8 pontos “positivos” do coronavírus no Brasil
Sexta-feira, 27 de março de 2020

8 pontos “positivos” do coronavírus no Brasil

Imagem: Rovena Rosa / Agência Brasil

 

Por Luciano Freitas Filho

 

Em quarentena, reflito sobre como o coronavírus se revela enquanto um significante potente para repensarmos os sentidos de sociedade, de humanidade e de afetos, sobretudo, no Brasil. Em meio ao contingencial e ao provisório, nos é permitido problematizar sobre quão producentes e propulsores de (des) estabilizações são os discursos relacionados ao vírus. 

 

 

Opero com a ideia de que, embora estejamos imersos em um cenário caótico de pandemia, em meio a milhares de mortes e de possibilidades de um colapso econômico de grandeza mundial, existem questões que nos permitem um olhar menos pessimista acerca do que vivenciamos/vivenciaremos durante esse isolamento ou confinamento impulsionado pela COVID-19. Esta é uma problematização concernente a 08 pontos que nos levam a pensar potencialidades do ser e estar no Brasil em tempos de pandemia e em face de discursos ultraconservadores. Permitam-me listar os referidos pontos:

 

1)Reafirmação do Sistema único de Saúde/SUS– mesmo com toda crítica que tenhamos acerca do SUS e de suas falhas, sua superlotação, precariedade da estrutura para o serviço prestado pelos profissionais da área, bem como a falta de equipamentos ou medicamentos,  não podemos deixar de considerar como é importante a existência de nosso sistema de saúde diante dessa e de outras epidemias . O que seria do povo brasileiro, em especial da camada majoritária da população, sem a coberta do Sistema Único?

 

2) Desestabilização do discurso do ‘Estado-mínimo’ –  Embora de forma conveniente e provisória, os liberais defensores do ‘Estado-mínimo’ têm reconhecido a importância de uma política com o ‘Estado forte’. Atualmente na Europa, por exemplo, cogita-se uma política de reestatização de serviços básicos na contramão da crise econômica a ser/já provocada pela pandemia ( vale salientar que esse debate de reestatização já vinha sendo pautado há algum tempo) . 

 

3) Desestabilização do discurso antivacina – Imersos em um contexto de diversas medidas profiláticas a serem tomadas contra a COVID19, as pessoas torcem para que cientistas desenvolvam, com brevidade, uma vacina que as imunize no tocante ao coronavírus. Esse é um movimento antagônico ao repertório discursivo de grupos emergentes diversos que defendem a não vacinação de crianças e jovens. 

 

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4) Desestabilização do discurso em prol da Educação doméstica/homeschooling Não nos é espantoso ouvir relatos e/ou testemunhos de pais e mães relatando desgaste com tão poucos dias de confinamento e acompanhamento dos filhos em casa, sobretudo no que diz respeito ao acompanhamento de estudos daqueles estudantes que a escola tem disponibilizado materiais didáticos de forma virtual ou a distância. Eis um momento de se reconhecer o trabalho dedicado e árduo de diversos professores brasileiros.

 

5) Desestabilização dos discursos pró-desescolarização – O confinamento social reforça quão importante é a escola para o processo de ensino-aprendizagem, reiterando-a enquanto lócus principal da educação básica.

 

6) Desestabilização do discurso de pós-verdade – A sociedade brasileira, hoje, se depara com a necessidade de recorrer aos cientistas e às universidades para se informar e se munir de meios para prevenção e tratamento para a Covid-19. Fake news, coaching, youtubers ou especialistas de whatsapp são irrelevantes frente aos conhecimentos científicos. O anticientificismo ‘caindo por terra’. 

 

7) A valorização da imprensa como fonte de informação – Reforço às mídias que se utilizam de fontes seguras e não de fake News ou informações duvidosas.

 

8) A reflexão sobre relações humanas, sobre afeto e sociedade em tempos líquidos de novas tecnologias – Recentemente, quantos dos confinados ou em quarentena anseiam pela chegada do momento em que poderão abraçar e beijar entes e amigos próximos? Temos escutado relatos de internautas afirmando como têm refletido sobre a importância de uma coletividade e do saber viver em coletivo de forma ética e sem egoísmos (vide a maneira como alguns têm agido recentemente quando pensamos no consumo em supermercados e farmácias).  Mesmo fazendo um uso mais frequente das ‘lives’, redes sociais e aplicativos nessa quarentena, as pessoas em confinamento estão repensando o sentido de sociedade.

 

Que essa fase de confinamentos e caos social, instaurada pela pandemia do coronavírus, nos permita repensar o bem-estar social como fundante para a qualidade de vida e para o desenvolvimento econômico de um país. Repensemo-nos enquanto humanos, a quem afetamos, a quem nos afeta e como podemos viver em coletividade.

 

 

Luciano Freitas Filho é Doutorando em Educação pela UFRJ. Professor do Instituto Federal da Bahia/IFBA. Membro da Comissão Dom Helder Câmara da Universidade Federal de Pernambuco. 


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