A frustração do homem branco ocidental em tempos de pandemia
Quinta-feira, 2 de abril de 2020

A frustração do homem branco ocidental em tempos de pandemia

Imagem: José Cruz / Agência Brasil – Edição: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Maiara de Proença Bernardino

 

De Bolsonaro a Donald Trump, ambos desejam retomar globalmente o poder do homem branco ocidental cristão.  

 

 

Ao longo da história humana o homem branco ocidental buscava se colocar no centro de todos os debates. Os lugares das mulheres, LGBT’s, negros e pobres eram bem demarcados por essa elite da branquitude ocidental, excluindo-lhes dos espaços de poder em todas as esferas, políticas, administrativas, acadêmicas, cientificas e públicas. 

 

Nos últimos anos desde 2000, aqueles que eram excluídos por esse padrão único de conhecimento, começam a ganhar um maior destaque no âmbito da produção do conhecimento e disseminação de ideias. O mundo abre espaço e começa a ouvir mais intensamente mulheres, negros e negras, populações LGBT’s e pobres. 

 

Os pensadores (as) antes excluídos ocupam espaços antes reservados a parcela branca ocidental de uma única matriz religiosa e de pensamento, a cristã. Os espaços de privilégio coexistem de forma mutua e conflituosa com os espaços dos não privilegiados, ambos dividem o mesmo espaço em conflitos.

 

O homem branco ocidental “pré-vê” a sua ameaça, ele se sente encurralado pois está perdendo uma porcentagem do seu espaço para o Outro, aquele que é diferente dele, os negros e negras, as mulheres e os LGBT’s, a população pobre. A democracia se fortalecia, pois haviam-se criado políticas de proteções a essas populações antes excluídas.

 

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Mas branquitude ocidental ameaçada a perder seu lugar constituído historicamente, deseja restaurá-lo tal como era na Idade Média, ou na antiga Grécia, onde escravos e mulheres não podiam participar da democracia branca. Iniciam-se as perseguições, as inquisições, e aqueles não correspondentes a essa hegemonia branca do poder ocidental tem a sua existência ameaçada. 

 

Mulheres são destituídas dos cargos da presidência, Macri assume a presidência no lugar de  Cristina Kirchnner em 2015, Donald Trump vence a chapa democrática de Hillary Clinton e o golpe de estado vence a democracia de Dilma Roulsseff em 2016, Temer assume o cargo. Em 2018 no Brasil, Jair, o messias branco conservador é eleito para restaurar a ordem de uma sociedade onde “está tudo do avesso”. Os negros, LGBT’s e pobres sofrem uma grande perda, Marielle Franco é assassinada por milicianos bolsonaristas no “mês da mulher” em 18 de março de 2018. 

 

O homem branco ocidental cristão aos poucos deu início ao seu projeto de eliminação das diferenças. Agora em meio a pandemia do coronavírus, eles reafirmam o seu poder e superioridade sobre as camadas excluídas, pois o mundo está “desordenado, precisamos de alguma ordem”. Eles desejam a restituição do poder branco, heterossexual e cristão de uma forma rápida, pois a economia não pode parar em detrimento da saúde daqueles que não possuem poder aquisitivo.

 

Eles suscitam a volta da normalidade, não aquela volta dos fluxos dos automóveis, objetos e pessoas antes da pandemia, mas a volta do estado de normalidade conservador. A frustração do discurso bolsonarista ressuscita a volta do poder da branquitude conservadora, pois este está angustiado em perder seu espaço para os negros, LGBT’s, mulheres e pobres.

É só uma gripezinha” e a normalidade do mundo deve retornar à sua estrutura arcaica patriarcal. O desejo do frustrado homem branco de restituir seu poder, não pode ser deixado em segundo plano por uma pandemia global que apenas é grave para uma parcela da população. Como disse Frantz Fanon há uma “procura pela brancura”, a fim de restabelecer a antiga ordem do mundo, onde o homem branco se colocava ao centro do debate em relação aqueles que não fazem parte deste padrão normativo.

 

 

Maiara de Proença Bernardino é graduanda em Geografia pela Universidade Federal de São Carlos. É atualmente bolsista pelo Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq) através do PBIC da UFSCar. Atuando como pesquisadora na área de Geografia Humana e Geografia Urbana.


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