Educação em tempos de pandemia da COVID-19
Terça-feira, 7 de abril de 2020

Educação em tempos de pandemia da COVID-19

Imagem: Marcelo Camargo /Agência Brasil

 

Por Vera Alves Crispim Capucho

 

Em tempos de devastadores impactos socioeconômicos causados pela pandemia da COVID-19, as medidas e recomendações expressas pela Organização Mundial de Saúde impulsionam a população a novos hábitos, expondo a fragilidade da vida e a importância da seguridade de direitos diante a lógica do sistema vigente.

 

 

Uma doença que acomete a todos, agravante junto aos grupos de risco e que exige cuidados redobrados aos mais frágeis, parece ter o potencial para evidenciar a irracionalidade de um modelo socioeconômico excludente e a insensatez da exploração desenfreada de recursos humanos e naturais. 

 

Porém, seguindo a lógica imperante no mundo empresarial, logo a crise passa a ser anunciada como oportunidade de negócio para grupos privados com interesse no campo educacional. Assim, o que poderia ser um momento de convivência humanitária, fortalecimento do setor público e de seus profissionais logo é anunciado como oportunidade de negócio. 

 

No campo educacional, ao invés de promover reflexões sobre formas mais inclusivas e sustentáveis de organização das comunidades escolares, aparecem vorazes investidores interessados em abocanhar parcelas do mercado educacional, promovendo o uso das novas tecnologias, metodologias ativas, gamificação e um amplo leque de soluções para a educação de crianças e jovens em tempos de pandemia.

 

O reducionismo coloca na ordem do dia o debate sobre ser, ou não, favorável a EAD, como se a complexidade da questão fosse tão somente definir a melhor modalidade educacional para milhões de crianças e jovens que não somente no atual momento, mas cotidianamente têm negado o direito a uma educação de qualidade social efetivamente promotora de cidadania ativa. 

 

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O problema não está tão somente na definição do melhor modelo para a mediação didático-pedagógica dos processos de ensino e aprendizagem, quer seja os que se utilizam de meios e tecnologias de informação e comunicação, com estudantes e professores desenvolvendo atividades educativas em lugares ou tempos diversos ou em convivência presencial. 

 

 Não se trata de problematizar a pertinência da EAD, até mesmo porque esta constitui um fenômeno nada novo, previsto no art. 80 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação e devidamente regulamentado pelo Decreto nº 5.622, de 19 de dezembro de 2005, limitado, por uma lado pelas condições materiais de sobrevivência de grande parte das famílias brasileiras, pelo baixo investimento no setor educacional e pela falta de políticas efetivas de formação continuada de professores. 

 

A questão se mostra mais ampla, guarda relação com o papel social da educação, principalmente em tempos traumáticos, e deve estimular reflexões sobre o que será feito com milhares de crianças e jovens após o fim do isolamento social imposto pelo risco iminente do contágio. 

 

Quando a escola, tão desvalorizada nos últimos tempos, além de ser tudo o que já é passar a ser refugio e santuário os professores, que também são pais, mães, filhos deverão deixar os seus e tomar para si a responsabilidade de educar uma geração que, diferente da atual, saiba valorizar a ciência, respeitar o que é melhor para o coletivo, romper as barreiras sociais, defender o meio ambiente e acima de tudo compreender qual a natureza da luta travada pela humanidade.

 

No momento o distanciamento social continua a ser recomendado, mas não o distanciamento da sociedade, o que, sem dúvidas exige a valorização das ciências humanas e daqueles que a ela se dedicam, pois tecnologias sociais serão fundamentais para recuperação de um país assolado pela COVID19, mas também por negacionismos, reducionismos e necropolíticas estatais.  

 

 

Vera Alves Crispim Capucho cursou doutorado na Universidade Nacional de La Plata/Arg. Especialista educacional na rede pública de educação PMAS/SP. Pesquisadora do HISTED-BR/ UFSCAR e do NEPEDH/UFPE.


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