A invisibilidade da violência psicológica contra a mulher
Terça-feira, 3 de março de 2020

A invisibilidade da violência psicológica contra a mulher

Imagem: O Homem Invisível (2020)

 

Por Magda de Araújo Prates e Veyzon Campos Muniz

 

Quando a violência se expressa na tentativa de levar a mulher a beira da loucura, cumpre ao sistema de justiça tomar a frente a respaldar a garantia de sua sanidade, com a visibilidade de seu sofrimento psíquico, a eficiente reprovação da conduta de seu algoz e a promoção de uma profunda reflexão anti-machista.

 

 

Adaptando para o cinema o romance homônimo de H. G. Wells de 1897, “O Homem Invisível” (The Invisible Man, 2020) inova, dentre outras adapatações, ao realocar o protagonismo de sua narrativa para uma personagem feminina. Mesclando ficção científica contemporânea, terror psicológico e thriller de ação, o filme dirigido e escrito por Leigh Whannell., segue Cecilia Kass (Elisabeth Moss) que acredita estar sendo perseguida por seu ex-parceiro abusivo, Adrian Griffin (Oliver Jackson-Cohen), em que pese ele tenha sido dado como morto.

 

Com efeito, transcendendo a concepção de sua fonte, a narrativa fílmica deixa de lado a conquista da invisibilidade por Adrian para dar ênfase à repercussão dessa “habilidade” dele na história de Cecília. Ela, após quebrar o ciclo de violência em que estava inserida, passa a tentar retomar as rédeas de sua vida, com o apoio de sua irmã e de um amigo que a abriga. Cecilia, contudo, mesmo terminando a relação e deixando o ambiente doméstico, reafirma a todo momento o seu temor justificado de ser novamente exposta a presença do homem que tanto a machucou. 

 

A complexidade fenomenológica da violência contra a mulher é inteligentemente exposta, especialmente para trazer a baila, de um lado, aspectos individuais do trauma causado por um relacionamento abusivo permeado pela violência e, de outro, facetas sociais da invisibilidade da violência psicológica sofrida pela mulher. Lenore E. Walker, na obra “A Mulher Maltratada” (The Battered Woman, 1979), bem identifica a repercussão psicológica nas vítimas da violência doméstica e o caráter cíclico dos episódios violentos nas relações afetivas. A compreensão sobre a matéria, fez com que se identificasse um período inicial de crise, no qual os conflitos surgem e se intensificam, seguido de uma fase em que a tensão se torna aguda, chegando a agressões mais graves, passando para uma fase em que o arrependimento e a culpabilização podem acometer a mulher. Empiricamente, a tendência é que, após o período de eventual tranquilidade, sem a intervenção adequada, a fase inicial seja retomada – em muitos casos, em um grau maior de agressividade. 

 

Rompendo tal perspectiva cíclica, a partir da experiência de Cecilia, dá-se visibilidade à superação da mulher frente a agressões de toda sorte, na medida que se apresenta sua emancipação, sem deixar de expor todo o consequente sofrimento psíquico que ela apresenta. Todavia, é justamente, nesse contexto, que o filme se mostra um grande contributo à necessária reflexão sobre a violência de gênero: apresentam-se as incessantes tentativas do agora invisível Adrian na perpetuação do quadro de violência a que vinha expondo sua ex-companheira.

 

O homem invisível vale-se do gaslighting para atacar a higidez mental da mulher, a partir de sua manipulação psicológica que a leva a duvidar de sua sanidade e a todos ao seu redor a pensar que enlouqueceu ou é incapaz, assim como do stalking para invadir repetidamente a esfera de privacidade dela, empregando táticas de perseguição pelos mais diversos meios. A mulher aparente que é trazida a luz, forjada pela violência que sofre, demonstra, mesmo diante do contexto surreal em que se vê inserida, a luta pelo reconhecimento de sua dignidade. 

 

Leia também:

Por que só se fala de violência contra a mulher?

Por que só se fala de violência contra a mulher?

 

Com o Dia Internacional da Mulher que se aproxima, é importante rememorar o compromisso pactuado quando da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher (1994), pelo qual se fixou a adoção de medidas adequadas, administrativas, legislativas e jurisdicionais, para modificar práticas jurídicas ou consuetudinárias que respaldem a persistência e a tolerância da violência contra a mulher. Assim como reafirmar que o sistema de proteção à mulher, instituído no país, através da Lei nº 11.340/2006, estabelece que “toda mulher, independentemente de classe, raça, etnia, orientação sexual, renda, cultura, nível educacional, idade e religião, goza dos direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sendo-lhe asseguradas as oportunidades e facilidades para viver sem violência, preservar sua saúde física e mental e seu aperfeiçoamento moral, intelectual e social” (artigo 2º).

 

De outra monta, pontua-se, oportunamente, que a tutela penal das relações domésticas emerge como o último instrumento a ser utilizado como estratégia de enfrentamento à violência, especialmente por não se tratar de método preventivo às agressões perpetradas nos ambientes familiares. Afinal, sendo o enfoque do aparato penal a punição do agressor e não sua necessária educação para não-violência, de modo prático, em nada contribui para a diminuição dos já alarmantes casos de violência intrafamiliar.

 

Por conseguinte, quando a violência se expressa na tentativa de levar a mulher a beira da loucura, cumpre ao sistema de justiça tomar a frente a respaldar a garantia de sua sanidade, com a visibilidade de seu sofrimento psíquico, a eficiente reprovação da conduta de seu algoz e a promoção de uma profunda reflexão anti-machista. Fato é que, assim como Cecilia, muitas mulheres são alvos de manipulação mental e agredidas psicologicamente em relacionamentos abusivos, o que precisa ser urgentemente exposto e publicamente reprovado.

 

 

Magda de Araújo Prates é advogada e pós-Graduanda em Direito e Processo Penal.

Veyzon Campos Muniz é doutorando e mestre em Direito

 

O Justificando não cobra, cobrou, ou pretende cobrar dos seus leitores pelo acesso aos seus conteúdos, mas temos uma equipe e estrutura que precisa de recursos para se manter. Como uma forma de incentivar a produção de conteúdo crítico progressista e agradar o nosso público, nós criamos a Pandora, com cursos mensais por um preço super acessível (R$ 19,90/mês).

Assinando o plano +MaisJustificando, você tem acesso integral aos cursos Pandora e ainda incentiva a nossa redação a continuar fazendo a diferença na cobertura jornalística nacional.

[EU QUERO APOIAR +MaisJustificando]

Terça-feira, 3 de março de 2020
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend