A importância dos discursos em tempos de coronavírus e recessão econômica
Quarta-feira, 11 de março de 2020

A importância dos discursos em tempos de coronavírus e recessão econômica

Imagem: Marcos Corrêa / PR

 

Por Adriane Rampazzo

 

É possível que você esteja se perguntando: de tudo que se pode e precisa falar nesses tempos de coronavírus e de recessão econômica, o que se pretende com a análise destes dois grupos de manchetes que estamparam as capas e os portais dos mais importantes jornais do país do ano passado? Pretende-se, com urgência, falar da importância dos discursos. 

 

 

Os dois grupos de notícias acima ratificam o que a análise do discurso nos mostra: a realidade é descrita através da linguagem (WITTGENSTEIN, 1968). A linguagem é um trabalho simbólico em que a tomada da palavra é um ato social com todas as suas implicações, conflitos, reconhecimentos, relações de poder, constituição de identidade e que por isso é tratada como uma figuração lógica do mundo que tende a traçar um paralelo com a realidade. 

 

As figurações que compõe a linguagem podem ser corretas ou incorretas, verdadeiras ou falsas, para o que devemos compará-las com a realidade. Contudo, mesmo que sejam falsas ou incorretas, estas figurações têm o poder de construir uma narrativa, uma leitura do mundo que passará a fazer parte do imaginário coletivo da sociedade.

 

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De acordo com Foucault (1970), a definição de verdade está ligada aos sistemas de poder, de modo que é possível dizer que existe uma relação entre verdade e poder e que todos os discursos podem ser vistos funcionando como regimes de verdade. Segundo o autor, cada sociedade tem seu regime de verdade, sua política geral de verdade, isto é, os tipos de discurso que aceita e faz funcionar como verdadeiros. Contudo, mais importante que o conteúdo dos discursos é o papel que eles desempenham na ordenação do mundo, uma vez que o discurso dominante tem o poder de determinar o que é aceito ou não numa sociedade, independentemente do que diz e ou legitima. 

 

No Brasil, ao longo deste ano, não foi nada difícil perceber como o discurso dominante não está comprometido com uma verdade absoluta ou universal e, pelo contrário, como é ele que produz a verdade, que legitima certo campo de enunciados e marginaliza outros.  Desta forma, importa apenas o que o discurso dominante estabelece como verdade em favor de sua manutenção, constrangendo os demais a se restringirem à verdade que ele estabelece, a levar em consideração apenas seu posicionamento.  

 

Os discursos têm um papel fundamental na manutenção ou transformação das sociedades, que nada mais são do que o produto das interações entre seus membros. Interações essas que são moldadas de acordo com a forma como seus membros agem uns em relação aos outros e com a influência que a linguagem exerce na atribuição de significados aos indivíduos ou aos grupos. A partir disso, as sociedades passam a classificar seus membros em, pelo menos, duas categorias: aqueles considerados mais valorosos e aqueles que estarão marcados por um baixo valor social. Em um ponto mais extremo, esse processo acaba por criar o estigma social que atribuirá a determinados grupos um conjunto de características que, por não serem aceitas pela comunidade com a qual convivem, acabará por aumentar sua vulnerabilidade (GOFFMAN, 1963) e a consequente dificuldade de acesso ao emprego, aos serviços básicos e a exposição violência (que, no mais das vezes, é estatal).

 

Dado que a realidade é descrita através dos discursos e que a linguagem tem o poder de construir as narrativas que fazem parte do imaginário coletivo da sociedade, é imperativo perceber os efeitos danosos das manifestações do presidente e de pessoas próximas a ele aos grupos sociais desempoderados. Ao longo de 2019, o discurso dominante criou uma atmosfera de ódio que nega tratamento igualitário entre todos os membros da sociedade, o que representa uma ameaça não só à dignidade dos alvos desse tipo de discurso mas também à democracia. Ameaça que se agrava desde os primeiros dias de 2020.

 

 

Adriane Rampazzo é Mestranda em Direito e Ciência Jurídica na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Especialista em Ciências Jurídico-Criminais pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Bacharela em Direito pela Fundação Escola Superior do Ministério Público do Rio Grande do Sul. Professora universitária.


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Quarta-feira, 11 de março de 2020
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