Paulo Freire é o antípoda de Jair Bolsonaro
Terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Paulo Freire é o antípoda de Jair Bolsonaro

Imagem: Escola de Gestão Socioeducativa Paulo Freire/RJ

 

Por Carlos Eduardo Araújo

 

Por que Paulo Freire é tão hostilizado pela extrema direita brasileira? Em razão de que motivos a pedagogia freiriana é tão temida, brutalmente atacada e levianamente deturpada? Espero poder esboçar algumas possíveis respostas a essas indagações. 

 

 

No último dia 16 de dezembro, Bolsonaro fez uma ofensa venal, infame, e indevida ao educador Paulo Freire. Falando a alguns poucos apaniguados, às portas do Palácio da Alvorada, sobre os motivos pelos quais encerrou o programa “TV Escola”, acusado, injustamente por ele de “deseducar” e ser constituído de programação “totalmente de esquerda”, fez menção ao nome de Paulo Freire, o designando de “energúmeno”, bem ao estilo incivilizado, grosseiro, boçal e tosco que lhe caracterizam.  

 

O ignóbil vocábulo seria mais bem utilizado por Bolsonaro, num ato de absoluta auto sinceridade, ao mirar-se no espelho. Num socrático exercício de autoconhecimento, ele não teria escolhido uma denominação mais adequada à sua própria e execrável figura. Assim, a palavra energúmeno, cujos sinônimos possíveis listamos: imbecil, ignorante, idiota, pateta, tonto, boçal, inepto, estúpido, tapado, besta, burro, estulto, abestado, desequilibrado, descontrolado, desatinado, desnorteado, fanático, furioso, exaltado, louco, arrebatado, possuído, possesso, endemoniado, endiabrado, não encontraria melhor e mais desqualificado destinatário naquele que a proferiu.

 

Paulo Freire é o antípoda de Jair Bolsonaro. Freire era portador de uma personalidade afável e cativante, que por meio de gestos e palavras amenas, doces e acolhedoras, exalava todo o seu amor à humanidade e aos oprimidos, em particular. Igualmente nele habitava um aguerrido revolucionário, prenhe de indignação e revolta contra as injustiças sociais do mundo capitalista. Sua humildade, simplicidade e desprendimento, sua atenção para com os despossuídos, os deserdados da vida, os explorados, era no sentido de os fazer ver sua condição de pessoas, dotadas de dignidade humana. 

 

Nas palavras de do pedagogo Francisco Gutiérrez: “Sua vulnerável figura patriarcal insinua ternura e bondade. Sua personalidade é transparente, não há lugar para hipocrisia. Seus olhos revelam uma alma transbordante de amor pelos seus semelhantes. Talvez essa seja a razão da grande fé e esperança que Freire deposita em todos os homens, mas muito especialmente nas classes despossuídas”. [1]

 

Federico Mayor Zaragoza, Diretor-Geral da UNESCO, entre os anos de 1987 e1999, deixou registradas algumas palavras que nos ajudam a desnudar um pouco da personalidade de Paulo Freire: “Falar de Paulo Freire é evocar mananciais de lucidez. É descobrir torvelinhos de protesto justo e valoroso em favor da esquecida dignidade de toda pessoa. É referir-se a uma tenaz e serena vigília pela liberdade dos oprimidos, pela educação e pelo domínio de si mesmo. É reafirmar a convicção profunda de que todos devemos colaborar com a grande aventura do acesso ao conhecimento, do despertar do imenso e emblemático potencial criativo que habita cada ser humano. Falar de Paulo Freire é levantar-se contra a miopia do reducionismo econômico e abrir de par em par as janelas da criatividade e do esforço. É, também, alçar o voo da imaginação e do sonho, frente ao mesquinho procedimento daqueles que ficam contabilizando seus compatriotas em enquetes e eleições, sem procurar torná-los cidadãos plenos na vida pública”. [2] 

 

Paulo Reglus Neves Freire foi e permanece sendo o mais conhecido educador brasileiro de todos os tempos, sendo agraciado, por meio de uma lei, com o justo título de “Patrono da Educação brasileira”. Nasceu em Recife aos 19 de setembro de 1921 e faleceu em São Paulo aos 02 de maio de 1997. Filho de Joaquim Temístocles Freire e Edeltrudes Neves Freire. Com seus três irmãos, experimentou a fome e a pobreza na adolescência e no início da juventude, após perder o pai ainda muito jovem, quando contava 13 anos de idade.

