Rostinhos bonitinhos e civilizados da “nova oposição” não hesitarão em relativizar a barbárie
Terça-feira, 28 de abril de 2020

Rostinhos bonitinhos e civilizados da “nova oposição” não hesitarão em relativizar a barbárie

Imagem: Justificando

 

 

Por Alberto Luis Araújo Silva Filho

 

Com a exclusão das forças populares do campo político, a grande imprensa já deu o seu veredito:  a disputa legítima deve ser travada  entre a extrema direita pseudo nacionalista  e a direita moderada pseudo globalista. Em comum, o acordo pela eliminação dos direitos sociais e trabalhistas. 

 

 

No século passado, José Guilherme Merquior, um dos maiores e mais refinados intelectuais da direita brasileira, lança, já no leito de morte, um dos seus principais livros: “O Liberalismo Antigo e Moderno”. Nele, dois conceitos chamam atenção: o de liberalismo conservador e o de conservadorismo liberal. O que são paradoxos aparentes na verdade dizem respeito a grupos de filósofos do século XIX que se vinculavam a tradições específicas de pensamento que refletiam as transformações políticas daquele momento. Enquanto o liberalismo conservador estava mais ligado a uma burguesia emergente que desejava a modernização, mas mantendo alguns pilares sociais fundamentais intocados, o conservadorismo liberal concernia a uma aristocracia já decadente que desejava a manutenção da ordem, mas que aceitava mudanças graduais nos regimes político e econômico. Para quem não enxerga com as lentes do autor, que via ai dois campos absolutamente distintos, uma coisa em muito se parece com a outra: liberalismo conservador e conservadorismo liberal seriam irmãos gêmeos conceituais, embora um conservador e um liberal tenham diferenças importantes. Na prática, a hegemonia dessas duas correntes leva a uma ausência de alternativas que se reflete no domínio irrestrito dos negócios e das finanças de uma minoria em detrimento do bem-estar das maiorias.

 

O movimento operário e os partidos comunistas e social democratas surgiram historicamente como uma saída a essa inércia que coincide com a manutenção dos altos níveis de desigualdade e concentração de renda próprios ao capitalismo. A partir deles, foi possível produzir revoluções importantes, embora controversas, na Rússia e em todo Leste Europeu. Com eles, foi possível reivindicar e conquistar direitos importantes para aqueles que só podiam contar com a sua força de trabalho. Foi, por meio das “esquerdas”, que começaram a ser implantados sistemas de proteção social em alguns países europeus e que se tentou o mesmo mais recentemente em alguns países da América Latina. Nos últimos quarenta anos, entretanto, as possibilidades de reformismo tem minguado e esse processo vem tendo consequências tardias no nosso cenário político. Aqui, tal projeto passa ou pela invisibilidade das forças populares ou pelo derrotismo que implica na “guinada à direita”, a mesma que levou ao colapso o Partido Trabalhista Britânico na Inglaterra nos anos de 1990. 

 

Isso é visível quando se observam os últimos acontecimentos nacionais e a construção de uma narrativa – para dizer o mínimo “cretina” – em torno dos mesmos. De um lado, o presidente da República concretiza o apelido de República das Bananas dado ao nosso país em tempos longínquos. Dispensa maiores comentários quando o assunto é gerar instabilidades a partir de sua linguagem histriônica. Soma-se a isso o seu desprezo pelo tema da pandemia e o negacionismo que o influencia fortemente, em um momento em que os casos de infecção saem de controle no Brasil. De outro, a suposta oposição, as vozes da sensatez: João Dória, Wilson Witzel, Romeu Zema, Rodrigo Maia. Até Sérgio Moro, o herói do “verde-amarelismo”, se torna agora um crítico das práticas do bolsonarismo. Esses nomes, além de jornalistas reacionários como Vera Magalhães e Felipe Moura Brasil, criam um coro uníssono na oposição ao capitão da reserva. Mostram-se indignados, como se não o conhecessem muito bem antes do período eleitoral. Não creem que um chefe de Estado possa ter atitudes e comportamentos tão infantis, que não seja capaz de coordenar a nação com equilíbrio e “bom senso”. Sem isso, veem que o mesmo se mostra incapaz de implantar na integralidade as agendas de “combate à corrupção” e de “reforma do Estado”, pautas bem-intencionadas, mas que tem sido manipuladas a favor dos interesses de um establishment econômico.

