A Ultradireita Troll Brasileira
Terça-feira, 21 de abril de 2020

A Ultradireita Troll Brasileira

Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Rafael Leopoldo

 

É notório que o mundo sofreu uma inflexão democrática tanto nos países do Norte Global, quanto nos países do Sul. Trata-se de um desvio considerável para as políticas de ultradireita. Neste sentido, para se compreender a realidade por meio da literatura, muitos começaram a reler 1984 e Revolução dos bichos, de George Orwell; Laranja Mecânica, de Anthony Burgess; Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, ou ainda, diante da pandemia do Covid-19, A Peste e o Estado de Sítio, de Albert Camus. 

 

 

É nessa toada, que o filósofo Michel Onfray chega a afirmar que lê o aclamado 1984 da mesma forma que lê O Príncipe, de Maquiavel. Tais obras literárias, assim, substituem ou ganham status de verdadeiros sistemas filosóficos, cujos elementos em comum, relacionados ao seu momento de releitura, referem-se ao saber distópico colocado em foco. 

 

Porém, a desidratação da democracia não perpassa tão somente o Norte Global. Podemos compreender essa baixa diante do esgotamento do ciclo progressista latino-americano e a reestruturação do neoliberalismo na América Latina. Ainda, se pensarmos na conjuntura política brasileira, o que temos é o surgimento de uma direita troll¹ com uma base extremamente forte e grande capilaridade nas diversas plataformas digitais.  

 

***

 

A respeito do ciclo progressista, pode-se asseverar que foi historicamente caracterizado a partir da eleição de Hugo Chávez como presidente da Venezuela, em 1998; Lula, no Brasil, em 2002; Néstor Kirchner, na Argentina, em 2003; Tabaré Vásquez, no Uruguai, em 2005; Evo Morales, na Bolívia, em 2005; Rafael Correa, no Equador, em 2006; Fernando Lugo, no Paraguai, em 2008. Todos esses governos foram eleitos no jogo da democracia representativa e muitos deles reproduziram a voz de classes desfavorecidas, fato que angariou, a posteriori,  os votos dessas mesmas classes.   

 

Pensando na conjuntura da formação do ciclo progressista seria necessário evocar dois elementos, um externo e outro interno. Trata-se de um contexto externo com altos preços das commodities; e, devido a esse contexto externo favorável, criou-se um contexto interno de políticas de ampliação de direitos sociais e políticos. 

 

O ciclo progressista, em sua totalidade, procurava de alguma forma uma transformação social, porém, a crítica que ele recebe é que diante desse contexto favorável não houve o estabelecimento de políticas radicais, tampouco uma desvinculação do personalismo. Diante desses dois elementos, logo que esse momento adequado se desfez houve uma restauração da direita com a retomada de marcas fortemente neoliberais, políticas de austeridade e desmantelamento das políticas públicas.

 

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O fim do ciclo progressista tem como principal marco a vitória de Mauricio Macri, na Argentina, em 2015; e o impeachment de Dilma Rousseff, no Brasil, em 2016. Diante desses eventos começa o seu esgotamento e uma minoração democrática auxiliada e aplaudida pela elite do poder judiciário, por grupos empresariais da mídia e, também, por religiosos conservadores, a nossa distopia evangélica realizada. No Brasil, após o golpe da Dilma Rousseff, vivenciamos a mediocridade de Michel Temer e, posteriormente, a ultradireita troll brasileira com a eleição de Jair Bolsonaro. Assim, a política da avacalhação se consolida e se torna um método.

 

***

 

Este espectro troll da política brasileira perpassa o próprio chefe de estado com suas declarações de um humor brutal e suas lives; Olavo de Carvalho com seus cursos on-line e sua burricada. Já Sérgio Moro efetivou sua transformação em troll por adesão com os seus tweets servis ao presidente, acompanhado pelo ministro da educação, Abraham Weintraub em seus tweets e lives, levando a trollagem a níveis hiperbólicos  —  basta pensarmos no caso China onde surge uma verdadeira crise diplomática. Tem-se, ainda nesse mundo das plataformas digitais, uma gama de youtubers-políticos como, por exemplo, Kim Kataguiri, Fernando Holiday e Arthur Mamãe Falei. 

 

Agora, esse espectro troll tem um regime discursivo do troll bem específico. Desta forma, uma primeira distinção a ser feita é diferenciar o hipócrita do troll cínico. O hipócrita fala de uma forma e age de outra, assim, a sua incoerência poderia ser desmascarada mostrando o hiato entre fala e ação. O troll cínico cria um discurso caótico por meio do humor brutal, que produz uma zona nebulosa na compreensão do próprio enunciado e gera uma área de opacidade entre a literalidade e a piada. A consequência final desse movimento é uma desativação da crítica e subsequente expressão do obsceno.