 

Casou-se, em primeiras núpcias, aos 10 de novembro de 1944 com uma aluna de suas aulas particulares de língua portuguesa, a professora primária Elza Maia Costa de Oliveira, a qual se tornaria, nas décadas seguintes, até a morte de Elza em 1986, sua companheira de vida e obra. Teria sido ela a primeira a estimulá-lo a transpor para o papel suas ideias e concepções, que compartilhava com amigos, num incessante e entusiástico diálogo. O casal teve cinco filhos. Em 1988 contraiu segundas núpcias com a educadora Ana Maria Araújo Freire, a Nita Freire, com a qual foi casado até sua morte.

 

Ele está entre os mais importantes e festejados educadores latino-americanos. Nordestino, de origem humilde, enfrentou obstáculos econômicos para estudar, na primeira metade do século passado, tendo conseguido, no entanto, formar-se em direito, na prestigiada Faculdade de Direito do Recife, com uma idade acima da média dos demais colegas e já casado.

 

Pretendo delinear um singelo bosquejo das principais ideias de Paulo Freire que culminaram na consecução de uma obra que revolucionou o conceito de Educação Popular no Brasil e em diversos países do mundo. Seu nome e sua obra têm lugar de destaque na História da Educação, gozando de reconhecimento internacional. Sua mensagem era e permanece sendo, em seus muitos livros, diálogos, palestras e práticas educativas em países da América Latina e África, a de um convite à transformação humana e social dos oprimidos, que deveria provocar, no decorrer do processo de sua libertação, a humanização dos opressores. 

 

Sua obra educativa propugna pelo implemento da justiça e inclusão social, provocando em cada educando o emergir de uma consciência crítica e contextualizada. Ele é um educador laureado no Brasil e mundo afora, como reconhecimento de seu papel singular, profícuo e propositivo na construção de uma educação crítica e libertária. 

 

Paulo Freire começou a delinear em fins da década de 50 do século passado as ideias que desaguariam, anos depois, na sua obra magna “Pedagogia do Oprimido”. Dentre as experiências educacionais que vivenciou terá destaque especial a “Experiência de Angicos”, realizada no Brasil, entre os anos de 1963 e 1964, a qual atraiu para si a atenção de muitos, dentre os quais o então Ministro da Educação, Paulo de Tarso, que integrava, àquela época, o Governo de João Goulart. 

 

O método Paulo Freire de alfabetização de adultos é de caráter multidisciplinar, combinando as conquistas da teoria da comunicação, da psicologia e da didática, descartando a utilização das tradicionais cartilhas e defendendo a necessidade de se produzir o material para o ensino a partir das experiências de vida e de fala de cada grupo de analfabetos. Combinando diferentes saberes, Freire acabou por gestar uma peculiar teoria da educação, que rompia com a visão tradicional vigente à sua época. 

 

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Empoderar-se é um instrumento de emancipação política e socialEmpoderar-se é um instrumento de emancipação política e socialO sucesso obtido pelo método, nas primeiras experiências desenvolvidas em Recife, propiciou sua difusão. Em 1963, foi utilizado em Angicos e Natal (RN), Osasco (SP) e em Brasília. O ambiente do início da década de 1960 foi propício ao seu desenvolvimento, e o governo Goulart, como mencionado, foi muito receptivo e entusiasta do novo método, o que gerou seu acolhimento no seio do governo federal, que tencionava propagá-lo por todo o Brasil. 

