O exercício do raciocínio crítico em tempos de pandemia
Terça-feira, 21 de abril de 2020

O exercício do raciocínio crítico em tempos de pandemia

Imagem: Justificando

 

Por Alexandre Lagoa Locatelli

 

Em meio a toda a nova realidade causada pela pandemia do coronavírus, um fato já estávamos acostumados. Uma enxurrada de “especialistas” nas redes sociais, com as respostas prontas de se o isolamento é bom ou ruim, de se o certo é a vida ou a economia, se a cloroquina ajuda ou não, entre outros.

 

 

Com o passar dos dias os assuntos mudaram, mas a sistemática foi a mesma. Em todos os casos a discussão nas redes sociais foi superficial, agressiva e ideológica. Nos aflige a falta de raciocínio crítico nessas postagens na internet.

 

Se voltarmos um mês, o cenário era de uma Itália ainda em dúvida das dimensões dessa pandemia, os Estados Unidos com a certeza de que não era nada, o Brasil achando ser uma gripezinha e os especialistas e estudiosos mundo a fora temerosos.

 

Me recordo, nesses dias, de conversar com um conhecido nascido na Itália, questionando como estava a família dele. Ele, um sujeito simples, me respondeu que não era nada, que lá se discutia fazer quarentena, mas que isso não era importante, já que a mortalidade era baixa. 

 

Na época, não se falava ainda da importância de diminuir a curva de propagação. Esse conhecimento não havia chegado ao grande público. Sem essa informação, minha resposta a ele foi que nós não tínhamos conhecimento na área, eu sou advogado e ele promotor de eventos, que deveríamos deixar a decisão na mão dos especialistas, já que não sabíamos analisar o problema por todos os ângulos. 

 

Veja, pode parecer muito simples tomar um argumento e chegar em uma conclusão lógica. Se a doença mata pouco, é uma gripezinha e não precisa de isolamento. Essa linha de raciocínio, isoladamente, faz completo sentido. 

 

Todavia, o que não percebemos é que o Covid (ou qualquer outro ponto sério) não pode ser analisado apenas por um viés, um ângulo, um argumento. A questão é muito mais complexa, é sistêmica. De fato, mata pouco, entretanto leva muitas pessoas à UTI, o que sobrecarrega o sistema e matará mais pessoas, uma vez que não teremos leitos disponíveis (vítimas do Covid ou de qualquer outro problema, como um ataque cardíaco que não terão o atendimento necessário).

 

Para melhor ilustrar, imaginemos a figura de uma mesa. Se nós tivermos apenas uma perna, essa mesa ficará plana e estável? Dificilmente. Então precisamos encontrar todas as pernas, para deixarmos essa mesa firme, que suporte argumentos.

 

Portanto, diante de um fato, devemos procurar observar todos os ângulos, todos os pontos. No meio acadêmico isso é denominado de “estado da arte”, conhecer tudo que se pode conhecer de um assunto.

 

É sempre temerário tomar uma posição com base em uma afirmação, em um único ponto, por mais que ele, isoladamente, esteja correto. O coronavírus mata pouco, mas essa não é toda informação que devemos saber para analisar as medidas. Temos que pensar em quantos pacientes ocuparão leitos e etc. Só analisando a questão de forma completa, pensando, refletindo, que podemos chegar a uma conclusão de se vale ou não a pena o isolamento. Essa linha de pensamento funciona com qualquer questão.

 

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Por que, então, as pessoas acreditam na primeira afirmação que se deparam? Por que, principalmente as pessoas mais simples, sem raciocínio lógico, se agarram no primeiro argumento como se fosse uma verdade quase que sobrenatural?

 

A psicologia vai dizer que a resposta é o viés de confirmação, as pessoas tem uma tendência natural a acreditar naquilo que, de certa forma, confirme algo que elas têm inclinação a acreditar. 

 

Vale dizer que isso se aplica até para conteúdo falso, como as fake news. Por que elas se espalham com tanta velocidade na rede? Todas as pessoas que compartilham sabem que aquilo é mentira e querem enganar os outros? Claro que não. Algumas pessoas são enganadas pelas fake news? Sem dúvida, caso contrário não existiriam fake news.

