Sobre o documentário ‘Catadoras de luxo: Heroínas invisíveis’
Quarta-feira, 22 de abril de 2020

Sobre o documentário ‘Catadoras de luxo: Heroínas invisíveis’

Imagem: ‘Catadoras de luxo: Heroínas (in)visíveis’

 

Por Laíze Lantyer

 

O ato de Pilatos, governador romano da Judéia, se repete. Mas aqui o ato de “lavar as mãos” demonstra um ecocídio do planeta e, por consequência, de si. Isentar-se de culpa tem sido um hábito muito comum em muitas esferas do Poder. A população mundial, em especial a Brasileira, tem lavado as mãos diante da separação do lixo que produz. Essa tarefa árdua é atribuída às catadoras e aos catadores do país. A sua maioria mulheres. Se esse grupo essencial entrasse em greve o ecossistema entraria em colapso.  

 

Essas mulheres são tão ou mais invisíveis do que um vírus microscópico. Não estudaram medicina, enfermagem ou psicologia. Mas são tão heroínas quanto. Apesar da colaboração mundial no combate ao invisível, ainda prepondera certo grau de indiferença e analfabetismo ambiental da população. 

 

O ato de higienizar as mãos pode ser aparentemente simples para os que possuem saneamento básico ao seu redor. No entanto, em um país de dimensões gigantescas como o Brasil, a população de rua – em sua maioria sobreviventes da catação do nosso luxo – não possuem acesso à água potável e, portanto, enquanto para alguns “lavar as mãos” da consciência é um ato mecânico, para a massa cinzenta (in)visível lavar a mãos ainda é um verdadeiro desafio. 

 

Muitas vezes tentamos buscar justificar o injustificável: a falta de empatia planetária. O fato é que cada Brasileiro cidadão consumidor produz em média, e sozinho, mais de 1kg de lixo por dia. Todo esse lixo, fonte de renda das catadoras e catadores do país, já está ou estará potencialmente contaminado pelo vírus quando for depositado no aterro sanitário. Com os serviços de coleta seletiva suspensos diante dos riscos de contaminação do resíduo, as catadoras e os catadores perdem também a única forma de sustento. 

 

Atenção aos sinais de violência doméstica durante a pandemiaAtenção aos sinais de violência doméstica durante a pandemia

 

A nossa cegueira do (in)visível nos torna partícipes e cúmplices do processo de exploração que o sistema mantém essas mulheres e suas famílias em um universo paralelo em que só lhes resta o que nos sobra. E muitas vezes o que resta para o Outro é apenas o nosso silêncio e a nossa omissão. Mas o silêncio ou a omissão nos torna responsáveis pelo mal causado diante do bem que deixamos de fazer. E, de fato, “omitir ou silenciar, com certeza, não podem ser as ações previstas e efetivadas por instituições, governos e pessoas que tomam a democracia, a ética e a defesa de direitos como essenciais ao convívio…” (CAVALCANTI; SILVA. 2020, A-3). 

 

Tem uma frase de uma grande mulher, catadora, sem mestrado, nem doutorado, mas é sábia na arte de sorrir, de ouvir e, consequentemente, de conviver: “Quando tudo parece dar errado, acontecem coisas boas que não teriam acontecido se tudo tivesse dado certo!”. Sabemos que a nossa jornada juntos neste planeta é mais importante do que os nossos títulos. A lição de convivência virtual e presencial que estamos todos a enfrentar é de uma dimensão muito maior. O tempo é de oportunidade de aprendizado. 

 

Por isso, convidamos a todos para exercer o seu direito ao delírio em imaginar uma cidade lixo zero inclusiva de catadoras e catadores. Aproveitemos a quarentena para, sem sairmos dos nossos enclaves fortificados, assistirmos ao documentário Catadoras de Luxo: heroínas (in)visíveis e refletir sobre a invisibilidade do Outro. O Outro aqui representado por agentes ambientais controladores de um dos maiores disseminadores de doenças infecto contagiosas: o lixo.

 

O intuito é que as imagens e vozes dessas agentes ambientais possam servir de alerta, sensibilizar e educar analfabetos ambientais que vivem no luxo. Que saibamos aproveitar a lição do COVID como um convite ao olhar para dentro de todo o lixo interno que guardamos e que nos adoece a cada dia. 

 

O que nos falta é enxergar o (in)visível e o Outro com os olhos da Alma. 

 

 

Laíze Lantyer é mestra em Políticas Sociais e Cidadania pela Universidade Católica do Salvador (UCSal), especialista em Direito Ambiental pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Membro da Comissão de Meio Ambiente e Mediação da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/BA). Fundadora da Organização PEACE (Paz, Educação Ambiental e Consciência Ecológica). Embaixadora do Instituto Lixo Zero Brasil. Consultora e Auditora Lixo Zero. Advogada e Mediadora de conflitos socioambientais. Escritora e Roteirista de Histórias da Vida. 

 


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Quarta-feira, 22 de abril de 2020
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