 

O golpe de 1964, interrompe, abruptamente, uma experiência que tinha enormes chances de propiciar uma revolução na educação e na sociedade brasileira. Paulo Freire foi preso por duas vezes, acusado de subversão, vendo-se obrigado a se exilar, para evitar um terceiro encarceramento. A prática de seu método foi proibida no país, apesar de seus livros continuarem a ser editados e vendidos livremente, principalmente a partir de meados da década de setenta.

 

Aludida experiência dizia respeito a criação e aplicação de um método de alfabetização de adultos, cujos resultados eram prometidos em um tempo extremamente exíguo. Assegurava-se que em apenas 40 horas de estudo era possível se dá a passagem de uma vida ágrafa para uma vida em que as letras nominassem a si e ao mundo do analfabeto. Um método perigoso, num país em que o analfabetismo alcançava parcelas consideráveis da população brasileira que, dentre outras coisas, era mantida alijada da participação na vida política. Lembremo-nos que os analfabetos só conquistaram o direito ao voto com a atual constituição de 1988.

 

A obra freiriana é um libelo acusatório a denunciar a violência dos opressores em face dos oprimidos, que os faz, também, como opressores, desumanizados. O que levaria os oprimidos, segundo pensava Paulo Freire, cedo ou tarde, a lutar contra quem os subjuga e os desumaniza. Todavia, no ato de se tornarem livres do julgo dos opressores, há que se cuidar que não se oprima os opressores, mas que ambos possam ter sua humanidade restaurada. 

 

Não é, no entanto, uma concepção que apoie ou incite a vingança ou a violência. Como concluirá o professor Dalmo de Abreu Dallari, Paulo Freire é um revolucionário, com a peculiaridade de que utiliza meios pacíficos, facilmente praticáveis, de baixo custo, que não sacrificam vidas e, pelo contrário, libertam pessoas, garantindo sua dignidade essencial. O genial educador inventou um sistema que, de uma só vez, ensina a pessoa a ler, a pensar criticamente e a dizer o que pensa. Essa é a matéria-prima de um mundo de liberdade, de igualdade e de justiça.

 

E aí está, segundo Freire, a grande tarefa humanista e histórica dos oprimidos – libertar-se a si e aos opressores. Estes, que oprimem, exploram e violentam, em razão de seu poder, não podem ter, neste poder, a força de libertação dos oprimidos nem de si mesmos. 

 

Paulo Freire nos diz que quando o poder dos opressores, se pretende amenizar, fazem uso de uma falsa generosidade, mas jamais vão além disso. “Os opressores, falsamente generosos, têm necessidade, para que a sua “generosidade” continue tendo oportunidade de realizar-se, da permanência da injustiça. A “ordem” social injusta é a fonte geradora, permanente, desta “generosidade” que se nutre da morte, do desalento e da miséria”. [3]

 

Desde muito jovem Freire travou contato com a pobreza e suas mazelas, deixando-se inquietar e sensibilizar pela exclusão social e a desumanização que elas traziam consigo. Todo um expressivo contingente de brasileiros marcados por seu anátema, cujas vidas anunciavam tudo o que podiam ser, e dificilmente seriam, por estarem aprisionadas numa espiral de opressão e iniquidades, reinantes na estrutura social brasileira de então e de agora, completaríamos. 

 

Em uma reflexão rememorativa nos confidencia: “A experiência da infância e da adolescência com meninos, filhos de trabalhadores rurais e urbanos, minha convivência com suas ínfimas possibilidades de vida, a maneira como a maioria de seus pais nos tratava a Temístocles, meu irmão imediatamente mais velho do que eu e a mim, seu “medo à liberdade” que eu nem entendia nem dele falava assim, sua submissão ao patrão, ao chefe, ao senhor, que mais tarde, muito mais tarde, li em Sartre como sendo uma das expressões da “conivência” dos oprimidos com os opressores. Seus corpos de oprimidos, hospedeiros, sem ter sido consultados, dos opressores”. [4] 

 

A educação libertadora e humana que tencionava pôr em prática não podia fazer tábula rasa da realidade que o circundava no nordeste brasileiro de então, onde imperava a opressão e a injustiça social, as quais deviam ser desveladas aos olhos dos oprimidos, cabendo-lhes, como vítimas, buscar o refrigério da libertação e do conhecimento. Ele acreditava que um passo fundamental no processo do despertar para a consciência crítica ocorre quando o oprimido começa a reconhecer sua própria dignidade.

