Um último golpe na política econômica de Guedes
Sexta-feira, 27 de março de 2020

Um último golpe na política econômica de Guedes

Imagem: Carolina Antunes / PR

 

Por Gabriel Teixeira Soares das Neves

 

Representando a tendência dos cursos de graduação em Economia, ao tentar traduzir o conjunto de expectativas e percepções sociais através de equações e análises estatísticas sobre o preço das coisas, Guedes encara um fato dado: economia é uma ciência humana.

 

 

O que é uma ciência natural? Grosso modo: o corpo de estudos que possui relativa capacidade preditiva sobre a realidade. Como identificamos uma ciência natural? Identificando a possibilidade de submetê-la ao método científico: um conjunto de procedimentos que testa a supracitada capacidade. A tentativa de se enfatizar, nos cursos superiores, o estudo das ciências econômicas através de um panorama matemático, esconde o desejo de lhes conferir poder de previsão. Desse modo, seria supostamente possível incluí-las no quadro das ciências naturais, como a física.

 

O Estado surge da necessidade dos homens, diz Platão. Surge do fato do tecelão precisar de um médico, do médico precisar de um sapateiro, do sapateiro precisar de alimentos, e assim por diante. Ao querer reduzir, tanto quanto possível, o Estado dentro da sociedade, o ministro e seus apoiadores expressam a sanha de fazer coincidir a necessidade humana e  a própria economia com o mercado, reduzindo-as ao “mercado”, resultado inequívoco das trocas tendo vistas às próprias trocas. É ao usar esse discurso que ensejam a possibilidade de estudá-los (tanto a condição humana, como a economia) através de um arcabouço teórico de capacidade preditiva.

 

Uma vez que o mercado é resultado de interações humanas, ele não existe na natureza selvagem. É produto da cultura e, por essa razão, depende inexoravelmente dos homens, suas emoções, percepções e expectativas, configurando-se como um objeto de estudo de caráter subjetivo por excelência. Inscreve-se, sempre, no campo das ciências humanas, de poder analítico formidável, mas preditivo limitado. O que isso quer dizer? Que a relação dos ajustes paramétricos em uma economia estudada como ciência natural nem sempre (ou quase nunca, ou nunca) fornece, por si só, os resultados esperados. Aumentar uma taxa aqui, nem sempre melhora uma outra taxa lá, não existe relação causa-efeito óbvia. Diferentemente das ciências naturais, não é possível isolar condições e variáveis em experimentos, além de envolver expectativas e percepções subjetivas intangíveis.

 

Desde a subida de Paulo Guedes ao poder, temos bons exemplos disso. Podemos citar o panorama geral: nenhuma das previsões iniciais de agentes do “mercado” se concretizaram. As desculpas? O presidente, a oposição, a mídia, as eternas (e cada vez mais longínquas) administrações anteriores. Em suma, o fato de existir um mundo humano, impossível de ser traduzido em números, alheio aos ajustes paramétricos da economia. Pontualmente, temos o exemplo da morte generalizada de porcos na China, o que imprevisivelmente aumentou, do dia para a noite, o preço da carne para o mercado consumidor brasileiro.

 

Mais um exemplo? A desvalorização da moeda, interpretada como intencional por autoridades americanas, que gerou o anúncio, mesmo que inócuo, de embargo comercial por parte dos EUA em relação ao alumínio e outros produtos brasileiros.

 

Terceiro e fatal exemplo: uma pandemia de alcance sem precedentes obriga a todos uma quarentena sem prazo para findar-se. Mesmo economias com forte proteção social ficam vulneráveis e não há interpretação, perversa ou maravilhosa que seja, de “mercado” imaginável capaz de gerar estratégias para amenizar a situação. Bolsas em pane por todo mundo. Como única saída, o consenso de intervenção estatal.

 

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É necessário, ao fim da exposição desses acontecimentos, esclarecer alguns pontos. Em todos os casos, houve resposta, seja por parte do “mercado” ou do Estado. No primeiro caso, a elite financeira garantiu seus lucros e prejudicada foi apenas a população, a sociedade brasileira. No segundo, houve reafirmação da submissão do estado brasileiro ao norte-americano. Mais uma vez, sinal positivo de confiança para o “mercado”. No terceiro, o fatal para o “mercado”, não há ainda saída além do comprometimento com o coletivo, com a sociedade e, afinal, com o futuro da humanidade.

