Da janela do privilégio, batendo panela e fumando maconha
Quarta-feira, 22 de abril de 2020

Da janela do privilégio, batendo panela e fumando maconha

Imagem: Divulgação / Polícia Federal

 

Coluna Discursos Não Pacificados

Por Ingrid Assunção Farias

 

“Na minha favela não se bateu uma panela, só quem bateu foi o choque que pegou os boy que tava na lojinha comprando um big para ver se conseguia passar melhor a quarentena.” Elias, 19 anos

 

 

Nas janelas do privilégio se bate panela e se fuma maconha. Na paz da segurança de classe e raça, sem contato com a guerra gerada pelas desigualdades sociais e raciais aprofundadas com a pandemia. A autonomia e liberdade sempre foram bandeiras das Marchas das Maconha; queremos que todas as pessoas continuem podendo fazer escolhas, mas estimular essa ação pode ter efeitos para a saúde, pois estamos diante de um vírus que provoca complicações respiratórias. É fundamental que o movimento antiproibicionista se posicione nesse momento de crise mundial, mas fazer isso por meio de uma ação individualista, cada um da sua janela, sem tocar no ponto fundamental que o Brasil é o terceiro país que mais encarcera no mundo, e que já vivencia a pandemia dentro das prisões que já são espaços de violação de direitos, é difícil de entender. Estamos falando do direito de viver, antes do direitos de ser usuário e plantar maconha.

 

Já são 10 anos acompanhando e organizando a Marcha da Maconha na minha cidade, o Recife, e conectada com as dezenas de pessoas que fazem a mesma movimentação em todo Brasil. Nos encontramos pela primeira vez a maioria de nós em 2011 e, desde então, seguimos em conexão organizando anualmente esse ato no mês de maio, com objetivo de disputar a narrativa e transformar a marcha da maconha em instrumento de denúncia e organização das pessoas que usam drogas, em especial as são alvo dessa guerra.

 

Muito foi vivido e exposto nesses anos. Encontrei muitas organizadoras de marchas que, assim como eu, não compreendiam porque a centralidade daquelas atos ainda eram para ampliar mercados de maconha no Brasil, como tabacarias e coffee shops, ou dar visibilidade a ativistas cultivadores brancos de classe média, que também foram impulsionados pela ação pública gerada pela marcha da maconha, a custas de espaços de construção muitas vezes classistas, racistas e misóginos.

 

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É isso! A marcha da maconha em muitas cidades não foge ao fato de ser um movimento social que produziu diversas violências, um movimento misto que por anos serviu para impulsionar carreiras profissionais e políticas dessas pessoas que, além de não reconhecerem suas atitudes racistas e machistas, conduziam o debate político por um campo perigoso da economia e liberdade individual. Foram concursos de beleza que reproduziam mulheres em estereótipos, casos de violência contra mulher, casos de racismo. Foi necessária muita reflexão e resistência das tantas e tantos militantes que não queria ver esse uso de uma ação de rua tão importante para luta pela legalização e fim da guerra.

 

E aí, em pleno 2020, quando a gente acha que já explanou a galera sem noção, que não vai ter mais nada pra explanar, a gente se depara com um convite da Marcha da Maconha de SP, convocando os usuários de maconha para fumar na janela de suas casas e colocar panos que identifiquem que são a favor da legalização. Com o passar dos anos e os poucos avanços concretos na pauta da legalização, foram várias as iniciativas como essa vindas de uma galera que pode passar mais 50 anos de guerra e nunca vai entender do que se trata, na real e na pele, propor ações que expõem e vulnerabilizam os corpos que já são o alvo dessa guerra. Eu acho ótimo que tem muita gente que saiu do armário e, hoje, apoia a luta, massa! Tem muita coisa concreta na luta antiproibicionista para tocar, muita gente precisando de ajuda coletiva porque é alvo social de uma guerra que toda sociedade e o Estado tem responsabilidade. Mas iniciativas como essa demonstram, mais uma vez, que temos urgências diferentes ao colocar na rua a luta antiproibicionista em tempos de quarentena.

 

Convidar usuários a acender um baseado de suas janelas e colocar uma bandeira verde que sinaliza que aquela casa é a favor da legalização da maconha até que não seria uma ideia ruim, se não fosse a realidade que milhares desses usuários vivem em periferias com violência diária do Estado. Não ter sensibilidade para reconhecer essa realidade nos mostra que, nesses 10 anos, por mais que a gente tenha conseguido trazer a favela pra marcha, esse ainda é um movimento que, em muitas cidades, referenda o ativismo de privilégio. Aquela mesma galera que bate panela da janela diz que é antirracista, mas – na prática – faz questão de preservar seus privilégios até mesmo na hora de se manifestar. Esse tipo de ativismo mata pessoas todos os dias, gente que finge mudar o mundo e não muda a si. Quem mora sozinho com varanda é a classe média branca, na periferia a maioria das pessoas mora com muita gente em casa, e se colocar pano de legalização na janela a polícia marca e volta quantas vezes quiser, porque na periferia não precisa de mandado para entrar na casa de nenhuma família.

 

Aqui no Recife a Marcha da Maconha não aderiu à ideia, assim como outras marchas do Brasil. Não encontramos contexto para propor uma ação como essa nossos territórios. Aqui no Recife junto outras marchas do Brasil, nós estimulamos quem puder a postar uma foto nas redes sociais e marcar as #MarchaDaMaconhaRecife #MarchaDaMaconhaEmQuarentenapela #LiberdadeÉumaquestaodesaude #VidasnasPrisoesImportam,. Essa é uma posição também da RENFA, Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas, organização que tenho orgulho de construir junto a outras mais de 200 mulheres do Brasil. Hoje é dia de lembrar que a luta antiproibicionista só existe com a luta antirracista, anticlassista e antipatriarcal. Qualquer projeto que não leve em conta essas questões estruturantes não está lutando pela liberdade de TODXS.

 

 

Ingrid Assunção Farias. Programa de Líderes Negras do Fundo Baobá para equidade racial. Ativista antiproibicionista, defensora dos direitos humanos, mãe, nordestina e feminista negra periférica


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Quarta-feira, 22 de abril de 2020
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