 

É lastimável que ainda hoje, passadas algumas décadas das constatações de Paulo Freire, teime em persistir, sem significativas alterações, as situações percebidas e denunciados pela obra do educador.

 

Em sua mais discutida e prestigiada obra, Pedagogia do oprimido, já acolhida no reino dos clássicos, publicada em 1968, quando Freire se encontrava exilado no Chile, nos indaga: “Quem, melhor que os oprimidos, se encontrará preparado para entender o significado terrível de uma sociedade opressora? Quem sentirá, melhor que eles, os efeitos da opressão? Quem, mais que eles, para ir compreendendo a necessidade da libertação? Libertação a que não chegarão pelo acaso, mas pela práxis de sua busca; pelo conhecimento e reconhecimento da necessidade de lutar por ela”. 

 

Como dirá Carlos Alberto Torres “… ao procurar basear a validade do conhecimento em processos de discursos racionais, que podem comunicar-se entre si, e daí a ênfase no diálogo, a reflexão compartilhada, a análise teórica a partir da experiência da cotidianidade, não apenas oferece uma crítica à dominação e à exploração social, como também postula componentes, reais e utópicos, de uma teoria pedagógica emancipadora”. [5]

 

Carlos Alberto Torres, um dos mais destacados estudiosos da obra freiriana, por ocasião da efeméride dos vinte e cinco anos da publicação do livro Pedagogia do oprimido, reitera a relevância e atualidade desta obra: “Comemoramos agora o 25º aniversário da Pedagogia do oprimido que é uma comemoração não apenas de um livro que se constituiu, por direito próprio, num clássico da pedagogia progressista, mas também a comemoração de uma utopia de transformação social, nascida no calor de lutas sociais na América Latina, e que continua ainda excitando a imaginação de educadores e de intelectuais”. [6]

 

Henry A. Giroux, um dos pioneiros da pedagogia crítica norte-americana faz repousar, nos trechos seguintes, o reconhecimento do vigor e da atualidade da Pedagogia do Oprimido: “Já faz mais de vinte anos que Paulo Freire publicou Pedagogia do oprimido. À diferença da maioria dos livros sobre educação, Pedagogia do oprimido continua a desempenhar vigoroso papel na concepção de variados debates por todo o mundo a respeito da natureza, significado e importância da educação como forma de política cultural”. [7]

 

Giroux reconhece que Paulo Freire, na Pedagogia do oprimido, reescreve a narrativa da educação como um projeto político que, ao mesmo tempo, rompe as múltiplas formas de dominação e amplia os princípios e práticas da dignidade humana, liberdade e justiça social.

 

Ainda segundo a percuciente leitura e análise que Giroux empreende da magna obra freiriana, a “Pedagogia do oprimido retraça o trabalho de ensinar como prática de todos os trabalhadores culturais engajados na construção e organização do conhecimento, desejos, valores e práticas sociais. Ensinar, nos termos de Freire, não é simplesmente estar na sala de aula, mas estar na história, na esfera mais ampla de um imaginário político que oferece aos educadores a oportunidade de uma enorme coleção de campos para mobilizar conhecimentos e desejos que podem levar a mudanças significativas na minimização do grau de opressão na vida das pessoas. … Pedagogia do oprimido representa uma fronteira textual em que a poesia desliza para dentro da política e a solidariedade se torna uma canção para o presente começada no passado enquanto espera ser ouvida no futuro. [8]