 

Essas noticias falsas utilizam da ideia do viés de confirmação para manipular as pessoas. Se alguém já tem uma tendência a acreditar em algo e lê uma fake news que caminha no mesmo sentido do que ela acredita, é provável que a pessoa use essa notícia para apoiar seu pensamento, para embasá-lo, sem nem imaginar que pode ser falso. 

 

O perigo de tal expediente é imenso e ultrapassa os limites desse texto, quantas vezes uma pessoa não chegou em alguma conclusão com base em fake news? Pior, depois de três ou quatro fake news no mesmo rumo, aquela ideia faz tanto sentido na cabeça da pessoa que ela não consegue mais se dissociar dela, nem que perceba que leu uma fake news no caminho. Isso não muda, dizem elas. Mas deveria, já que toda a conclusão é firmada em premissas falsas, as fake news propiciam falsas premissas.

 

Políticos usam essa tática toda hora (até com postagem de robôs), vejam a questão da curva de disseminação, do isolamento X rotina normal. Enquanto toda uma comunidade cientifica, que estudou a fundo uma questão, enquanto vários países já sofrem isso na prática, o presidente Bolsonaro continua afirmando que não é nada. Alega que os hospitais não estão cheios. Quantos hospitais ele olhou para chegar a essa conclusão?

 

Pior, pessoas comuns compartilham essa noticia como se verifica fosse. Não estamos aqui falando que a notícia é necessariamente falsa e sim que alguém chutou uma informação sem base e todos acreditaram.

 

Para falar que os hospitais não estão cheios, é preciso analisar quantos leitos existem e quantas pessoas os ocupam. Qualquer afirmação sem saber esses dados é um chute.

 

É curioso como as pessoas tendem a acreditar em informações, principalmente daqueles que elas admiram, sem essa informação passar por um crivo crítico do ouvinte. Se alguém diz que os hospitais não estão cheios, que isso é mentira, será que a pessoa não consegue parar um segundo e pensar se existe a hipótese disso não ser verdade, pensar que quem afirmou fez uma apuração completa? Por que acreditamos tão facilmente?

 

Kant¹ já diria se tratar da preguiça e covardia. A preguiça de pensar e a covardia de não criticar, de se apoiar cegamente no que os outros já “pensaram” e concluíram, sem usufruir da sua liberdade de pensar.

 

Soma-se então esses dois pontos: as pessoas chegam a conclusões com base apenas em um argumento; esse um argumento pode vir de uma fake news que a pessoa acredita preguiçosamente. O resultado é um só: inúmeros “pós doutores” cheios de razão, com a resposta do universo em suas mãos e totalmente agressivos contra quem discorda, é um insulto discordar.

 

É uma situação demasiadamente triste, como tantas pessoas são manipuladas, enganadas, como não conseguem ter a condição de raciocinar de forma crítica. Infelizmente isso atinge toda a sociedade, independente da classe social ou até do grau de escolaridade. Não se confunde conhecimento técnico com capacidade reflexiva.

 

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O problema dessa defesa cega por algum ponto equivocado, é que ela acarreta prejuízos. As pessoas são manipuladas para acreditar em algo inverídico e ao tomarem decisões com base em dados inverídicos prejudicam a coletividade. Pior, sem perceber isso, sem perceber a manipulação, sem perceber o dano a si e aos outros.

 

A cada dia vemos uma nova discussão sem sentido, entre ciência X opinião. Ciência se rebate com ciência, com estudo sério e profundo, conhecendo o estado da arte. O estado da arte não se conhece lendo meia dúzia de reportagens. Para isso precisa de horas e horas de leituras densas, imaginemos um estudante que cursou mestrado e doutorado em 5 anos, se ele manteve uma média de 300 páginas de leitura por semana, teremos um resultado final de 80 mil páginas. Tudo isso para um especialista ler uma fake news e desacreditar esse verdadeiro estudante. Não que a opinião das pessoas que não sejam doutores não possua valor, mas há que se distinguir opinião de ciência.

