“A quarentena tem sido um privilégio dos grupos mais abastados”
Quinta-feira, 30 de abril de 2020

“A quarentena tem sido um privilégio dos grupos mais abastados”

Imagem: Tânia Rêgo / Agência Brasil

 

Por Leonardo Freire Marino

 

Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva. É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro.

Mia Couto, Terra Sonâmbula, 2015.

 

Crises como a que vivemos não representam uma novidade na longa história humana. Foram diversos os momentos que nos deparamos com desafios impostos por germes, vírus e catástrofes naturais. Periodicamente, a natureza nos impõem limites e aponta a necessidade de mudanças em nossos padrões de vida. O cenário atual representa um desses momentos. Vivemos um período de rupturas, um tempo de quebra de paradigmas e de abalo das chamadas verdades absolutas. Esta tem sido a marca dos nossos dias. 

 

A instabilidade provocada por um mundo que ainda não se consolidou, gera o medo, a angustia e estimula a busca por explicações e respostas para os processos que ainda estamos vivenciando. Na busca por um sentido explicativo, é comum o aparecimento de comparações com eventos pretéritos, assim como, a formulação de panoramas futuros. No entanto, diversas vezes, tais comparações e extrapolações não são capazes de produzir explicações ou cenários futuros consistentes, ampliando nossas angustias e medos. Neste sentido, não me imponho o desafio de apresentar comparações com eventos passados ou extrapolar as ideias em formulações que busquem prever como será o mundo em um futuro próximo. Procuro apenas organizar algumas linhas a respeito do presente. Faço um convite ao leitor para que, parafraseando Friedrich Nietzsche: encare o abismo que nos encontramos e pense em possíveis formas de sairmos dele.

 

A pandemia tem gerado grandes instabilidades sociais e econômicas, sendo sentida de forma aguda pela população mundial. Porém, ao contrário do que em alguns momentos foi propagado, a epidemia não igualou as classes sociais, ela não atinge a todos da mesma forma. É inegável que em momentos mais extremos da contaminação, marcado pelo colapso dos sistemas de saúde, a diferença de renda não representa uma garantia de vida para os mais ricos ou de determinação da morte para os mais pobres. No entanto, os recortes de renda e racial têm sido determinantes para o aumento das taxas de letalidade em diversos países. 

 

Este é o caso da realidade encontrada nos Estados Unidos. Neste país, o recorte racial constitui um fator determinante na consolidação do perfil das principais vítimas do Covid-19. O que é evidenciado na cidade de Chicago, onde os negros representam 30% do total de habitantes, e correspondem a 70% dos óbitos provocados pelo vírus. O mesmo ocorre em outras cidades dos Estados Unidos, onde, paradoxalmente, as populações negras constituem minorias e as principais vítimas do vírus. Este impacto desproporcional, demonstra as discrepâncias raciais presentes no acesso a saúde existente neste país. Por outro lado, historicamente, as minorias étnicas são as mais pobres, as mais renegadas do acesso aos meios de ascensão social, aspecto que consolida o perfil predominante entre os mortos pela pandemia nos Estados Unidos, sendo em sua maioria negros e pobres.  

 

No Brasil, as angustiantes filas de regularização dos CPF’s, condição necessária para receber a ajuda financeira do governo, exemplifica a vulnerabilidade extrema vivenciada por um número considerável de pessoas. A pandemia não produziu a vulnerabilidade dessa população, ela é fruto de uma longa história de desprezo pela vida de cidadãos considerados como descartáveis e excedentes. No entanto, a pandemia tem servido para desvelar nossas contradições sociais, deslocando o olhar de muitos indivíduos para grupos que estavam vivendo encobertos por uma penumbra, que escondia sua condição de miseráveis.  

 

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Ao contrário da realidade vivenciada nos Estados Unidos, onde a saúde pública praticamente inexiste, contamos com um Sistema de Saúde mais estruturado e que pretende ser universal. No entanto, sabemos que o Sistema Único de Saúde (SUS) não funciona bem a décadas. As dolorosas imagens de enfermarias superlotadas, com doentes espalhados por corredores, a falta de insumos básicos e a estressante rotina de trabalho de muitos profissionais, não constituem uma novidade. Não são produtos do momento atual, frutos da pandemia. Mas, o resultado do desprezo pela vida das camadas mais empobrecidas. A morte indigna, marcada pela ausência de socorro, não representa uma novidade, ou uma consequência do coronavírus. Seu aguçamento sim, mas não sua origem.

