Entre o poder e a paranoia
Sexta-feira, 24 de abril de 2020

Entre o poder e a paranoia

Imagem: Vincenzo Camuccini (Glasgow Museums Resource Centre – United Kingdom)

 

 

Por Gustavo Mendes França

 

Breve é a loucura; longo, o arrependimento – Friedrich Schiller

 

 

A paranoia ou a síndrome paranoide, termo utilizado principalmente pela Psicologia, consiste em um pensamento delirante, lúcido e sistemático, sem apresentar alucinações. O indivíduo paranóico, além de dispor de uma lógica própria, desenvolve uma desconfiança exagerada e injustificada sobre determinado ponto, sempre acreditando que algo ruim está prestes a atingi-lo. Muitos estadistas, muitos artistas, muitos civis, como eu e você, sofreram ou sofrem com a paranóia. E essa doença não é necessariamente uma teia maluca e gigantesca como a retratada na obra O Arco-Íris da Gravidade, de Thomas Pychon, mas sim algo mais direto, mais crítico, como no conto O coração delator, de Edgar Allan Poe, ou mais fantasioso, como em Dom Quixote de La Mancha, escrito pelo espanhol Miguel de Cervantes.

 

É sabido que inúmeros estadistas mundiais, imperadores e imperatrizes, reis e rainhas, espalharam sangue, ódio e terror pelo mundo. A lista de tiranos da história é imensa. E o que todos esses líderes têm em comum é, justamente, a mente adoecida e a realidade distorcida. Ou seja, é extremamente fácil transformar a paranóia em política e em ferramenta governamental. Pensamentos como “os comunistas são os inimigos”, “os judeus são os inimigos”, “os protestantes são os inimigos”, “o Papa é o inimigo”, “a Nasa é a inimiga”, “os extraterrestres são os inimigos”, caracterizam uma gravíssima síndrome paranoide, que pode resultar muitas vezes no chamado “efeito manada”.

 

No dia 16 de abril de 2020, em meio a uma terrível pandemia de Covid-19 e ante a uma economia arruinada e a sistemas de saúde, segurança e educação sucateados, o presidente da República Federativa do Brasil Jair Messias Bolsonaro conseguiu desencadear uma nova crise política ao declarar, em entrevista ao canal de notícias CNN Brasil, que o presidente do Congresso Nacional, Rodrigo Maia, estaria “conduzindo o Brasil para o caos” e “enfiando a faca no governo federal”.

 

“Eu lamento a posição do Rodrigo Maia, que resolveu assumir o papel do Executivo. Eu respeito ele, mas ele tem que me respeitar. Lamento a postura que ele vem tomando. Mas o sentimento que eu tenho é que ele não quer amenizar os problemas. Ele quer atacar o governo federal, enfiando a faca no governo federal. Parece que a intenção é me tirar do governo. Paulo Guedes não tem mais contato com Maia”, disse o presidente em entrevista para a CNN Brasil.¹

 

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Todo governante, todo príncipe, precisa e deve saber que ataques ao seu parlamento é um “tiro no próprio pé”. É beber veneno e desejar a morte do próximo. O político francês Charles-Louis de Secondat – mais conhecido como barão de Montesquieu – desenvolveu a teoria da tripartição dos poderes não para que houvesse intrigas, abusos de poder e disputas internas, mas para que a justiça, a harmonia e o equilíbrio reinassem acima de tudo e acima de todos. Como o próprio barão disse há três séculos: “uma injustiça que se faz a um é uma ameaça que se faz a todos”.

 

Parafraseando a mensagem, pode-se dizer que, em determinados contextos, um ataque que se faz a um é uma ameaça que se faz a todos. Bolsonaro, graças a sua infeliz declaração à CNN, conseguiu unir, de maneira inédita, o parlamento contra si. “Ele (Bolsonaro) conseguiu unir o Congresso, desde a oposição ao centro e todos os partidos condenam a sua fala”, afirma o advogado e político Efraim de Araújo Morais Filho (DEM-PB).²

 

No período do Renascimento Cultural, o diplomata florentino Nicolau Maquiavel, em O Príncipe, sua principal obra, define virtù como a capacidade de ascender ao poder e de se manter nesse poder, o que é fundamental para qualquer líder político. O pensador ainda afirma que não se pode contar apenas com a fortuna – com a sorte – porque a política, esse objeto abstrato e dinâmico, é um jogo com regras, mas sem lógica permanente. Porém, uma coisa é óbvia: aquele que atenta contra seus próprios alicerces, atenta contra si mesmo.

 

Há muito tempo, sob ordens do Senado Romano e da Guarda Pretoriana, Júlio César foi morto por 23 facadas, Calígula foi morto por mais de 30 facadas, Domiciano foi morto por inúmeras facadas, Cômodo foi morto por estrangulamento, Caracala foi morto por uma facada pelas costas e Heliogábalo foi decapitado; havendo todos eles sofrido damnatio memoriae (condenação da memória). Robespierre foi guilhotinado pela sua própria guilhotina sob ordens de sua própria república. Benito Mussolini e Luís XVI foram executados pelo seu povo. Savonarola foi queimado pela sua própria fogueira. Maria I da Inglaterra dormia com uma espada ao lado da cama por medo de ser destronada e Adolf Hitler e Napoleão Bonaparte chegaram a acreditar que dominariam o mundo. É como se a vida, realmente, imitasse a arte. Enfim, quase todos os tiranos paranóicos e sanguinários sofreram e foram engolidos pelos seus próprios poderes, pelo seu próprio Estado e pelo seu próprio povo, pelo seu próprio Leviatã.

 

O cerco está se fechando… e, aparentemente, Bolsonaro ainda não aprendeu nada com a História.

 

 

Gustavo Mendes França é estudante de Direito


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Notas:

[1] Bolsonaro diz que Maia ‘está conduzindo o Brasil para o caos’. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/brasil/bolsonaro-diz-que-maia-esta-conduzindo-brasil-para-caos-24376906> Acessado em 16/04/2020.

[2] Idem

Sexta-feira, 24 de abril de 2020
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