A culpa não é dos evangélicos
Sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

A culpa não é dos evangélicos

Imagem: Fotógrafo/Agência

 

Por Vítor Queiroz de Medeiros

 

Há cerca de dois anos atrás, o Frei Betto, em artigo publicado no Le Monde Diplomatique, afirmou categoricamente que os católicos deveriam realizar uma cruzada de reconquista das periferias para libertar o povaréu incauto das garras do individualismo e conservadorismo evangélicos. Claro, afinal de contas o catolicismo tem sido nos últimos mil e seiscentos anos, um verdadeiro baluarte do progressismo (estou sendo irônico!). O tempo passou e a direita evangélica acumulou mais poder e visibilidade até o ponto em que, hoje, dizer-se evangélico em certos lugares é sofrer de mau olhado alheio. A reprovação política ao ativismo evangélico conservador tem, porém, se desdobrado em incompreensões e generalizações cada vez maiores.

 

 

Os evangélicos são acusados de aparelharem os conselhos tutelares, serem todos bolsonaristas, praticarem atos violentos de intolerância e até mesmo de darem um golpe na Bolívia – muita gente passou vergonha espalhando a foto do líder Camacho, que é um carismático católico, com a Bíblia no palácio do governo boliviano. A imagem circulou What’s App afora com a legenda: “golpe neopentecostal na Bolívia”. O renomado Enrique Dussel disse que as igrejas evangélicas são a nova arma do imperialismo estadunidense para dar golpes. Uma afirmação dessas, por mais jurássica e empiricamente inverificável que pareça, e é, possui grande apelo entre os que consomem links de portais ditos progressistas de informação. Entretanto não passa de uma opinião tola. Todos sabemos que não há sequer uma única mega-church estadunidense no Brasil, nem nos países vizinhos; ao contrário, nós é que exportamos igrejas conservadoras. E assim se seguem as análises, de modo que tem até gente falando em “cristofascismo” (?!).

 

Fato mesmo é que há grande desconhecimento sobre o assunto. Cerca de 30% da população brasileira é evangélica[1], aproximadamente 60 milhões de pessoas. 22% da população é de pentecostais e 7% de não-pentecostais. 34% está nas assembleias de Deus, 11% são batistas, 8% na Igreja Universal do Reino de Deus, 6% da Congregação Cristã no Brasil, 5% na Quadrangular, 3% na Presbiteriana, 3% na Deus é Amor e por aí vai. Mas o segundo maior grupo de evangélicos é composto por frequentadores de igrejas não denominadas, 17%. Pouco sabemos dessa gente tão diversa. Temos em geral, seu perfil demográfico: relativamente às médias do segmento católico e da população em geral, grupo evangélico é tendencialmente mais jovem (média de idade de 37 anos, enquanto os católicos têm 42, 4 e a média nacional é de 39,6 anos), mais feminino (57% dos evangélicos são mulheres ante 52% dos católicos, mesma taxa média da população em geral) e de menores rendimentos familiares mensais, especialmente entre os pentecostais (53% deles ganham até 2 salários mínimos; taxa que cai para 46% entre os evangélicos não-pentecostais; 50% entre os católicos e 49% na média nacional)[2]. Além disso são majoritariamente negros[3]. Uma bela amostra do povo, não?

 

E ainda assim a imperícia e falta de vigilância fez com que atravessássemos os últimos trinta anos de crescimento vertiginoso dos evangélicos sem que a esquerda se dispusesse a construir relações orgânicas com este segmento com base nas suas sensibilidades particulares. Nunca houve um esforço intencional de diálogo. Em vez disso, identifica-los reiteradamente como atrasados e de direita, enfiou-lhes na cabeça uma carapuça da qual hoje muitos se orgulham. Não foram poucas as vezes em que líderes contribuíram para jogar os evangélicos no colo da direita, ou quem não se lembra das declarações de Gilberto Carvalho (pelas quais teve que se desculpar depois), de Jean Wyllys comparando as igrejas ao narcotráfico ou da brilhante frase de Haddad durante as eleições, criticando o “charlatanismo do senhor Edir Macedo” – em pleno 12 de outubro, em entrevista na saída de uma paróquia católica. Jamais acusaria o charlatanismo alguns anos antes, quando essa gentalha toda compunha, entre risos e afagos, a base aliada dos governos petistas.

