Seria o Brasil uma colônia moderna de Donald Trump?
Segunda-feira, 6 de abril de 2020

Seria o Brasil uma colônia moderna de Donald Trump?

Imagens: Alan Santos /PR /Agência Brasil – Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Maiara de Proença Bernardino

 

Donald Trump delimita suas colônias e decide quais populações devem padecer e quais devem viver no jogo geopolítico.

 

 

Nas últimas notícias, os jornais anunciam que devido à decisão do presidente dos Estados Unidos, a população residente nos territórios brasileiros ficariam privadas de receber insumos médicos. Trump, decidiu por contra própria roubar  as máscaras que chegariam ao nosso país, pois, resolveu comprá-las em grandes quantidades da China, reservando-as somente para seu território.

 

Em quatro de abril de 2020, Donald Trump afirmou sua decisão sobre o mundo, pois, não deseja que outros países adquiram máscaras. Essa é a preocupação do presidente dos EUA por trás de suas ações e discursos. Quanto maiores forem as oportunidades de um país que não seja o seu, conseguirem aliviar a pandemia do coronavírus, melhores serão suas condições diante a geopolítica que está se projetando nos territórios.

 

Os governantes chineses anunciaram que não haveria afirmação de privilégios geopolíticos partindo deles diante a pandemia. Mas, é evidente que aqueles países onde a COVID-19 melhor for contida, a economia voltará a funcionar ao contrário dos lugares aonde parte desta está estagnada ou ainda já sofria com problemas de recessão, como é o caso dos países da América Latina. 

 

Além de representantes de outros países, como Alemanha, Canadá e França, os governantes do nordeste brasileiro denunciaram que o presidente dos Estados Unidos estaria pagando valores mais altos para a compra de respiradores artificiais, além de desviar outros insumos médicos. Segundo Trump, se trata de uma medida necessária para que mais americanos não somem aos números de mortos. O que revela uma estratégia de guerra por uma melhor colocação no cenário geopolítico mundial, à custa da morte de milhões de não-americanos.

 

A decisão do “grande irmão” pela Lei de Proteção de Defesa, é a de que as grandes empresas produtoras das máscaras e outros insumos médicos, como a 3M, se concentrem na produção para os territórios americanos e suspendam as exportações para a América Latina, Canadá e demais países que já denunciaram tal prática. 

 

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Estaríamos nos tempos ditos modernos vivendo diante de práxis coloniais como estas adotadas pelo presidente dos Estados Unidos e aceitas por presidentes como Jair Bolsonaro? Segundo representantes alemães, sim, estamos diante uma “pirataria moderna” realizada por Donald Trump. 

 

De acordo com o sociólogo Boaventura de Sousa Santos “É hora de declarar incumprida uma das grandes promessas modernas. O homem branco jamais aceitou a igualdade. Novas lutas precisarão impô-la.” O que se percebe no atual mundo considerado moderno, repleto de inovações e tecnologias que prometem um mundo melhor, é a continuidade de lógicas consideradas passadas. Donald Trump, um homem branco e cristão, deseja controlar o mundo e decidir quem são aqueles que irão viver e quais irão morrer diante da pandemia do COVID-19.

 

Uma realidade que antes parecia ter sido renovada, descontinuada, com as promessas de progresso do grande capital, aparece para nós como reafirmação das antigas lógicas de um pequeno grupo no qual o desejo era homogeneizar as universalidades por meio da eliminação destas. 

 

O que está em jogo por trás do discurso segregacionista e racista de Donald Trump ao reservar para si e seu país, insumos médicos, são as já bem “consagradas” ideias capitalistas, coloniais e patriarcais de outros tempos considerados passados. As desigualdades socioespaciais evidenciadas pelos diferentes usos dos territórios revelam-nos como a ideologia do progresso se coloca de formas desiguais nos espaços.

 

Segundo o geógrafo Milton Santos, em “espaços luminosos” como é o caso daqueles existentes em parte dos territórios estadunidenses, concentram mais capital. Além do aparato técnico-científico-informacional hoje idealizado para melhor funcionar nesses territórios, colaborarem para a (re)produção de capitais. Em contradição e interdependente à esses primeiros, nos “espaços opacos” da escassez produzida, é onde mais ficam evidentes tais falhas nas promessas do discurso do progresso, pois, há uma falta dos recursos mais básicos para existência e sobrevivência da maioria das populações. 

 

As medidas anunciadas por Donald Trump, apenas nos mostram mais as lacunas de tal discurso intencionado em homogenizar os espaços e o tempo. A desigualdade socioespacial está contida nas falas do presidente dos Estados Unidos. Pois, segundo ele é necessário reservar recursos para apenas os EUA, tornando-o uma centralidade da produção dos insumos médicos, e as periferias, ou melhor, as colônias modernas do “grande irmão”, segregadas de tais recursos necessários à vida no momento pandêmico representariam países não-americanos. 

 

 

Maiara de Proença Bernardino é Graduanda em Geografia, na Universidade Federal de São Carlos. Atualmente é bolsista pelo Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq) através do PIBIC da UFSCar, atuando como pesquisadora na área de Geografia Humana e Geografia Urbana.


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