 

Tomemos alguns exemplos da fala do Jair Bolsonaro. Numa entrevista sobre o que mudaria no Brasil, ele afirmou que a mudança só aconteceria: “matando uns 30 mil, começando com FHC”. Em outro momento ele grita para a ex-ministra Maria do Rosário: “não te estupro porque você não merece”. Em meio ao surto de Coronavírus, onde ficou explícita a necessidade de quarentena e isolamento social obrigatório, o presidente assevera: “ficar em casa é atitude de covarde”. Vê-se, destarte, que este discurso tem múltiplas camadas e as principais são: 1) a literalidade; 2) a comédia. 

 

No primeiro exemplo, a compreensão primária é que, de fato, Jair Bolsonaro propõe matar o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, ou ainda, que se trata apenas de uma piada. A mesmo lógica poderia ser aplicada às demais frases. Para pensarmos as falas que tentam neutralizar o overposting do troll, poderíamos citar dois tipos de discursos/argumentos: 1) os argumentos que tentam se sustentar via diálogo e produção da verdade, como a noção de razão comunicativa, de Jürgen Habermas; 2) os argumentos corretivos e morais das posições que envolvem a postura do politicamente correto.   

 

Sobre o primeiro, podemos apontar que o problema da tentativa de evocar a filosofia de Habermas é que ela se fundou no período anterior as forças das tecnologias digitais e do discurso d’avacalhação do troll. Para Habermas, a razão comunicativa não se estabelece como numa luta, como num ring virtual onde é necessário um knockdown performativo, mas, sim, em elementos como verdade, validade, inteligibilidade e, ademais, na sinceridade dos participantes. Estes elementos são estranhos às diversas guerras que se apresentam nas plataformas.

 

No que tange ao segundo argumento,  quando o politicamente correto denuncia à literalidade do texto, quando denuncia o escândalo e a incivilidade que é um político propor a morte de outro, nesse momento ele é acusado de não entender o humor da afirmação do seu oponente. Deste modo, o troll diz o literal e o cômico por meio de um humor anti-político que, deliberadamente, o caracteriza como autêntico, uma autenticidade tosca que gera a sua popularidade. Popularidade esta, por fim, que é alimentada – o feedback – pelo próprio discurso do politicamente correto.

 

O aspecto autêntico, citado anteriormente, se dá uma vez que a popularidade é relevada.  A política não funciona nunca, seriam as mesmas figuras, os mesmos jogadores e, agora, ele se mostra em toda a sua avacalhação. Trata-se do clown de caneta bic com o seu caos sócio-discursivo. O caos discursivo onde ele pode afirmar o absurdo e a violência, mas, também, o caos social em que se propõe uma espécie de ética-invertida. Nesta babel, não há uma solidariedade social ou projetos políticos, mas, sim, espoliação e rapinagem das relações: a trollagem seguida de um kkk. 

 

 

Rafael Leopoldo é professor de Filosofia, da PUC-MG. É autor do livro “Teoria Queer e micropolítica” (2017), “Tango: o baile dos corpos dóceis” (2019) e “Cartografia do pensamento Queer” (no prelo). 


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Notas:

[1] O filósofo Moysés Pinto Neto está produzindo uma reflexão importante a respeito do Troll e tornando essa noção num verdadeiro conceito. Conceito esse que pode nos ser útil tanto para análise de uma conjuntura política externa e interna. Idelber Avelar, por sua vez, toma esse termo/conceito para caracterizar tão-somente uma parte do mosaico de vertentes que constituiria o bolsonarismo. Assim, ele usa o termo “partido dos trolls” para caracterizar uma gama de elementos discursivos que, também, dão suporte ao bolsonarismo. Neste pequeno texto se trata de pensar o fim do ciclo progressiva latino-americano e o surgimento do que compreendemos como uma ultradireita troll especificamente brasileira.

 

Referência

Avelar, Idelber. Eles em nós. (no prelo).

Acosta, Albert e Brand, Ulrich. Pós-extrativismo e decrescimento: saídas do labirinto capitalista. São Paulo: Elefante, 2018. 

Onfray, Michel.Théorie de la dictature. França: Robert Laffont, 2019.

Pinto-Neto, Moysés. Do Populismo Reacionário Ao Exterminismo: Yuppies, Neggers e Trolls. Crise e Crítica, 2018. 

Pinto-Neto, Moysés. Quatro cenários para o fim do mundo. (no prelo). 

Pinto-Neto, Moysés. Política na era da visibilidade total: the waldo moment. (no prelo).

Terça-feira, 21 de abril de 2020
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