 

Prosseguindo na análise do terceiro exemplo, algo mais contundente é revelado. O fato da economia ser inevitavelmente uma ciência humana a impõe, não só a inalienável influência humana, embarcando todas suas expectativas e necessidades, como também o fato de ser, em larga medida, alheia ao mundo natural. Em suma, a economia não é uma ciência natural por simplesmente o fator humano ser, ainda, imprevisível, mas, também, por não levar em consideração o mundo natural que impõe-se, implacável, a tudo e todos. Este mundo, que é o real, que limita o estudo até mesmo das ciências naturais à simplificações e limitações extensas, o que faz cientistas serem desconfiados em relação aos seus próprios modelos, deveria gerar muito mais ceticismo em relação aos modelos consultados pelo ministro, que apresenta reformas e medidas que afetam toda a nação.

 

Isso mostra que reduzir o Estado ao “mercado” não acaba com o Estado, que é a simples consequência de uma vida em sociedade organizada, mas apenas distorce suas formas. Isto é, decisões a nível de nação ainda são tomadas. No quadro geral, é claro que a população possui demandas emergentes, de sobrevivência e qualidades mínimas de vida. Por outro lado, a elite econômica não possui demandas urgentes, mas gera demandas e expectativas (através do marketing, e, mais geralmente, desse domínio ideológico da economia). Ao retirar o interesse público e social do estudo da economia, ao supor que estes coincidem com o mercado, resume-se ela aos interesses privados dos agentes que formam a elite econômica, que geram demandas ideológicas. Só assim o aumento do preço da carne, ou a loucura que tem sido a cotação da bolsa de valores a partir do início do ano passado, e seu desgarramento da realidade social, podem ser vistos como naturais ou benéficos.

 

Um exemplo dessa deformação: a alta do dólar foi elogiada pelo ministro da economia como algo bom para nossa economia interna. O interessante dessa afirmação é que a alta do dólar é bom para a economia interna na mesma medida em que são as ações protecionistas dos governos passados. Mas é pior, pois irracional, enquanto que as medidas protecionistas são ajustáveis e estratégicas. Mais: o dólar alto, ao dificultar as importações, favorece o mercado interno por ocasião da indústria interna ser produtiva e possuir capacidade para atender a essas demandas. Ao levar em conta esses fatores, torna-se óbvio que a posição do ministro só faz sentido dentro de um aparelho ideológico que tenta excluir o fator humano e o contexto histórico-social de suas equações.

 

A conclusão, é que esse tipo de estudo da economia não possui um objeto de estudo como a gravidade, ou a rotação da Terra, alheios à nossa vontade, o são. Fenômenos que, mesmo que estudados através de vieses ideológicos, se configuram, pelo menos, como objetos de estudo mais ou menos objetivos e previsíveis. Além disso, como qualquer estudo sociológico, é necessariamente ideológico. Isso, em contraposição ao caráter anti-ideológico que a equipe econômica do governo prega. Já que a economia e o “mercado” surgem do homem, estes são o que o homem, em sua decisão coletiva (ou, na verdade, decisão alienada), quer que sejam.  Assim, o caráter ideológico das ciências econômicos não se limita às suas conclusões, mas já começam (façamos justiça, nesse ponto todas as ciências são ideológicas) com a decisão da abordagem que será adotada, seja ela Marxista, seja Keynesiana, seja monetarista. E essa decisão, por ser ideológica, muda o significado do mundo e seus signos.

 

A economia surge do homem: o fator humano não só a influencia, mas a determina, gera e dá suas formas e regras, inelutavelmente. Previsões que surgem de ajustes econômicos frios erram e vão continuar errando, inferem sobre conceitos subjetivos e imprevisíveis, através de análises ideológicas. São alheias às mudanças do mundo natural, que sempre se impõem, sempre acontecem, e da imprevisibilidade da ação humana. Não podemos esquecer que as maiores lições econômicas do século XX foram os planos Roosevelt e Marshall, nem deixar que nossas autoridades, irresponsáveis, esqueçam disso. Para evitar uma catástrofe ainda maior, precisamos admitir isso o quanto antes, e adotar medidas fortes, amplas e racionais através do Estado de caráter social: medidas de diversas naturezas são e serão necessárias diariamente. Alguma coisa inesperada sempre vai acontecer.

 

 

Gabriel Teixeira Soares das Neves é Mestre em Matemática pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Doutor em Modelagem Computacional pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Professor e pesquisador no Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia Fluminense.


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