O governo vai às ruas
Sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

O governo vai às ruas

Imagem: Agência Brasil / Fabio Rodrigues Pozzebom

 

Por Vítor Queiroz de Medeiros

 

Uma boa democracia é aquela que desenvolveu anticorpos contra o autoritarismo. No caso brasileiro temos sido postos à prova e, em partes, reagido bem: o governo foi freado em vários momentos pelo Congresso, pelo STF e pela sociedade civil organizada. Ao longo dos meses, o Executivo foi se isolando voluntariamente, buscando autossuficiência em sua base de apoio popular e nas migalhas repartidas pelo estancamento da piora econômica.

 

 

Entretanto, não desiste de espezinhar a democracia. Seu último arroubo ditatorial foi convocar uma manifestação contra os outros poderes da República, em especial o nosso querido Parlamento. O próprio Bolsonaro o fez e no submundo do What’s App o clima é de guerra. Agora o governo vai às ruas. E nós? Devemos ir? Com certeza não. O governo está levando a briga para uma arena em que crê levar vantagem: as ruas. Devemos aguardar. Afinal, medir forças com o bolsonarismo e mobilizar menos gente seria o vexame necessário para confirmar seus poderes. A menos que seus atos anti-congresso sejam pequenos e tenhamos certeza de que podemos superá-los em peso, devemos evitar a exposição das ruas. Essa é a primeira tentação a que devemos resistir.

 

Em um quadro em que “as massas” não se encontram em disponibilidade política, a oposição segue relativamente desmoralizada e o governo possui aparato mobilizatório relativamente desconhecido, o melhor caminho parece mesmo o de buscar restringir a crise política aos circuitos institucionais, onde ainda há freios disponíveis. A nossa aposta é a de que o sistema político edificado nos últimos trinta e dois anos possui seus mecanismos próprios para digerir o mal estar institucional criado e encaminhar soluções republicanas.

 

Outra tentação é a de emprestar à boca, palavras que não são nossas. Desde 1º de janeiro de 2019, vemos Bolsonaro e sua gangue brincar com as manchetes, confundir seus adversários e se valer de mentiras, desconversas e maus modos para governar. Eles adotaram a “controvérsia como dispositivo de governo”. No começo parecia trapalhão, mas na verdade era tudo combinado. Faz e desfaz e refaz. E ainda tem a guerra com a imprensa. O resultado disso é que todos os dias ficamos a discutir a falta de decoro do excelentíssimo e baixamos o nível do debate público. Passamos a discutir os seus insultos. E pela repetição nasce o cansaço: a cada dia fica mais difícil produzir o escândalo diante das suas baixarias, afinal elas se rotinizam e, o que é gravíssimo, se naturalizam. Já não chocam mais. Vez em quando algum parlamentar bem intencionado ainda convoca um daqueles ministros a dar “explicações” por alguma declaração infeliz. E assim dão palanque à incivilidade. Será que não deveríamos ignorar seu teatrinho e estabelecermos nós uma pauta de nosso interesse?

 

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Há ainda mais um trejeito do governo que é praticar uma certa “política da ausência”, pela qual ele se des-responsabiliza dos temas urgentes. É a mesma tática de não-exposição adotada no segundo turno das eleições. Agora, joga tudo nas costas do Congresso, que até esperneia, mas ao fim sempre dá o braço a torcer votando e aprovando as matérias propostas pelo Executivo. É impressionante que um Executivo que quer fechar o Congresso possua tanto sucesso em sua agenda legislativa! Isso revela que apesar das contradições e ataques, não há divergência programática essencial entre o parlamento e o executivo. E isso nos cria grande embaraço.

 

Por isso é fato que o congresso, seja por corporativismo, republicanismo, birra ou desespero, precisa endurecer. Os partidos podem acordar entre si uma agenda positiva para o Brasil que difira substancialmente dos projetos do Executivo e assim politizar em termos mais claros as suas diferenças. É preciso recuperar o poder de pauta, elevar o nível da discussão, fazer o governo “correr atrás” e lhe impor derrotas. Só sob a doma da derrota é que o governo vai mudar sua postura. Aliás, convenhamos, esse congresso mudou bastante nas últimas eleições, mas ainda é uma toca de raposas e se necessário for, uma paralisia decisória básica já serve, ou não? Onde estão aqueles que infernizaram a vida do governo Dilma? Que se “chantageie” o governo, para usar o termo do general, mas em nome de causas democráticas e mais populares. E para além disso, esse é um momento em que o Parlamento precisa também dialogar com a sociedade, ser mais sensível e mais carismático, justificar-se e reduzir o protagonismo do presidente, contrapô-lo de fato. Assim poderá evitar ceder à tentação do colaboracionismo tolo e evitar também assumir os custos da decisão política do Executivo.

 

Em suma, Bolsonaro mantém o ambiente político em alta tensão e por isso é que prospera, já que este clima o favorece. Joga em casa e tem muita posse de bola. A cada atitude que truca, fica difícil não responder e assim vai se escalando a polarização. É claro que na política não é possível reduzir a temperatura se apenas uma das partes quiser e atuar para isso, portanto não há saída, a polarização está dada e seguirá no mínimo até o fim do governo. Mas nós podemos e devemos tentar redefinir os termos dessa polarização, comprar as brigas certas, obrigar o governo a recuar, a se expor, a dialogar.

 

É difícil escolher e combinar o que fazer, mas temos um Executivo que conspira abertamente contra a República. À parte nossas diferenças ideológicas, temos o repúdio que nos une. A sociedade civil tem feito sua parte, é hora de os partidos demonstrarem maturidade e se articularem entre si para traduzir o repúdio existente em algo mais contundente do que o mero isolamento do governo. Há que se agir antes que seja tarde demais. Às vezes grandes mudanças são gestadas a conta-gotas. De pouco em pouco o atual governo já sente confortável, no início do 2º ano de mandato, a tomar tais atitudes.

 

Se as manifestações de rua convocadas por Bolsonaro forem bem sucedidas, estaremos em um mato sem cachorro.

 

 

Vítor Queiroz de Medeiros é cientista social e mestrando em sociologia (USP).


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