Oh, Admirável Brasil Novo!
Terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Oh, Admirável Brasil Novo!

Imagem: Antonio Cruz / Agência Brasil – Edição: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Alberto Luis Araújo Silva Filho

 

Há uma nova sociedade brasileira se formando no caldo dos seus fantasmas. Autoritarismo, salvacionismo, negação. Como nos tempos de Vargas, os integralistas (“Anauê”) se reorganizam e praticam atos de terrorismo. Mas o Estado os considera a salvo de qualquer acusação mais grave, a despeito de “lei marcial” promulgada em 2016.

 

 

Uma questão muito séria se impõe nesses estranhos tempos: como pode um mesmo governo reunir em torno de si os investidores milionários da Faria Lima, os casaizinhos que frequentam a Igreja dominicalmente e prezam pelo pudor e a infância e algumas figuras horrorosas trajadas de verde-amarelo e que reivindicam a monarquia a custo de sangue? Boa pergunta. Que só pode ser devidamente compreendida quando fica claro que o Brasil jamais superou a estrutura pano de fundo para Getúlio Vargas justificar o golpe de 1937 e a subsequente instauração do Estado Novo. 

 

Discursos úteis de equivalência do bolchevismo ao nazismo, “forças igualmente autoritárias”, estiveram presentes naqueles dias de tensão como hoje, sob o eco das vozes civilizadas que se põem além de uma suposta polarização dos “dois extremos”. Eram dias de conquistas no mundo do trabalho, mas também de tensão política e interdição do debate democrático. Eram dias em que integralistas e comunistas compunham – de maneira apartada – a oposição que tentava, de armas em punho, remodelar a sociedade nacional rumo a um horizonte mais afável.

 

Sofrendo repressão acentuada naquela época, hoje a comuna perdeu força. Não é mais aquela que esteve sob as sombras de Prestes, o ex-militar que atravessou o interior do país sonhando com a revolução tenentista. Mas seus rivais sobraram. A extrema-direita que jamais deveria ter passado, passou; como bem enunciado por um amigo íntimo de Carlos Bolsonaro recentemente no Twitter. Não vivemos aqui algo como uma Guerra Civil Espanhola, apenas farsas devidamente realçadas pelo discurso. Vargas, como gênio político que era, tinha um plano pessoal de poder e utilizou o contexto internacional de guerra e reação para justifica-lo institucionalmente. O golpismo que desemboca em fechamento é algo que também voltaríamos a assistir em 1964, resguardadas as devidas singularidades da emergência das Forças Armadas no campo político, que não se resumia a encarnação mítica do herói nacional na verve de um “caudilho”. 

 

Sob 37 e 64, portanto, sobreviveu um fascismo tupiniquim, sem ser incomodado; organizando sociedades culturais e literárias; debatendo livremente as suas ideias. O germe histórico do ataque a sede da produtora do humorístico Porta dos Fundos sempre esteve ai, sem barreiras muito nítidas. Para efeito de comparação, quantas foram as vítimas desse movimento que presta culto ao ultranacionalista Plínio Salgado em relação aos militantes marxistas assassinados? Quais foram torturados? Houve uma Olga Benário do lado de lá? Embora Plinio tenha ido ao exílio em 1939, não há como reforçar a vitimização dos camisas verdes e nem igualar extrema-esquerda a extrema-direita. O integralismo foi uma das bases para a ruptura do varguismo, mesmo que traído posteriormente. Na história brasileira, as condições para o exercício de determinadas posições políticas sempre saiu mais caro, embora a Constituição de 1988 tenha previsto certa criminalização do nazi fascismo mais tradicional. 

 

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A leniência com milícias fascistas foi daqueles regimes, dos governos democráticos e é do Estado, hoje, que permite a evolução do integralismo ao pico da ação direta. Essa leniência deriva da associação das práticas racistas e assassinas de tais gangues com o modus operandi higienista das forças de repressão durante os próprios governos em questão, pouco eficientes na resolução de crimes sofisticados, mas sagazes no cerceamento aos movimentos sociais e na propagação do discurso de ódio. Basta entrar em nossas favelas para ver que soldados fardados gozam de altíssima desconfiança. Ou então basta lembrar que essas milícias estiveram a serviço da limpeza social estimulada por nosso último regime autoritário.

