O filho da empregada que foi para a Disneylândia
Quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

O filho da empregada que foi para a Disneylândia

Arte: Justificando

 

Por Gabriel Alex Pinto de Oliveira

 

Ontem o Ministro Paulo Guedes deu uma declaração extremamente racista e preconceituosa ao falar sobre o dólar alto e as empregadas domésticas irem para Disneylândia.

 

Pois é, entre as pessoas que me conhecem pessoalmente, uma parcela muito pequena delas sabe (até agora) que eu já fui para a Disney. O ano era 1996, e o real estava quase equiparado ao dólar, valendo em torno de R$1,30, ou algo do tipo, a foi uma viagem inesquecível. E o motivo de eu não falar muito dessa viagem para as pessoas era justamente porque de alguma forma eu sentia vergonha de poder dizer “olha, eu já fui para Disney…”. E sentia vergonha não porque não tivesse sido uma experiência fantástica, foi incrível, mas pelo julgamento das pessoas.

 

Quando, ainda na minha infância, a minha mãe tocava nesse assunto com outras pessoas, muitos olhavam para gente com um olhar de espanto e de descrença, como se dissessem “como vocês (negros) foram para Disney”. Eu tinha medo do julgamento pois aquela não era a realidade da minha família. Não era comum no mundo ao qual eu pertencia viajar para fora do país, e ainda mais para a Disney, mas uma série de fatores colaboraram para que isso acontecesse e sem dúvida uma delas foi o real estar muito próximo ao valor do dólar.

 

Assim como poucas pessoas sabem dessa viagem, poucas pessoas sabem que eu comecei a trabalhar com 04 (quatro) anos de idade, fazendo participações em comerciais e programas de televisão. Minha mãe me agenciou, por conselho de uma amiga, e eu acabei conseguindo alguns trabalhos artísticos. Esse foi o começo da minha carreira como ator, e esses trabalhos esporádicos renderam um dinheiro que ajudou a custear essa viagem. Não fiquei famoso e nem pude continuar por muito tempo nessa área porque minha mãe precisava trabalhar e não tinha quem me levasse para os testes, enfim…

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Também poucas pessoas sabem que durante um tempo, na infância e adolescência minha mãe ajudou a minha vó, que foi empregada doméstica praticamente a vida inteira (*1917 – *2017), lavando roupa para fora e sendo empregada doméstica também. Nossa família nunca foi rica. Aliás, nossa família já foi muito pobre, de mal ter o que comer em casa. E ainda ouço as histórias antigas da boca dos meus tios e da minha mãe de como eles sobreviviam. De uma forma ou de outra, minha mãe conseguiu impressionantemente ascender socialmente de uma extrema pobreza ao que seria uma classe média por meio da educação. Da minha avó que morreu analfabeta para mim que pretendo chegar ao doutorado, o grande salto qualitativo foi a trajetória de vida e econômica da minha mãe.

 

Falar que eu viajei para Disney em 1996 faz parecer que as coisas foram fáceis quando na verdade não foram. Eu, por incrível que possa parecer, trabalhei para isso. Minha mãe vivia economizando o que podia e sempre que podia. E ainda tivemos uma oportunidade única para que a viagem acontecesse. Assim, a viagem não foi porque éramos ricos e nem caiu do céu. Da mesma forma, quando falo que eu estudei em colégio particular esconde o fato de eu ter recebido bolsa de estudos e de enfrentar quase que diariamente o racismo dos meus colegas brancos que não aceitavam tão bem a minha presença lá naquele espaço, assim como o Sr. Paulo Guedes não aceita o fato de pessoas como eu, minha mãe e minha família viajarem para Disney ou qualquer outro lugar que quisermos.

 

A questão aqui não é a viagem, a questão aqui é o direito que todos nós possuímos de ter o que de melhor a vida puder nos oferecer. Mas ele, ministro da economia, não está preocupado com o nosso bem-estar social, mas apenas com o lucro daqueles que já têm dinheiro.

 

Eu já estou acostumado desde cedo com o racismo dessas pessoas. Eu convivo no meio de pessoas brancas tempo o suficiente para saber como ele funciona e como ele pode ser sutil por vezes… E convivi com os brancos por tempo suficiente para que, se eu quisesse, poder odiá-los legitimamente com todas as minhas forças pelo o que já me fizeram sentir e passar, mesmo assim eu não os odeio. E não os odeio porque sei que nem todo branco é racista, assim como sei que nem todo negro entende como funciona a estrutura do racismo, assim como sei que uma pessoa que acha que somente uma parcela da sociedade (eminentemente a elite econômica brasileira) pode ir à Disney enquanto o povo que sustenta esse país tem que se contentar em sobreviver com menos de um salário mínimo, não pode assumir um cargo como o de “Ministro da Economia do Brasil”. Ele está lá também para trabalhar pela ascensão econômica da população mais pobre desse país.

 

As políticas públicas têm que ser adotadas para beneficiar o povo brasileiro como um todo, não apenas uma parcela privilegiada da sociedade que continua no poder desde que Cabral descobriu o Brasil. Eles nos mostram a cada dia porque fizeram tanta força para estar no poder. Cabe a nós lutar para que eles não consigam o que querem: um povo submisso, sem dinheiro e sem educação.

 

Eu sou, com muito orgulho, o filho da empregada que foi para a Disneylândia!

 

Gabriel Alex Pinto de Oliveira é advogado, pós-graduando em Gestão Financeira e Econômica de Tributos pela Fundação Getúlio Vargas – FGV, pós-graduado em Direitos Fundamentais pela Universidade de Coimbra em parceria com o Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM, bacharel em Direito pala Universidade Presbiteriana Mackenzie, com experiência na área de Direito Tributário e no estudo das relações étnico-raciais afro-brasileiras.

Quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020
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