A fase anal do Brasil
Sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

A fase anal do Brasil

Imagem: Reprodução – Arte: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Andrés del Río e André Rodrigues

 

Faz um ano, o inflamado novo presidente de extrema direita, escrevia no seu twitter: “O que é o Golden Shower?” Surpresa mundial. Naquele início de 2019, num clima confuso e com uma esquerda atordoada, em pleno carnaval, num cenário de felicidade coletiva e popular, Bolsonaro gerou estranheza e ira com seus ditos. Até a plataforma Twitter ficou contrariada, tirando-o do ar, tornando-se assim o primeiro presidente do mundo a ser bloqueado por causa de uma postagem.

 

 

Um ano depois, na mesma época inicial do ano, com o carnaval de paisagem, com uma esquerda que tentar deixar de estar atordoada: Brasil continua na fase anal e Bolsonaro continua sendo o mesmo esgoto. Mas agora parece estar voltado para uma fase genital, de adoração ao falo, ao homem duro, rústico, de autoridade e disciplina. E suas ações estão liberando o caráter central de sua postura política: um autoritarismo caricato. Dessa vez, o sujeito presidencial divulgou no seu WhatsApp um vídeo de apoio à manifestação contra o parlamento e o STF. E, com ele, o ministro Heleno e a secretária de cultura, Regina Duarte, apoiaram as manifestações do presidente. O filho Eduardo, o não embaixador, respaldou seu pai sem retroceder um centímetro: “Se houvesse uma bomba H no Congresso você realmente acha que o povo choraria?”. O que esse processo indica, entretanto, é que Bolsonaro continua sendo um “bunda suja” (como era conhecido no âmbito militar), tendo em vista que a agenda de fechamento do Congresso e do Supremo vêm na esteira de uma ampliação do poder militar no governo, onde já tem mais presença que na ditadura. O Brasil continua na sua fase anal.

 

Neste pequeno artigo, procuraremos criar pontes entre os eventos que aconteceram no carnaval do ano passado e os eventos e discursos deste ano, um chuvoso carnaval. Antecipamos: não sabemos do paradeiro atual do decoro presidencial, ou se ele ainda está vivo e em vigor. 

 

Depois de um ano de governo, todos já sabemos o que Bolsonaro é (como se ele já não tivesse sido suficientemente explícito em seu comportamento em quase trinta anos de parlamentar e durante a campanha eleitoral para presidente). Ele é autoritário, ele é negligente e incompetente, ele é perigoso, ele tem visíveis relações com a milícia, ele é um político das margens que agora está no centro dos olhares pela decisão das elites (e de outros) para dar continuidade ao golpe de 2016.

 

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De um ano para cá, tudo piorou, mas existe muita continuidade do governo-esgoto que se consolidou. Em primeiro lugar, Bolsonaro continua com nojo das manifestações populares como o carnaval. Talvez a ministra Damares nos aclare sobre o que o governo pensa do carnaval: “é uma afronta a fé cristã”. O próprio petit presidente criticou o enredo da Mangueira na mesma linha que a ministra. Nesta época do ano, da maior festa popular nacional, Bolsonaro continua estando presente na Sapucaí e nos blocos por todo o território nacional. Lembremos, o ano passado, o canto que unificava os blocos de rua foi “Bolsonaro VTNC”. Neste ano, os cantos foram mais diretos: “Fora Bolsonaro”, entre outras criações. Assim, com um canto que desintegra toda diferença social momentânea para unir de forma espontânea uma sociedade que está sofrendo cotidianamente a violência do ajuste neoliberal, precarização e prepotência. Lembremos que em 2019 se tentou censurar os blocos que cantavam “Bolsonaro VTNC”. Depois de um ano de governo, a censura é uma das políticas públicas mais desenvolvidas do seu governo e existe nas mais diversas áreas. 

 

No ano passado, o Carnaval exibiu a sede de justiça no caso Marielle, a luta pela liberação de Lula como preso político, a luta dos movimentos negros e LGBT, fortemente rejeitados pelo Capitão, e a presença das mulheres pela luta por um Brasil melhor, menos violento, respeitoso e não discriminador. A Sapucaí confirmou seu lugar de resistência e dignidade da cultura brasileira. Esse sentimento e resistência se estendeu a quase todas as escolas. A grande maioria delas teve como temas aqueles tópicos que foram atacados durante todo o primeiro ano de governo: intolerância religiosa, presidente caricato, etc. Neste sentido, 11 de 13 escolas do grupo especial levaram protestos à famosa avenida com sátiras, ironias e críticas ao governo nos sambas-enredo. A Sapucaí se consolidou como um grito unificado ante os ataques ao Brasil popular e diverso. 