 

A imagem de Plinio e seus soldados, comum nos anos 30, volta a assombrar os interessados em libertar o país das opressões. O anticomunismo e o patriotismo radical continuam a serem seus elementos centrais. Tem assombrado também aquelas imagens recentes de bravos homens a carregarem braceletes nazistas em algumas cidades brasileiras sem serem incomodados: coisa que naquele Brasil varguista, onde o antissemitismo se fortalecia, não era algo raro. No 2020 que se inicia, o espaço de ação para a intolerância não encontra limites, ao contrário da emancipação que é criminalizada, de tal maneira que carregar a bandeira da justiça e da legalidade é expor o peito a tiros de um país cada vez mais armado, enquanto a incitação ao ódio tem livre trânsito, inclusive nos meios mais ilustrados, lotados de cretinice e revisionismo intelectual.

 

Segundo a polícia-civil do “cartão-postal” do país, o caso de terrorismo no Rio de Janeiro, motivado por fundamentalismo religioso e homofobia, não pode ser classificado como caso de “terrorismo”. Entretanto, nos rincões do Centro-Oeste, ações do MST passam a ser oportunamente enquadradas na legislação promulgada pelo governo Dilma Rousseff em 2016. São dois pesos e duas medidas operando, em dois cantos do país, a pleno vapor, enquanto se fala em agitação mútua. Se gente da estirpe dos soldados de Mussolini resolve sair das tocas da marginalidade, há um recado bem dado para toda e qualquer forma de dissidência: reviver o passado mítico de outras eras é reviver o terror da perseguição. 

 

Configura-se então um quadro de “inovação” para o Brasil, no qual caímos no ciclo de ressurreições e reminiscências. A nova sociedade brasileira, com a sua “nova Era” e seu “novo homem” são mais antigos do que nunca: já nasceram velhos. Mas são as fórmulas velhas, clássicas e duradouras as que se destinam a fazer sucesso. O caldo enlatado que estamos consumindo desde janeiro de 2019 é feito de coisas que resistiram à nossa parca modernização, incluindo um tiquinho de integralismo sobrevivente, constituído fatalmente pela rejeição a teses igualitárias. Se a violência contra as liberdades está nas ruas, é porque um nível de chancela foi possível. Esse rumo precisa ser freado se o desejo é manter a vida minimamente vivível no país.

 

Nesses tempos, lembro de “Admirável Mundo Novo”, livro de sir Aldous Huxley, no qual o personagem Selvagem é retirado de seu habitat natural para contemplar a civilização da maquinaria que tomou o poder. Os habitantes da Inglaterra pós-Ford retratada no enredo tem não só o direito, mas o dever, de ser eternamente felizes. Como garantir a eternidade de uma sensação momentânea? Ministrando o soma, uma espécie de comprimido que deixa cidadãos entorpecidos e prontos para exercer as tarefas correspondentes a sua respectiva classe.

 

No Brasil, o governo parece ministrar, por meio de suas medidas e decretos, uma espécie de soma às avessas para a população, garantindo o amargor e a tristeza contínuas que nos dão a permanente sensação de derrota. O banditismo do Planalto está destinado a perpetuar e incentivar tudo aquilo que há de pior. E aqui não contamos com nenhum narcótico oficial para nos ludibriar. É realidade nua e crua. O discurso violento que vem do alto prolonga uma tradição seletiva de nossa história que autoriza muitas atrocidades, como a satisfação de fascistas raiz, leais ao Dulce. Se os integralistas atacam, é porque há um terreno político fértil para sua ação nessa época de conservadorismo. Tal como Bernard, o protagonista do livro de Huxley e amigo do Selvagem, sempre chocado com os horrores da modernidade, devemos manter a chama do pensamento crítico viva, e mais: a altivez e disposição para fazer frente aos desmandos.

 

 

Alberto Luis Araújo Silva Filho é mestrando em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB) e Bacharel em Ciência Política pela Universidade Federal do Piauí (UFPI)

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Notas:

[1] Interessante notar que desde a emergência das tribos urbanas nos anos 80, “carecas” e “skinheads”, herdeiros menos “cultos” de algumas características do “integralismo”, andam soltos pelo país, mas sem muita coragem para promover atentados. O maior feito desses grupos tem sido o homicídio de punks em brigas tribais

[2] O antissemitismo não é reconhecidamente uma característica do integralismo brasileiro, que trabalha com a valorização da mestiçagem, embora fosse um elemento forte da conjuntura política da década de 30, inclusive no Brasil, onde milhares de vistos para judeus que fugiam da perseguição na Alemanha acabaram sendo negados por determinações oficiais.

Terça-feira, 4 de fevereiro de 2020
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