 

O jurista Dalmo de Abreu Dallari, em análise feita a partir da leitura da Pedagogia do oprimido, expõe uma situação que é o pano de fundo da pedagogia freiriana: “Existe no Brasil um analfabetismo programado que é parte de um projeto permanente de dominação política e discriminação social. A existência dessa programação é bem visível sobretudo nas regiões norte e nordeste, onde lideranças políticas retrógradas e corruptas controlam com mão de ferro todo o setor público, impedindo que o povo conheça e veja a realidade. Utilizando coação e mistificação, os dominadores controlam o acesso aos serviços públicos essenciais, que, quando são oferecidos ao povo, aparecem como dádivas da benemerência dos dominadores. E assim controlam também o sistema eleitoral, pois a população pobre, que é maioria na região, vota nos seus exploradores, ou por medo de sofrer represálias e de não ter acesso aos serviços e empregos públicos, ou por gratidão, pois muitos estão convencidos de que todo serviço público é um favor prestado pelos políticos”. [9]

 

E conclui Dallari: “Um sistema viciado como esse, que impede a democratização da sociedade, a implantação da justiça social e o respeito pela dignidade da pessoa humana só se mantém graças ao bloqueio da educação”. [10] 

 

O bloqueio da educação é uma das metas mais explícitas do desgoverno Bolsonaro, com o contínuo e crescente desmantelamento do ensino, do fundamental ao universitário, levado a cabo, com escárnio, pelo Ministro da deseducação. As universidades se tornaram o lócus privilegiado do desmonte em curso, porque, como bem sabem os celerados que nos governam, é nela que se produz e se difunde o conhecimento crítico, tão nocivo a governos autoritários, como o que ascendeu ao poder em janeiro deste ano.

 

As elites que dominam nosso país, hoje representadas no desgoverno de Bolsonaro, temem em Paulo Freire o Educador revolucionário que “teve sensibilidade e visão para perceber a presença de um forte aparato de dominação, apoiado em grande parte na imposição de férrea limitação à educação das camadas mais pobres, que constituem a grande maioria da população da região. Mas Paulo Freire foi mais longe, tendo a percepção de que o analfabetismo, sendo em si mesmo um fator de marginalização e dependência, era usado como instrumento de contenção do aperfeiçoamento intelectual e uma barreira ao desenvolvimento da consciência política”. [11]

 

Em lapidar síntese do método educativo concebido por Paulo Freire, o jurista Dalmo de Abreu Dallari constata que: “A partir dessas percepções e considerando o conjunto das circunstâncias políticas e sociais, o notável educador imaginou um método alternativo, que, do ponto de vista prático, tornava possível a realização de um trabalho educativo rápido, de baixo custo, aproveitando os elementos do meio ambiente dos educandos e, por tudo isso, imediatamente aplicável a um número elevado de pessoas. E sob o aspecto pedagógico seu método oferecia a grande vantagem de proporcionar, concomitantemente, alfabetização, educação e conscientização política, promovendo a inserção social dos educandos e libertando-os como pessoas. Essa conjugação de elementos, rompendo as limitações convencionais da divisão em educação formal e informal e inserindo a alfabetização num processo de estímulo e valorização da capacidade intelectual das pessoas, é, em síntese, o chamado “Método Paulo Freire”. [12]

 

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Penso que você, que me acompanha até aqui, já esteja em condições de intuir ou perceber as razões que levam a obra de Paulo Freire a ser tão hostilizada e subvalorizada pela direita brasileira. Ela é um enfático e vigoroso testemunho e uma enternecedora denúncia de uma realidade de exploração, espoliação, violência e exclusão social que vitima, ainda hoje, milhões de brasileiros em todas as regiões deste imenso país. 

