Epidemias pelas lentes de García Márquez, Saramago e Camus
Quinta-feira, 19 de março de 2020

Epidemias pelas lentes de García Márquez, Saramago e Camus

Imagem: Filme Ensaio Sobre a Cegueira (2008) / Divulgação

 

Por André Balbo

 

O contexto em que escrevo é evidente: a pandemia global da COVID-19, declarada pela Organização Mundial da Saúde. Não há exagero em afirmar que o caso brasileiro já nasce transtornado; não é habitual que, diante dos alertas das comunidades médica e científica sobre aglomerações, um presidente convoque seguidores para uma manifestação contra o Congresso Nacional e o STF – isto não espanta – e toque nas mãos de manifestantes instigados, reiterando que o coronavírus não passa de “histeria”, assim alimentando de negacionismo um frenesi coletivo a que não se pode denominar farsesco porque carente de qualquer graça.

 

 

Antes o problema fosse avaliar o porte absurdo da presidência, mas infelizmente não se trata de um comportamento isolado. Longe disso, diante das primeiras recomendações de quarentena, foi possível identificar semelhante desmazelo mesmo entre aqueles que cotidianamente maldizem os abusos da família que se assenhorou do país. Paradoxos desse tipo levam ao famoso “tilt”, afinal como é possível que pessoas ditas sensatas, em princípio defensoras da sociedade, arremedem a postura daqueles que, sem medo ou socapa, vivem a vida pública apenas para satisfazer os próprios interesses?

 

Provocado por esse “palco de loucos” de que falava Shakespeare, durante a recém-iniciada quarentena estive às voltas com um bocado de divagações literárias em torno do tema epidemia, e gostaria de compartilhá-las. Penso que dividir livros e leituras, nesse momento, é uma maneira de sermos mais do que um aglomerado de isolamentos, atribuindo sentido político e comunitário à nossa apartação transitória. Isso porque acredito que a literatura é uma das lentes possíveis para enxergar melhor o mundo e a nós mesmos, nos provendo de infindas perspectivas: de consciência, de imaginação, de crítica e, por que não, de acolhimento, tão importante em tempos de recato.

 

Falo em “divagações” e em “compartilhá-las” por um dever de honestidade; não há, aqui, qualquer pretensão teórica ou analítica, tampouco preocupação em recorrer a um suposto refinamento filosófico que, sob o pretexto de intelectualizar o debate, no final do dia se esquece de tomar uma posição explícita diante do inimigo – sim, essa é a palavra mais precisa, e a que mais precisa ser dita, parafraseando um poema de Tarso de Melo. Jogo cantado, bloco na rua, vamos à literatura.

 

Epidemias são um tema recorrente na literatura mundial, surgindo muitas vezes como questão medular do enredo, outras tantas apenas como pano de fundo ou desempenhando função específica. Na mais das vezes, as epidemias nunca são um tema em si mesmo, senão uma alegoria que serve de catarse para uma série de questões de ordem moral, política, espiritual, metafísica, ambiental etc.

 

A peste (1947), de Albert Camus, é talvez a referência mais imediata no imaginário cultural-literário. No livro, Oran é uma cidade costeira da Argélia que tem sua tranquilidade interrompida por uma invasão de ratos doentes e atordoados. Depois que os primeiros moradores passam a manifestar sintomas, a doença é identificada como uma peste, o que, no entanto, não faz com que os cidadãos encarem o fato com seriedade. Não demora para que o terror, o isolamento e a violência redesenhem a vida em Oran.

 

A história acompanha o Dr. Bernard Rieux, um médico cuja rotina varia entre visitar doentes, atender emergências e trabalhar no desenvolvimento de um soro a partir de material precário, enfrentando diversas dificuldades para cumprir até as medidas sanitárias mais básicas – a escassez de produtos alimentícios e farmacêuticos é outro dos tantos fatos “previstos” por Camus.

 

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Uma das leituras mais consagradas do romance vê na peste uma alegoria para representar os horrores do período de ocupação nazista durante a Segunda Guerra. Além dessa interpretação, ou, melhor dizendo, encorpando-a, podemos ainda vislumbrar a peste como uma representação para o problema existencial fundante, preocupação constante na obra de Camus: a condição humana. A história, em diversos níveis, desvela que o sofrimento e o terror humanos não são individuais, mas experiências compartilhadas.

 

“Já não havia então destinos individuais, mas uma história coletiva que era a peste e sentimentos compartilhados por todos.”