 

O que todos esses nomes da “oposição respeitável” têm em comum? O anti petismo feroz que os fez chegar até aqui e as diferenças mínimas em relação a Jair Bolsonaro, que são mais de tom do que de agenda. A contraposição radical talvez esteja no fato de que a pauta “moral”, o armamentismo e a rejeição à globalização, típicas do olavismo, não sejam questões abraçadas pela direita moderada. De resto, nada mais parecido com a “cara” do que a “coroa”. A verdadeira oposição, a que tem feito um contraponto a substância do programa político vigente no governo federal, não possui sequer voz na imprensa nacional e ainda por cima carece de um sistema de comunicação tão sofisticado nas redes como é o da família Bolsonaro. 

 

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Com isso, explicações mais coerentes tem dificuldade para se impor diante da população. O que tem predominado são os discursos simplificados de celebração das hierarquias. Além disso, o campo progressista se mantém refém das práticas e decisões de lideranças como Lula e Ciro Gomes nas suas respectivas agremiações. A renovação, mesmo das práticas e proposições, é baixíssima. Algumas exceções tem se manifestado por meio dos deputados jovens do PSOL e da figura de Guilherme Boulos que dão ares de renovação. Entretanto, na vasta arena do lulismo, continua se investindo na estória dos 13 anos míticos de “crescimento econômico” e “expansão dos programas sociais”, como se as últimas décadas não tivessem sido eivadas de problemas fundamentais não discutidos que contribuíram para a situação presente que mais parece saída de uma pintura de Salvador Dali. O principal espaço da oposição é, então, ocupado por outra fração da direita, contribuindo assim para o rebaixamento generalizado das expectativas de transformação.

 

Importa dizer que em 2018, a coalizão que elegeu o atual mandatário não seria possível sem muitos dos nomes que hoje se opõem ao presidente. Criadores que passaram a ser vítimas do ódio da criatura porque não conseguiram coloca-la nas devidas jaulas de ferro. O ex-deputado do famigerado PP se mostrou incontrolável após a posse, com apetite de centralização total do poder, para surpresa daqueles que aspiravam ao cargo de ventríloquos, inclusive os militares. Hoje perdeu várias de suas pontes de apoio, mas continua firme em setores furiosos da população, muitos dos quais no interior dos aparatos de repressão, e chegou a dizer em uma das manifestações ocorridas durante o isolamento social: “Eu sou a Constituição”. Hoje os decepcionados com a esperança bolsonarista aspiram a outro cargo: o de verdadeiros oposicionistas, aqueles que podem romper com a dicotomia PT-Bolsonaro e propor uma saída para o país, mantendo o desmonte em curso.

 

Para isso se encontram respaldados pela editoria de jornalismo da Rede Globo, pela grande maioria da imprensa nacional e por alguns setores da esquerda brasileira que se encontram cada vez mais desesperançados com o avanço dos fatos e veem em algumas figuras do Congresso mediações mais fortes para frear a loucura que se instalou em Brasília. É preciso não esquecer que tais figuras continuam sendo inimigas ferozes de qualquer caminho mais progressista para a superação do momento bastante complexo pelo qual passa o país. Foram cúmplices das modificações constitucionais drásticas nos últimos anos, da deposição sem crime de responsabilidade da presidente Dilma Rousseff e da cassação contínua ao Partido dos Trabalhadores, que agora se materializa na arena da justiça eleitoral. Nesse sentido, o panorama político continua em fechamento e para 2022, os rostinhos bonitinhos e civilizados da “nova oposição” não hesitarão em relativizar a barbárie como o fizeram em época muito recente. 

 

 

Alberto Luis Araújo Silva Filho é mestrando em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB) e Bacharel em Ciência Política pela Universidade Federal do Piauí (UFPI)

 


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