A pseudofragilidade que ameaça a classe burguesa
Sexta-feira, 3 de abril de 2020

A pseudofragilidade que ameaça a classe burguesa

Imagem: Justificando

 

Por Gabriel Brito Rosado

 

Recentemente alguns empresários se posicionaram frente a crise do coronavírus. Roberto Justus, Junior Durski, Luciano Hang e Alexandre Guerra opinaram sobre como lidar com a crise financeira, suas possíveis consequências e como tratá-la.

 

 

Com o aumento do número de casos do COVID-19 no Brasil, têm aumentado as tensões políticas e sociais agravadas pela falta de um posicionamento concreto e direto na contenção do avanço do COVID-19 por parte do Governo Federal. Nesses posicionamentos do presidente ou de parte desta elite caricata são perceptíveis alguns argumentos em comum, transmitindo até a sensação de se tratar de um mesmo discurso. Que discurso é esse e qual classe ele representa? O que podemos aprender, nesse momento, com Marx?

 

O empresário Luciano Hang, em uma transmissão realizada no seu facebook na quinta-feira dia 19 de março, disse, em tom de ameaça, que para ele seria muito simples fechar as suas lojas e demitir os seus 22 mil funcionários, pagar a todos, funcionários e fornecedores, e ainda ter dinheiro de sobra para ir à praia. Ainda reforçou seu discurso dizendo que para aqueles que perdessem seus empregos levaria anos para conseguir um novo emprego. 

 

O empresário Alexandre Guerra, compactuando com as ideias supracitadas, demonstrou semelhante “preocupação” com a fragilidade dos empregos da classe e afirmou, também em tom de ameaça, que os trabalhadores deveriam estar mais preocupados com os seus empregos do que com o risco da contaminação pelo COVID-19.

 

Enquanto Luciano Hang e Alexandre Guerra usavam seus privilégios de classe para ameaçar a classe trabalhadora, Junior Durski e Roberto Justus, em uníssono, “alertavam” a sociedade brasileira sobre o que é importante nesse momento: preservar o capital; o que significa manter seus ativos em troca da vida de algumas dezenas de milhares de pessoas.

 

Ao ouvir tanto os posicionamentos do Presidente quanto dos empresários há uma clara semelhança nos discursos, seja pela argumentação que fazem contra as medidas de distanciamento social para contenção do COVID-19, seja pelos riscos econômicos e preocupações econômicas apontadas.

 

Esse tipo de discurso muito tem a nos dizer sobre a origem da riqueza da classe burguesa e as vulnerabilidades e fragilidades sociais as quais a classe trabalhadora está exposta.

 

De acordo com Marx e Engels (2001):

“Na mesma medida em que a burguesia, i.e , o capital se desenvolve, nessa mesma medida desenvolve-se o proletariado, a classe dos operários modernos, os quais só vivem enquanto encontram trabalho e só encontram trabalho enquanto o seu trabalho aumenta o capital. Estes operários, que têm de se vender à peça, são uma mercadoria como qualquer outro artigo de comércio, e estão, por isso, igualmente expostos a todas as vicissitudes da concorrência, a todas as oscilações do mercado.”

 

Vicissitudes que não se limitam as implicações econômico-políticas da condição da classe trabalhadora, mas incidem também sobre as implicações diretas e sociais das fragilidades dos vínculos empregatícios, dependência do trabalho como meio de subsistência, e vulnerabilidades estruturais que vão desde a falta de saneamento básico a precarização do sistema público de saúde, resultados da exploração da classe trabalhadora pela burguesia, expressões da questão social. 

 

Lucro x vida

Ameaçados diretamente pelo risco de contágio, a classe trabalhadora mobiliza-se por suas vidas. Tendo seu lucro ameaçado pelo lockdown,  a classe burguesa ameaça a classe trabalhadora quanto a garantia dos seus empregos. Enquanto a classe trabalhadora necessita, por parte do Estado, de garantias para manutenção de seus empregos e subsistência, a burguesia pressiona o Estado para garantia do seu lucro e afrouxamento nas garantias trabalhistas, uma expressão clara dos interesses antagônicos e inconciliáveis de classe. 

 

As vulnerabilidades que incidem sob a classe trabalhadora são, também, reflexos políticos, sociais e estruturais de uma sociedade organizada em torno de uma busca insaciável, mesquinha e egoísta: o lucro da burguesia. Enquanto a burguesia mobiliza-se para garantir o seu lucro, a classe trabalhadora mobiliza-se para a garantia de suas vidas.

 

Quando Marx afirma que “ser capitalista significa ocupar na produção uma posição não só puramente pessoal, mas social” e que “o capital é um produto comunitário e pode apenas ser posto em movimento por uma atividade comum de muitos membros, em última instância apenas pela atividade comum de todos os membros da sociedade” (MARX; ENGELS, 2001) entendemos que toda riqueza da burguesia é socialmente produzida, fruto dos esforços da classe trabalhadora. Entendemos que a classe burguesa age socialmente visando atender aos seus interesses e interpreta a realidade social através de um éthos antagônico ao da classe trabalhadora.