 

Tal entendimento da condição humana, todavia, em nenhum momento permite inferir coisas como “o coronavírus não tem ideologia” – frase que perigosamente vem se repetindo, como se dotada de alguma reflexão comunitária profunda. O que esse mandamento adornado por uma linguagem “coach” desconsidera é que água, sabão, álcool em gel, emprego regular, emprego (!), quartos suficientes, casa (!), ou seja, todos os recursos e estrutura fundamentais para se proteger de uma epidemia não estão – nunca estiveram – à disposição de todos.

 

Enquanto isso, Paulo Guedes afirma que se as pessoas ficarem em casa o país entrará em colapso. Enfurecemo-nos diante de tamanha psicopatia, com razão, mas que alternativa terá o trabalhador pobre que ainda não teve ao dicionário de sua existência incorporada a expressão “home office”? Portanto, o problema da ideia de que “o coronavírus não diferencia cor e classe” é que ela esconde – ingênua ou intencionalmente – o componente político das epidemias. A não ser que se diga que a frase é literal, e que o vírus de fato não diferencia corpos no momento do contágio. Neste caso, a frase é tão expressiva e pertinente quando dizer que o coronavírus não torce para o Botafogo nem assiste ao Big Brother. Mas fiquemos com A peste:

 

“Havia, no entanto, outros motivos de inquietação em consequência das dificuldades de abastecimento, que cresciam com o tempo. A especulação interviera e oferecia, a preços fabulosos, os gêneros de primeira necessidade que faltavam no mercado habitual. As famílias pobres viam-se, assim, numa situação muito difícil, enquanto às ricas não faltava praticamente nada.”

 

Ao evidenciar uma série de ações, dos poderes público e privado, idênticas a de tempos não-epidêmicos, o romance permite entender que não é somente no limite que a nossa condição humana é provada; é de todos os momentos a responsabilidade em relação às pessoas à nossa volta, em casa, no trabalho, na cidade. A cegueira ideológica – no sentido do ocultamento do componente político que marca a vida em sociedade – de uns sobre seu próprio individualismo inviabiliza a composição de um autêntico sentimento comunitário.

 

Em boa medida, é o que parece ilustrar o caso da Itália. Os vídeos de italianos saindo às varandas para almoçar na mesma hora, e desafiando o silêncio com músicas populares, trechos de óperas ou o próprio hino nacional à capela, de fato são emocionantes, mas não deixo de lamentar – inclusive como filho de mãe italiana – que “tivesse” de acontecer uma desgraça para que se dessem conta de seu estado de solidão permanente, consequência de um individualismo cotidiano que fez os cidadãos se esquecerem de que, ao menos nas palavras de Goffredo Mameli, são “fratelli d’Italia”. A possibilidade de que o caos ali assentado se repita no Brasil é assustadora. Com o perdão da platitude.

 

E por ter falado em cegueira: não, não falarei de Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, ainda que seja outro romance excepcional sobre epidemia, mas porque quero destacar outro título seu, menos popular entre nós, não por esse motivo de menor envergadura. Falo de As intermitências da morte, publicado em 2005, cinco anos antes da morte do autor.

 

O vencedor do Nobel precisou de exatas cinco palavras (a primeira frase do texto) para subverter por completo qualquer expectativa e erguer um cenário assombroso que, mesmo depois de 15 anos, ainda perturba os leitores e escritores mais profícuos: No dia seguinte ninguém morreu. Aquilo que, num primeiro momento, poderia badalar como salvação para todos os problemas humanos, logo se estampa como uma inusitada paródia do inferno.

 

A greve da morte assoma, no romance, como uma epidemia dos problemas da vida. Não se trata de tosco jogo de palavras; o que Saramago concebe é bem isso: um caos existencial de proporções epidêmicas, desafiando as autoridades de um país hipotético, mais do que a entender o fato, a administrar as sucessivas crises dele decorrentes. Afinal, tinham de lidar, entre outras emergências, com os protestos de agentes funerários furiosos, o colapso do sistema de “lares do feliz ocaso” (asilos) e o declínio da igreja, que, em seu projeto de dominação de corpos, tinha como único coringa a morte, ou a promessa de vida após ela.

 

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“O pior é que o futuro é já hoje, disse um dos pessimistas, temos aqui, entre outros, os memorandos elaborados pelos chamados lares do feliz ocaso, pelos hospitais, pelas agências funerárias, pelas companhias de seguros, e, salvo o caso destas, que sempre hão-de encontrar maneira de tirar proveito de qualquer situação.”