 

Há aqueles que relativizam. “A culpa não é de todos os evangélicos, só dos pentecostais”. Em artigo publicado na revista Cult, recentemente, “A hegemonia dos pentecostais”, basicamente se lhes coloca toda a culpa. Nada mais inverdadeiro e contraproducente. Novamente é culpar o povo, só que dessa vez omitindo o conservadorismo dos protestantes históricos. Acontece que estes mesmos, historicamente também tiveram ligações com a direita nacional: batistas, presbiterianos, metodistas e cia foram aliados, às vezes até oficialmente, dos governos militares e mesmo hoje, basta olhar para a bancada evangélica e notar-se-á: os batistas, por exemplo, são o segundo maior grupo dentro da bancada evangélica, com 12 deputados, muitos dos quais altamente importantes, como os filhos de Bolsonaro. O grupo só é menor que os vinculados à Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), que totalizam 18 parlamentares, e da parcela assembleiana, com 33 deputados[4]. Jogar a culpa nos pentecostais é atribuir-lhes uma maldição genética que é falsa. Enquanto Anivaldo Padilha, leigo metodista, era entregue por seus pares à repressão militar, Manoel da Conceição e outros pentecostais lutavam nas Ligas Camponesas pelo direito à terra[5]. Lamento informar: a culpa não é dos pentecostais e não há modelos puros no real, há contradições e misturas.

 

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A sabichania de uns chegou a ponto de excomungar abertamente os neopentecostais – sempre generalizados sob o testemunho da IURD, que não representa a totalidade do segmento. Com fortes doses de preconceito, leia-se o texto “Os neopentecostais ditos evangélicos são usados pelo que há de pior contra o povo”, publicado no site “Cartas Proféticas”. Essa é a profecia manca dos que vivem de denúncia sem anúncio. Maldizer o povo em público nunca foi profético, basta ver que o Cristo soube dizer “Ai de vós!” aos fariseus, mas se compadeceu e amou intimamente a multidão.

 

Por isso o desafio dos evangélicos progressistas é o de criar uma narrativa própria a respeito de si mesmos. Alguns desses gastam-se a fazer média com a esquerda, num auto-flagelo constante, marcados por um forte sentimento de culpa e um complexo de inferioridade. É preciso anunciar, com boa dose de auto-estima, o trabalho que tem sido feito. Estão aí a Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, o Movimento Negro Evangélico, os Evangelicxs pela Diversidade, as Evangélicas pela Igualdade de Gênero e outros coletivos organizados que buscam promover a justiça social com base na fé evangélica. Infelizmente, as generalizações feitas acabam por invisibilizar estes ativismos.

 

Há um desafio político para todos: distinguir protagonismo x representatividade da direita evangélica. Conforme pesquisas de opinião, o grupo evangélico é: mais refratário que a média nacional em relação à legalização da união entre pessoas do mesmo sexo (68% dos evangélicos são contrários, em diferença aos 42% da população em geral) e à adoção de criança por casais homoafetivos (64% de evangélicos contrários versus 40% da população); condena mais enfaticamente a prática do aborto (64% contra 56% da média na população) e, embora a taxas “baixas”, quase um 1/4 de seus componentes costuma levar em consideração a opinião de seus líderes religiosos que fazem campanhas para políticos (23% dos evangélicos contra 10% dos católicos). Generalizando acima dos matizes que existem dentro de um segmento tão heterogêneo (são quase 60 milhões de pessoas) poderíamos dizer que os evangélicos são em média mais conservadores do ponto de vista moral do que a população em geral.[6]

 

Essa conclusão atestaria a conformidade ideológica dessas bases sociais com aqueles que lhe dizem representar no Congresso nacional enquanto defendem pautas contrárias à expansão de direitos e que visam à regulação da moralidade pública. Mas no caso da livre expressão das identidades sexuais e a homofobia, por exemplo: embora a maioria dos evangélicos seja contrária à legalização do casamento homoafetivo e à adoção de crianças por casais homoafetivos (respectivamente 685 e 64%), 71% dos evangélicos é favorável à lei que puna quem intimide, constranja ou ofenda homossexuais, contra 75% da taxa média da população em geral (e entre os evangélicos não pentecostais, a taxa de apoio à criminalização da homofobia chega a 74%). Em survey aplicado na Marcha para Jesus de 2017 em São Paulo[7][8] – principal evento público dos evangélicos no Brasil – se colheram os seguintes resultados: 49% dos entrevistados se disseram “pouco” ou “nada conservadores”, enquanto 45,5% se declararam “muito conservadores”; 70% concordaram que “cantar uma mulher na rua é ofensivo”; 90% discordam de que “o lugar da mulher é em casa” e 77,1% concordam que “a escola deveria ensinar a respeitar os gays”. Esses resultados contrastam com o protagonismo de parlamentares e lideranças eclesiásticas evangélicas na luta por restrição de direitos ao público LGBTI+ como no combate ao PLC122/2006[9] que propunha criminalização da homofobia, o apoio a projetos como Estatuto da Família, Escola Sem Partido[10], e o lobby no Supremo Tribunal Federal para evitar que a homofobia fosse incluída no hall de crimes equiparáveis a racismo[11]. Em suma, não necessariamente a condenação teológica de uma prática por parte desses religiosos, significa adesão imediata às propostas legislativas discriminatórias.

