A morte do Homem
Terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

A morte do Homem

Imagem: Personare / Arte: Justificando

 

Por Francivan Amorim Oliveira

 

Rega as tuas plantas;
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
de árvores alheias.

(Fernando Pessoa)

 

 

Friedrich Nietzsche, filósofo alemão do século XIX, anunciou a “morte de Deus” em nosso cotidiano uma vez que a ciência assumiu o papel da religião. Olvidara-se o espírito supersticioso através de atitudes céticas e experimentais. O homem científico, define Nietzsche, é aquele que “produz um aumento de energia, de capacidade dedutiva, de tenacidade”. Damos, pois, um salto ousado e relevante. 

 

Como toda iconoclastia – esse ato demolidor – rompe com a veneranda imagem dos ídolos, ela necessariamente evita reconstruí-los sob outra máscara. Entretanto, Friedrich Nietzsche e diversos pensadores – seus epígonos ou não – salientaram que a ciência corre o risco de gerar fetiches semelhantes aos símbolos religiosos, engendrando ficções e ideias niilistas perante a realidade. É a velha tabuleta que Machado de Assis descreve em Esaú e Jacó: pintamos o exterior, mas a madeira deteriorada continua sendo igual.

 

No século XXI, a prática científica opera milagres, posto que recorremos à ciência para eliminar o sofrimento. A vida adquire um valor de uso por uma pretensão única: prazer imediato e efêmero. Karl Marx a denominou de “reificação”, ou melhor dizendo, de coisificação. O mercado, dessa maneira, aliena-nos estruturalmente gerindo as escolhas e os desejos. Remédios, experiências e itens são vendidos a expensas de curar os males contemporâneos. 

 

Hoje, dois centros científicos adversos prevalecem: o hegemônico e o periférico. O primeiro, acrítico, auxilia a agropecuária, os exploradores de animais, o consumo inveterado, a derrocada ambiental, em suma, o establishment. Porém, o segundo tenta demonstrar a custo que os hábitos pós-modernos se provarão a médio prazo insustentáveis. Negar o aquecimento global, o heliocentrismo, a forma terrestre mais nos assusta que envergonha. As tiranias naturalizam suas perfídias dando vazão às piores mentiras e, recentemente, a extremismos tão antigos quanto tolos nascentes sob o prefixo “neo”. Agora, costumamos repetir: “Até tu, Brutus, meu filho?”. 

 

O Homem superior e magnânimo que projeta a razão cartesiana (“penso, logo existo”) julga organismos diferentes feito matéria inerte de proveito infinito. Assim, genocidamos vacas, bois, porcos, galináceos; assim, temos produzido substâncias tóxicas; assim, com desprezo e indiferença, demolimos o planeta Terra. Se a criatura morreu, por que não o criador? O egoísmo inato leva a cabo os maiores absurdos. É oportuno contar uma pequena anedota. Edward Bernays, sobrinho de Sigmund Freud, utilizou as teorias do tio visando nitidamente a manipular os indivíduos. O famigerado Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazista, menciona dado momento a influência que Bernays exerceu sobre ele. “Goebbels estava usando meu livro Crystallizing Public Opinion como base para sua campanha destrutiva contra os judeus da Alemanha. Isso me chocou”, confessa Edward Bernays. Eles usufruíram das teses freudianas de modo tacanho e categórico, moldando o inconsciente coletivo. Após isso, políticos e magnatas concordam que as massas revelam-se perigosas e irracionais se não forem controladas. A falsa individualização posterior garante o pleno imobilismo graças às birrentas estruturas capitalistas. Possuímos, de fato, soberania? 

 

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O Deus presente em nós se encontra sufocado. Algo parece-me contundente: o Homem vai ruir abstrata ou empiricamente a depender de mudanças determinantes. “E o destino nos pertencerá?”, questionamos. Imagino que os seres humanos precisariam retornar a uma condição primitiva e se libertar de si. Lembremos a frase de Dostoiévski: “Se Deus não existisse, tudo seria permitido”. O cerne da questão é que transformamo-nos na própria clausura – prisão. Refletimos o rosto de Janus, divididos entre o jovem futuro e o velho passado.

 

Saúde, alegria, ócio e gozo obtêm nuances falsas e quase mitológicas devido à imediatez atual. Friedrich Nietzsche adiantara que nós estamos doentes de nós mesmos e, consequentemente, doentes de mundo. Os afetos tristes – trazendo uma perspectiva espinosana – diminuem a potência de agir. Baruch Espinosa, diferente dos psicanalistas, sustentaria que há pulsão de vida (Eros), não de morte (Tânatos). Ela, todavia, se acha arrefecida e precarizada. Aprendemos pouco a pouco que as revoluções duradouras são a princípio internas e descontínuas. 

 

Nietzsche compreende que nos fizemos vítimas do pensamento socrático-platônico à procura de um ideal ilusório e inatingível, desprezando sobremodo o corpo. Heráclito, filósofo que antecede Sócrates, afirma a eterna mutação humana e natural – “você nunca toma banho duas vezes no mesmo rio”. O devir se alimenta da coragem intrépida que se realiza, não apesar dos obstáculos, mas enquanto eles perduram. Gilles Deleuze falava em devir-revolucionário, juntemo-lo ao devir-vida – e que os sonhos sejam a expressão sacrílega de forças carnais despertas. 

 

A morte conceitual do Homem abrir-se-á a possibilidades desconhecidas se driblarmos antes, em termos de espécie, a morte definitiva. Mudando interiormente, resta demandar uma ciência que tenha de início amor e defenda o existir. As florestas, os rios e mares, as plantas, os solos, a fauna clamam por dias melhores e auspiciosos. Não esqueça, a terra cobra o sangue nela derramado. Honre o entorno e proteja-o.

 

Post Scriptum: Mulheres, a utilização do termo “homem” tem motivos implícitos. Um abraço.

 

 

Francivan Amorim Oliveira tem dezessete anos de idade e estuda Letras na Universidade de São Paulo


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