 

Na primeira vez que li o livro, há uns quatro anos, me diverti com o comentário sobre as companhias de seguros; mais uma amostra do humor ácido de Saramago, devo ter pensado. No futuro que é já hoje dou-me conta: não é engraçado. É desesperador, porque é verdade, e Camus também havia percebido: há sempre alguém tirando proveito. Esse componente político fica claro no romance, por exemplo, quando o primeiro-ministro é entrevistado por jornalistas:

 

“Se bem entendi o que acabo de escutar, observou um jornalista em tom que não queria parecer demasiado irónico, na opinião do senhor ministro não é alarmante o facto de ninguém estar a morrer, Exacto, embora por outras palavras, foi isso mesmo o que eu disse, Senhor ministro, permita-me que lhe recorde que ainda ontem havia pessoas que morriam e a ninguém lhe passaria pela cabeça que isso fosse alarmante, É natural, o costume é morrer, e morrer só se torna alarmante quando as mortes se multiplicam, uma guerra, uma epidemia, por exemplo, Isto é, quando saem da rotina, (…)”

 

Cometo o despautério de outorgar palavras a um morto e afirmo que, se aqui estivesse, Saramago nos diria para que não deixássemos que a proximidade da morte se devorasse a si mesma, e que, depois do isolamento, pensássemos com muita cautela antes de voltar a glorificar nossa confortável rotina, esquecendo-nos do debate político deflagrado pela epidemia. Nesse ponto parecem concordar os grandes escritores: o esquecimento é talvez a pior das pestes.

 

Ao menos concordava Gabriel García Márquez. De Cem anos de solidão (1967), comumente referido como “a grande metáfora da América Latina”, estão acesas no imaginário dos leitores as repetidas guerras, revoltas, desastres, mortes e outras tragédias que acompanham, ao longo de um século, a história de Macondo, o povoado fundado por José Arcadio Buendía e Úrsula Iguarán.

 

Entre os inúmeros absurdos, como uma temporada de quatro anos de chuvas perenes, é especialmente aterrorizante o célebre episódio da epidemia de insônia. O mais temível dessa estranha doença que assolava os moradores, contava-se, não era a impossibilidade de dormir, uma vez que o corpo não sentia cansaço, mas a evolução do quadro para um ápice crítico: o esquecimento.

 

“(…) quando o doente se acostumava ao seu estado de vigília, começavam a apagar-se da sua memória as lembranças da infância, em seguida o nome e a noção das coisas, e por último a identidade das pessoas e ainda a consciência do próprio ser, até se afundar numa espécie de idiotice sem passado.”

 

Como em A peste, no romance de Gabo o casal fundador não se alarma diante do fato, até que, dias depois, quando se deitam para dormir, não sentem nenhum sono, percebendo que estavam há mais de cinquenta horas acordados. Acometidos pelo mal, em vez de dormir passavam o dia inteiro sonhando acordados, num estado de “alucinada lucidez” que os fazia não apenas ver as imagens dos próprios sonhos, mas as imagens sonhadas pelos outros doentes. A quarentena, tardia, acaba por não ser suficiente:

 

“(…) chegou o dia em que a situação de emergência passou a ser encarada como coisa natural e se organizou a vida de tal maneira que o trabalho retomou o seu ritmo e ninguém voltou a se preocupar com o inútil costume de dormir.”

 

Ao cabo, haviam se esquecido. Justamente o erro que não podemos repetir. Se os vírus não nos diferenciam, reflitamos que a nossa história, como a literatura, também foi capaz de previsões e hoje não há organismo acelular que pise em nossa terra sem antes passar pelo crivo das nossas condenações políticas e sociais.

 

Reconhecer nossos impasses históricos, contudo, nunca será desculpa para inércia. Há vidas em jogo e nenhuma estatística vendida por gestores eficientes compensará aquelas que se perderem. Cuidar das pessoas mais vulneráveis é uma obrigação a ser tomada como promessa, enquanto ainda estamos sóbrios. De promessas feitas no calor do momento, juramos no fim de 2018 que não daríamos tempo fácil a esses que hoje nadam de braçada. É preciso nos levarmos a sério, do contrário só restará mesmo afundar numa espécie de idiotice sem passado.

 

 

André Balbo é escritor, professor e editor-fundador da revista Lavoura. Foi aluno da Faculdade de Direito da USP.


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Referências:

CAMUS, Albert. A peste. Trad. Valerie Rumjanek. 2ª edição. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.

MÁRQUEZ, Gabriel García. Cem anos de solidão. Trad. Eliane Zagury. 57ª edição. Rio de Janeiro: Record, 2005.

SARAMAGO, José. As intermitências da morte. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

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