 

Dotar as imensas hordas de, nas palavras de Freire, “demitidos da vida”, “condenados da terra”, “esfarrapados do mundo”, de uma educação inclusiva, libertária e libertadora, na qual sejam protagonistas, é a missão que a obra freiriana se impôs. Nas palavras de Freire: “… aquela que tem de ser forjada com ele e não para ele, enquanto homens ou povos, na luta incessante de recuperação de sua humanidade. Pedagogia que faça da opressão e de suas causas objeto da reflexão dos oprimidos, de que resultará o seu engajamento necessário na luta por sua libertação, em que esta pedagogia se fará e refará”. [13]

 

Como averígua Antônio Callado, citado por Dallari, em relação ao método de ensino de Freire: “Dentro de sua lógica egoísta e autoritária os oligarcas estavam certos, pois através desse método é possível transformar em pouco tempo uma sociedade desequilibrada e injusta: indivíduos dominados e explorados passivos transformam-se em pessoas e cidadãos ativos e assim se dissolve a possibilidade de dominação”. [14]

 

Na perspectiva da pedagogia de Paulo Freire não há como se imaginar uma escola neutra ou destituída de ideologia, como pretendem os arautos da “Escola Sem Partido”, ideologia de extrema direita que pretende neutralizar o pensamento crítico na seara da educação, ocultando e encobrindo as contradições sociais, decorrentes das posições de poder que emanam de uma educação autoritária e domesticadora, a serviço do status quo.  

 

Como afirmou Jorge Werthein, ex-Diretor Oficial da UNESCO em Nova York e Washington, “Freire começa seu trabalho referindo-se à responsabilidade do profissional de educação perante a sociedade em cujo contexto desenvolve suas atividades, de seu compromisso em colaborar com um processo de transformação. Rechaça a possibilidade de conceber uma posição neutra deste profissional perante a sua realidade histórica. Aceitar que é neutro é admitir que tem medo de revelar seu verdadeiro compromisso”. [15]

 

Em decorrência de uma visão reducionista e muitas vezes preconceituosa, o nome de Paulo Freire é associado ao método de alfabetização de adultos, como se ele se constituísse no todo de seu trabalho, o que já seria um labor meritório e de grande relevância social. Todavia, como adverte Marcia Moraes “a pedagogia de Paulo não é importante apenas para o processo de alfabetização em si, mas para o processo educacional como um todo, porque os alunos não são vistos como criaturas de mentes vazias que vão aprender a ler e a escrever ou que vão aprender um determinado conteúdo ou, ainda, uma língua estrangeira. Na perspectiva de Freire, alunos e professores são engajados numa dimensão crítica e criativa dentro do processo ensino-aprendizagem ligados às suas próprias experiências existenciais e origens culturais. Tanto professores quanto alunos percebem suas realidades criticamente e criam conhecimento dentro e através do diálogo”. [16]

 

Paulo Freire defendeu que era urgente a democratização da escola pública e neste processo, inclusivo e democrático, todos deveriam ser chamados a participar: vigias, merendeiras, zeladores, professores, pais e alunos. Toda essa gente sendo coparticipe de uma formação permanente, científica, que se materializasse por meio de práticas democráticas que a todos envolvessem. Em uma fala profética e infelizmente atualíssima em tempos de Lava Jato e desgoverno Bolsonaro, dizia Freire: “A democratização da escola pública, tão descurada pelos governos militares que, em nome da salvação do país da praga comunista e da corrupção, quase o destruíram”. [17]

 

Não há como negar ou minimizar o papel da consciência política e cidadã na educação idealizada e posta em prática por Paulo Freire. Ela expõe as vísceras das relações sociais, estabelecidas no antagonismo de classes, que opõem opressores a oprimidos e traz à tona o potencial conflitivo que perpassa essa relação. 

