinado sistema de saber que verifica a correção ou incorreção de determinados sentidos; antes, decorrem de árduas e desproporcionais lutas travadas entre pessoas que disputam os mesmos espaços de definição, sendo que o certo, o bom, o correto e suas respectivas antíteses exsurgem da paradoxal sutileza de um enfrentamento não confessado.   

 

Tudo isso (também) para propor como a linguagem se apresenta como o recurso ao mesmo tempo mais eficaz e sutil à conservação e subversão do mundo, a depender das conveniências postas. Eficaz porque, como condição de possibilidade, esquadrinha o horizonte semântico, elastecendo ou enxugando os sentidos conforme atenda ou desatenda pretensões, conforme liberta ou aprisiona, libera ou obstrui; sutil porque, banalizada pela troca cotidiana e esquecida como veículo do pensamento e locus da luta, é traiçoeiramente permeada por alterações tímidas e sucessivas, que, ao final, força arbitrariamente o deslocamento do eixo dos sentidos, que passam a comportar significações outras até que sejam invertidas ou negadas.

 

Antes da espoliação patrimonial, da violação sexual, da mitigação, da negação, do abuso e do arbítrio; antes, pois, do passar do pano, do negar sem sentir, do mentir sem pesar, da República de Gilead, da saudação ao Grande Irmão ou do amor incondicional ao Marechal, inicia, com um silêncio perturbador, a desindexação dos sentidos compartilhados em direção ao momento em que, sem que se perceba o itinerário do processo rasteiro de subtração dos sentidos das palavras, inversões sejam consolidadas e os absurdos passem despercebidos pelos ouvidos mais atentos, abrindo espaço para a realocação das coisas e a reordenação insana do universo compartilhado. 

 

Talvez por isso não bastasse aos trabalhadores de Alentejo apresentados por Saramago, extenuados pela humilhação cotidiana da escravidão moderna dissimulada, apenas dominar o ofício manuseando, fabricando e produzindo, pois muito enganadas vivem se não aprenderem as palavras todas e a entender o que elas são, ceifar, carregar, molhos, gadanhar, debulhar à máquina ou a sangue, molhar o milho (…) trabalhar em poços trabalhar em brocas e barrancos, chacotar a lenha, rechegar, enfornar, terrear, empoar e ensacar, o que aqui vai, santo Deus, de palavras, tão bonitas, tão de enriquecer os léxicos, bem-aventurados os que trabalham, e que faria então se nos puséssemos a explicar como se faz cada trabalho e em que época, os instrumentos, os apeiros, e se é obra para homem ou para mulher e porquê”[6]; e porque, claro, o universo linguístico ressiginifica o universo do próprio homem, enforma-o segundo um modelo que se espera de comportamento e, muito mais astucioso do que dominar o trabalhador pelo trabalho, é fazê-lo acreditar que a assimetria faz parte de um mundo que é e sempre foi, legitimando a opressão com a concorrência do oprimido.                                           
 

Não sem antes, em um tom esperançoso, apostar no constrangimento como resposta. Constrangimento que consiste em apresentar um conjunto de argumentos que contrapõe, ao mesmo tempo em que, atento aos despropósitos, chacoalha as premissas, revisa as conclusões, recoloca as melhores perguntas, sacudindo os preconceitos percebidos e não percebidos, desconstruindo, analiticamente se o caso for, proposições incoerentes e incongruentes, apontando, enfim, os disparates que, nessa condição, merecem ser expostos. 

 

Bruno Barros Ferreira é Graduado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás, Analista Judiciário do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás e Ex-Assessor do Ministério Público do Estado de Goiás.


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Notas:

[1] RAMOS, Graciliano. Vidas Secas.120º ed. São Paulo: Record, 2013. P. 49/50.

[2] Enfatizo efusivamente a leitura singular proposta em: MOSÉ, Viviane. Nietzsche e A Grande Política da Linguagem. Petrópolis/RJ: Vozes, 2018.

[3] Como proposto por Ludwig Wittgenstein em Investigações Filosóficas

[4] FOUCAULT, Michel. As Palavras e as coisas. São Paulo: Martins Fontes, 2000

[5] Conceito integrante da sociologia de Pierre Bourdie

[6] SARAMAGO, José. Levantado do Chão. 17ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2012. P. 89/90.

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