 

Em 2019, existiram pedidos de impeachment a partir das declarações do sujeito que reside na presidência, como aquele apresentado por Alexandre Molon. Neste ano, parece que não se vai quebrar a nova tradição, a partir do delírio organizado do sujeito na presidência. São vários os sujeitos que estão na fila para apresentar o pedido. Todo o arco político criticou as declarações do petit presidente,  incluído seu ex partido o PSL, que indicou que se trata de um “ataque à democracia”.

 

2020 confirmou o que todos já sabemos. Ele é isso mesmo, “é isso aí”. Algumas das frases, do presidente sem partido político, para guardar dos primeiros dias do ano, nadando num esgoto a céu aberto: “uma pessoa com HIV, além de ter um problema sério para ela, é uma despesa para todos aqui no Brasil”, declarou no início de fevereiro.  Em 18 de fevereiro, o presidente iluminado declarou: “Ela [repórter] queria um furo. Ela queria dar o furo [risos dele e dos demais]”, conseguindo insultar e assediar a todas as mulheres do Brasil numa frase só. “Com toda a certeza, o índio mudou. Está evoluindo. Cada vez mais o índio é um ser humano igual a nós”, afirmou ele, no dia 23 de janeiro. O tictac do impeachment está valendo (ou deveria estar). Desta vez, à diferença da Dilma, existem motivos jurídicos.

 

Mas focalizar em Bolsonaro é não reconhecer o esforço das outras personalidades para chamar a atenção pela ignorância, intolerância, incapacidade, xenofobia e discriminação.  Nesse sentido, Bolsonaro é apresentado por todos como o cara doido que se tem que aceitar para poder ter um “grande” ministro de economia como o Paulo Guedes, conhecido como o “Posto Ipiranga”. Resulta que o ministro Guedes tem o mesmo nível que o presidente, só um pouco mais arrumado se você o enxerga de longe. Neste sentido, o ministro é um ofensor serial da sociedade brasileira. No início de fevereiro, o “Posto Ipiranga” indicou: “O funcionalismo teve aumento de 50% acima da inflação, além de ter estabilidade na carreira e aposentadoria generosa. O hospedeiro está morrendo, o cara virou um parasita”. Uns dias depois, declarou: “Não tem negócio de câmbio a R$ 1,80. Vamos importar menos, fazer substituição de importações, turismo. (Era) todo mundo indo para a Disneylândia, empregada doméstica indo para a Disneylândia, uma festa danada”. Mas talvez a pérola deste início do ano foi a de Roberto Alvim: em vídeo, Roberto Alvim disse que a arte deve ser ‘heroica’ e ‘imperativa’, ‘ou não será nada’, assim como disse Goebbels. Para não gerar confusão, o Secretário disse que caso foi ‘coincidência retórica’. Mais uma vez, o governo exibiu o pequeno bigode que indica a verdadeira face do atual governo do Brasil.  

 

O cenário nacional está fedendo. A economia não está avançando, os embates entre as instituições estão se disseminando. Os direitos humanos, o meio ambiente, educação e a imprensa estão sob fogo pesado. É inumerável a quantidade de motivos para um impeachment. A estabilidade do governo diante de seu desarranjo político, mental e retórico indica uma profunda crise institucional, e para piorar ainda existem setores que indicam qualquer confiança ou força das instituições para barrar esse processo de degradação democrática e fechamento de regime. De um ano para cá não necessariamente podemos falar de democracia brasileira, mas sim existe um estado de direito pós golpe, arbitrário e de defesa dos privilégios. Mas o que mais fica claro é que o golpe do 2016 prefere conviver com ele que abrir mão do processo em andamento, reestruturando um Brasil trágico. Depois de um ano do governo, o nível fecal aumentou, e a sua naturalização é o nosso maior perigo. As resposta e resistência tem que vir da rua, a exemplo do que se viu na avenida na apoteose do carnaval, do parlamento e do judiciário. O relógio está andando.

 

 

Andrés del Río e André Rodrigues são doutores em ciência política pelo IESP-UERJ e professores adjuntos da UFF


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