 

Toda a obra educacional de Paulo Freire foi concebida e posta em prática como uma opção pelos pobres, pelos excluídos, pelos marginalizados. Por esse motivo representa um projeto de manifesto antagonismo com o projeto que anima o governo neoliberal de Bolsonaro, que representa a opção pelos ricos, pelos afortunados, pelos opressores, pelos espoliadores dos sonhos e da vida de milhões de brasileiros. No caminho de destruição, aberto em janeiro deste ano, além da supressão dos direitos trabalhistas e previdenciários da classe trabalhadora, da supressão ou degradação das políticas públicas de inclusão social, o desgoverno Bolsonaro avança, feroz, cínica e destrutivamente sobre aquela que poderia fornecer elementos críticos para resistir ao butim em curso, que é a Universidade Pública brasileira. 

 

A teoria da educação de Paulo Freire mereceu a leitura, o estudo e a atenção de importantes nomes da intelectualidade crítica mundo afora, a exemplo da norte-americana, como os educadores Henry Giroux, Peter McLaren, Ira Shor ou Michael Apple, para citar apenas alguns.

 

 

Carlos Eduardo Araújo é Professor Universitário e Mestre em Teoria do Direito – PUC-MG

 

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Notas:

[1] GUTIÉRREZ, Francisco. Caminhante da obviedade. In: Paulo Freire: Uma biobibliografia. Moacir Gadotti (Org.). Cortez Editora, 1996.

[2] ZARAGOZA, Federico Mayor. Primeiras Palavras. In: Paulo Freire: Uma biobibliografia. Moacir Gadotti (Org.). Cortez Editora, 1996.

[3] FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Paz e Terra, 2013. 

[4] FREIRE, Paulo. Pedagogia da Esperança: Um reencontro com a Pedagogia do Oprimido. Paz e Terra, 1992.

[5] TORRES, Carlos Alberto. Pedagogia do oprimido: Revolução pedagógica da segunda metade do século. In: Paulo Freire: Uma biobibliografia. Moacir Gadotti (Org.). Cortez Editora, 1996.

[6] TORRES, Carlos Alberto. Pedagogia do oprimido: Revolução pedagógica da segunda metade do século. In: Paulo Freire: Uma biobibliografia. Moacir Gadotti (Org.). Cortez Editora, 1996.

[7] GIROUX, Henry A. Um livro para os que cruzam fronteiras. In: Paulo Freire: Uma biobibliografia. Moacir Gadotti (Org.). Cortez Editora, 1996.

[8] GIROUX, Henry A. Um livro para os que cruzam fronteiras. In: Paulo Freire: Uma biobibliografia6. Moacir Gadotti (Org.). Cortez Editora, 1996.

[9] DALLARI, Dalmo de Abreu. Pedagogia da Libertação. In: Paulo Freire: Uma biobibliografia. Moacir Gadotti (Org.). Cortez Editora, 1996.

[10] DALLARI, Dalmo de Abreu. Pedagogia da Libertação. In: Paulo Freire: Uma biobibliografia. Moacir Gadotti (Org.). Cortez Editora, 1996.

[11] DALLARI, Dalmo de Abreu. Pedagogia da Libertação. In: Paulo Freire: Uma biobibliografia. Moacir Gadotti (Org.). Cortez Editora, 1996.

[12] DALLARI, Dalmo de Abreu. Pedagogia da Libertação. In: Paulo Freire: Uma biobibliografia. Moacir Gadotti (Org.). Cortez Editora, 1996.

[13] FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Paz e Terra, 2013. 

[14] DALLARI, Dalmo de Abreu. Pedagogia da Libertação. In: Paulo Freire: Uma biobibliografia. Moacir Gadotti (Org.). Cortez Editora, 1996.

[15] WERTHEIN, Jorge. Educação e Mudança. In: Paulo Freire: Uma biobibliografia. Moacir Gadotti (Org.). Cortez Editora, 1996.

[16] MORAES, Márcia. Paulo Freire e a Formação da Educadora. In: Paulo Freire: Uma biobibliografia. Moacir Gadotti (Org.). Cortez Editora, 1996.

[17] FREIRE, Paulo. Pedagogia da Esperança: Um reencontro com a Pedagogia do Oprimido. Paz e Terra, 1992.

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