 

 Ao se referir a propriedade burguesa Marx vai dizer que ela é “uma propriedade que pressupõe como condição necessária que a imensa maioria da sociedade não possua propriedade” (MARX; ENGELS, 2001), portanto a riqueza e propriedade acumuladas nas mãos da burguesia só existem como fruto de um trabalho social, é a apropriação privada do fruto do trabalho socialmente realizado. É o interesse almejado pela burguesia em meio à crise: que o trabalho do proletariado continue lhes gerando o lucro. É a busca por uma garantia da reprodução desses moldes de exploração o que é também uma garantia de que as consequências desse momento econômico-sociais recaiam sobre a classe trabalhadora.

 

Uma preocupação que fica implícita é que há uma pseudofragilidade aparente que ameaça a posição social da classe burguesa, o risco na manutenção do status quo, pois a burguesia só se mantém pelo trabalho da classe trabalhadora, se esse trabalho cessa, momentaneamente que seja, com a diminuição dos lucros, há a perca do capital acumulado o que deixa explícita a dependência, por parte da burguesia, do proletariado. Sem o trabalhador não existe capital, e nem o capital existe sem o trabalhador, isso é claro quando Marx e Engels (2001) afirmam que “a condição essencial para a existência e para a dominação da classe burguesa é a acumulação da riqueza nas mãos de privados, a formação e multiplicação do capital; a condição do capital é o trabalho assalariado” e que “O homem não passa de simples trabalhador e, como trabalhador as suas qualidades humanas existem apenas para o capital, que é para ele estranho. Uma vez que o trabalho e o capital são reciprocamente estranhos, relacionando-se apenas entre si de modo externo e acidental, este caráter estranho tem de revelar-se na realidade.” (MARX, 2001)

 

Discursos que priorizam a economia em detrimento da vida, o bem-estar, não me referindo ao Wellfare State, a segurança e a saúde da classe trabalhadora, são movidos por interesses burgueses, portanto são expressões de um discurso classista e contrário a toda luta e conquistas históricas da classe trabalhadora. Para essa burguesia as vidas de algumas centenas de milhares de trabalhadores são um preço baixo a se pagar para manutenção de seus privilégios. E é na cultura burguesa, no éthos burguês, que a desvalorização da vida da classe trabalhadora, encontra seu ápice. Se essas vidas em risco são da parcela inativa da população, os idosos, além da falta de interesse, por parte do empresariado, da burguesia, em parar a economia para preservá-las, há o alívio malthusiano em sacrificá-las para compensar um suposto “déficit da previdência”.

 

Portanto é nesse momento de crise em que percebemos que Marx está mais atual do que nunca, e que todos os acontecimentos e seus desdobramentos sociais e econômicos, só reificam Marx e Engels, a desumanidade da classe burguesa e a necessidade de mobilização e fortalecimento da classe trabalhadora. É nesse momento em que os antagonismos de classe tornam-se mais perceptíveis, seus impactos mais claros e a necessidade de luta pela defesa dos direitos da classe trabalhadora, dos direitos humanos e sociais,   torna-se gritante. Os privilégios burgueses tornam-se mais aparentes e a exploração e dominação burguesa em relação a classe trabalhadora têm nesse momento sua mais desumana expressão: enquanto classe nós lutamos para subsistir e enquanto classe a burguesia luta para lucrar. A manutenção dos lucros se opõe a manutenção da vida. Se a luta momentânea visa salvar milhares de vidas, lutemos para salvar as milhões de vidas que ainda estão a serem tiradas por um sistema desigual e opressor: o sistema capitalista.

 

 

Gabriel Brito Rosado é bacharel em Serviço Social pela FMU e Assistente Social.

 


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Referências Bibliográficas

BARROCO, M. L. S. Ética: fundamentos sócio-históricos. 2ª ed. São Paulo: Cortez Editora, 2009.

ClickPB, Roberto Justus se posiciona sobre áudio em que chama Coronavírus de ‘gripezinha’. Disponível em: <https://www.clickpb.com.br/brasil/roberto-justus-se-posiciona-sobre-audio-em-que-chama-coronavirus-de-gripezinha-280669.html>. Acesso em 26 de março de 2020.

Economia UOL, Madero, Havan, Giraffas: empresários criticam medidas de combate à pandemia. Disponível em: <https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2020/03/24/empresarios-coronavirus-o-que-dizem-criticas.htm>. Acesso em: 26 de março de 2020.

IAMAMOTO, M. V; CARVALHO, R. Relações Sociais e Serviço Social no Brasil: esboço de uma interpretação histórico-metodológica. 41ª ed. São Paulo: Cortez Editora, 2016.

MARX, K. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Martin Claret, 2001.

MARX, K; ENGELS, F. Manifesto Comunista. São Paulo. CPVSP, 2001.

Revista Fórum, Em coro com Bolsonaro, véio da Havan chama coronavírus de “histeria” e ameaça demissão em massa durante live. Disponível em: <https://revistaforum.com.br/noticias/em-coro-com-bolsonaro-veio-da-havan-chama-coronavirus-de-histeria-e-ameaca-demissao-em-massa-durante-live/>. Acesso em 26 de março de 2020.

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