 

Opinião não é nada mais do que você acha, do que você imagina, do que você acredita. Se você acredita em algo, pode se dizer que tem fé naquilo. Fé não se discute, respeita. 

 

Se sua Fé é que é só uma gripizinha, que as pessoas não morrem, que os hospitais não ficam lotados, não tem problema, só não propague isso como se fosse uma verdade absoluta. Lembra do viés da confirmação? Você levará muitas pessoas na sua crença, pessoas que podem se machucar ou machucar os outros por isso e você só foi uma marionete de alguém mais poderoso que manipulou essa ideia.

 

E nem se diga que a ciência também erra, que ela sempre muda. Isso é intrínseco à ciência, o ser humano não é o dono da verdade para descobrir tudo do dia para a noite. Por isso mesmo Karl Popper já dizia em “mais verdade”. Uma assertiva cientifica passa por inúmeras provas, confrontações, e quanto mais se mantém, mais verdadeira ela é (veja, não temos o gabarito do universo para saber se nada é verdadeiro ou não, só podemos dizer que algo é mais provável de ver verdadeiro do que outra coisa).

 

Por mais que seja difícil, temos que fugir desse achismo, desse senso comum. Não tem problema não saber algo, ninguém sabe de tudo, mas é preciso ter a humildade de saber que nada sabe, de não querer ser o dono da razão por ter lido uma reportagem. O que não devemos é a cada dia dar mais razões para confirmar ao sábio pensamento de Umberto eco que as redes sociais deram voz aos imbecis.

 

Podemos não saber tudo, podemos não ter o conhecimento técnico cientifico nessa questão médica provoca pelo Covid, mas temos como manter um pensamento crítico. Isso por si só já nos livrará de muita manipulação e desinformação.

 

Se mesmo assim nos depararmos com um “especialista” da internet no assunto, o melhor modo de confronta-lo é com método socrático. Faça perguntas a ele, que as próprias respostas fornecidas acabarão com a afirmativa inicial dele.

 

Ao se fazer perguntas, a pessoa é forçada a pensar e raciocinar. Muitas vezes lemos ou ouvimos algo e assimilamos como verdade, sem nos perguntarmos se aquilo está certo. 

 

Por exemplo, outro dia conversei com alguém que defendia que o grupo de risco ficasse em casa e quem não era do grupo de risco fosse trabalhar normalmente. Eu comecei perguntando se ele achava se existiam famílias no brasil que tivessem pessoas do grupo de risco e pessoas fora dele (como uma família de pais de 60 anos e filho de 30). Ele disse que sim. Na sequência, questionei se a pessoa de 30 poderia contrair a doença e passar pros pais (que moram na mesma casa). Ele percebeu que a ideia inicial dele não era tão boa quanto ele imaginava no inicia. Veja, isso com duas perguntas bem simples, que ele nunca se fez.

 

Depois de um tempo ele voltou e disse que seria bom fazer acordo entre os vizinho, duas famílias se juntam e dividem as casas, em uma mora só o grupo de risco e na outra as pessoas fora dela.

 

Perceba, não cabe aqui continuar a discutir essa proposta, que me parece difícil de se concretizar, mas com toda certeza é muito melhor que a primeira. Por que é melhor que a primeira? Porque ele pensou.

 

Que essa situação nos ajude a abrir os olhos, pensarmos, criticarmos, não sermos mais manipulados. A sociedade irá superar essa pandemia, esperamos que mais fortalecida e inteligente também.

 

 

Alexandre Lagoa Locatelli é Mestrando em direito pela Universidade Nove de Julho. Pós Graduado em Direito Civil e Consumidor pela Escola Paulista de Direito (EPD). Pós graduando em processo civil pela Escola Paulista de Direito (EPD). graduação em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2013). Advogado, sócio do Carnieto e Lagoa Locatelli Sociedade de Advogados. Palestrante na OAB-SP. Instrutor no Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-SP. Advogado


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Notas:

[1] Kant, Immanuel. Resposta à Questão: O que é Esclarecimento? Tradução de Márcio Pugliesi

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