 

Outra pesquisa a se considerar é a “Olho por olho – o que pensam os cariocas sobre ‘bandido bom é bandido morto’”, que foi realizada pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec) da Universidade Cândido Mendes (UCAM) em 2017. O survey identifica na amostra, uma taxa de 60% de rejeição à frase “bandido bom é bandido morto” na população em geral. Entre os evangélicos a taxa é de 74%. E enquanto 73% dos cariocas em geral acreditam na ressocialização possível de presidiários, a taxa entre os evangélicos chega a 87%.[12]

 

Talvez falte aos partidos e movimentos sociais mais conhecimento qualitativo desse grupo e também um pouco de coragem para apostar no já mítico, “trabalho de base”; na construção horizontal de valores, dialógica, de quem ensina e aprende.

 

Encerro lembrando que o campo democrático-popular emergente no contexto pós-ditadura e capitaneado pelo Partido dos Trabalhadores foi efetivamente capaz de polarizar com as elites e tematizar a vida concreta das classes subalternas, lhes oferecer horizontes de esperança e de engajamento. Foi vitorioso e isso só foi possível pelo espírito contemporâneo que soube encarnar. Não à toa, os atores principais deste campo foram o MST, as Comunidades Eclesiais de Base e a CUT. São instrumentos que remetem a um Brasil mais rural, mais católico e, em algum grau, dotado de um operariado fabril de tipo fordista. Acontece que este Brasil não existe mais. Vivemos num país cada vez mais urbano, estima-se que cerca de 85% dos cidadãos vivam em contextos urbanos; em transição religiosa, o país se tornará de maioria evangélica a partir de 2030; e com um mundo do trabalho que é o do precariado. Somando ainda o bônus demográfico atual, podemos pintar o rosto genérico do “sujeito histórico” como uma moça, negra, jovem, residente de alguma periferia urbana, evangélica pentecostal e atendente em algum call center ou fast-food. Se for homem, é entregador de ifood. Pois bem, esta não é “a classe trabalhadora” no “capitalismo”, senão a classe trabalhadora brasileira do século XXI no capitalismo brasileiro do século XXI. Um projeto político decente carece de ancoragem nas relações sociais ora vigentes, sob pena de tornar-se anacrônico. Em outros termos: não haverá projeto mudancista sem considerar a experiência dessa nova classe trabalhadora, queiramos ou não, ela é crescentemente evangélica. Lamento que o descompasso histórico que desaconselha nossas lideranças, produza verdadeiros detratores do povo, rápidos em denunciar o conservadorismo dos pobres e maldizer sua burrice. Sim, “ o povo não nos entende porque é burro”.

 

Mas ainda é tempo para aprender.

 

 

Vítor Queiroz de Medeiros é cientista social e mestrando em sociologia na Universidade de São Paulo (USP).


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Notas:

[1] “44% dos evangélicos são ex-católicos” – em: http://datafolha.folha.uol.com.br/opiniaopublica/2016/12/1845231-44-dosevangelicos-sao-ex-catolicos.shtml. Acesso em 03/04/2018.

[2] https://datafolha.folha.uol.com.br/opiniaopublica/2016/12/1845231-44-dos-evangelicos-sao-ex-catolicos.shtml – Acesso para a pesquisa “Perfil e opinião dos evangélicos no Brasil”.

[3] “A religião mais negra do Brasil” – Marco Davi de Oliveira

[4] https://congressoemfoco.uol.com.br/legislativo/renovada-bancada-evangelica-chega-com-mais-forca-no-proximo-congresso/

[5] Francisco Julião ao jornal O Pasquim (nº497) em que o líder das Ligas Camponesas discorre sobre a participação dos evangélicos.

[6] https://datafolha.folha.uol.com.br/opiniaopublica/2016/12/1845231-44-dos-evangelicos-sao-ex-catolicos.shtml – Acesso para a pesquisa “Perfil e opinião dos evangélicos no Brasil”.

[7] O site da Fundação Friedrich Ebert, responsável pela pesquisa, está fora do ar na web: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2017/06/16/Quem-s%C3%A3o-e-o-que-pensam-as-pessoas-que-participaram-da-Marcha-para-Jesus-em-SP.

[8] https://www.youtube.com/watch?v=0cGC1-Nddao – “Evangélicos, Igrejas Evangélicas e Política”.

[9] https://www.gospelprime.com.br/bancada-evangelica-barra-votacao-da-pl-122/

[10] https://www.nexojornal.com.br/expresso/2018/11/23/Como-Escola-Sem-Partido-e-bancada-evang%C3%A9lica-se-aliaram

[11] https://congressoemfoco.uol.com.br/direitos-humanos/bancada-evangelica-quer-suspender-julgamento-da-criminalizacao-da-homofobia/

[12] https://www.ucamcesec.com.br/livro/olho-por-olho-o-que-pensam-os-cariocas-sobre-bandido-bom-e-bandido-morto/

Sexta-feira, 31 de janeiro de 2020
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