 

Ao chamarmos atenção para a histórica ineficiência do SUS em prover uma assistência de qualidade para a população brasileira, não determinamos seu abandono. Pelo contrário, entendemos a sua existência, especialmente, pelo seu caráter universal, como fundamental, um avanço da sociedade brasileira e uma das mais significativas estruturas do governo, capaz de atenuar o número de vítimas do Covid-19. Portanto, sua defesa é essencial neste momento. Todavia, a defesa do sistema não esconde a necessidade de que o mesmo passe por modificações, é imprescindível que haja uma maior eficiência e um melhor atendimento dos indivíduos que procuram o SUS. 

 

No entanto, a complexidade social brasileira nos impõe uma outra questão. No início da pandemia, foi amplamente divulgado que a maior parte dos óbitos se concentravam na faixa etária superior a 60 anos. Essa informação não é incorreta, este tem sido o padrão de letalidade em diversos países. A elevada presença de idosos, por exemplo, é apontada como a principal explicação para o elevado número de óbitos na Itália. No entanto, de acordo com o estudo conduzido pelo geógrafo e cientista de dados Ronnie Aldrin Silva, intitulado ‘Vulnerabilidade das cidades brasileiras ao Coronavirus’, divulgado pela Fundação Perseu Abramo e disponível na rede mundial de computadores, a forte presença de idosos não constitui a única causa para o crescimento do número de óbitos. De acordo com seus dados, os municípios brasileiros mais vulneráveis ao Covid-19, carregam as marcas da desigualdade, apresentando elevados índices de pobreza, um grande número de trabalhadores informais e de habitações precárias e insalubres localizadas em favelas. 

 

A vulnerabilidade social e econômica tem sido determinante para o crescimento dos óbitos por Covid-19 no Brasil. As habitações de tamanho reduzido, densamente ocupadas e construídas próximas umas das outras, características das favelas e periferias brasileiras, não permite o estabelecimento das medidas de distanciamento social, e a informalidade não admite que a quarentena constitua uma possibilidade real para seus habitantes. Os mais pobres continuam trabalhando, sobretudo, para garantir que as populações mais abastadas cumpram a quarentena. É esse o caso dos entregadores de aplicativos, dos faxineiros, porteiros de prédios e de diversos outros profissionais que continuam desempenhando suas atividades para que as camadas mais abastadas permaneçam em casa. É igualmente o caso dos operários e costureiros, profissionais que atuam nas cadeias de produção de respiradores e máscaras, muitas vezes, fabricados em condições insalubres e abusivas. 

 

A quarentena não tem sido um direito socialmente compartilhado, mas um privilégio dos grupos mais abastados. As camadas mais empobrecidas não podem ficar em casa, uma vez que precisam estar nas ruas buscando a renda necessária para garantir a sua sobrevivência. A disseminação do coronavírus gera o medo em todos os estratos sociais, mas as condições de contágio, determinantes para a elevação do número óbitos, não são socialmente compartilhadas, atingindo, principalmente, os estratos sociais mais pobres e vulneráveis.

 

Na cidade do Rio de Janeiro, a espacialização dos dados permite visualizarmos a geografia de nosso abismo. Mesmo que tais dados sofram alterações constantes, diárias, as primeiras informações apontam para um cenário que reforça a descrição registrada anteriormente. O maior número de pessoas contaminadas se concentra nos bairros mais abastados da cidade – Barra da Tijuca, Leblon e Copacabana. Bairros em que a população conta com uma melhor cobertura hospitalar, determinada pelo acesso a saúde privada. Nestes locais, por intermédio de testagens realizadas, em sua maioria, em laboratórios particulares, a disseminação da epidemia tem sido comprovada e os procedimentos médicos podem ser estabelecidos de maneira mais efetiva, garantindo uma maior probabilidade de recuperação dos indivíduos infectados. No extremo oposto, nas periferias, bairros empobrecidos e favelas, o número total de registros tem sido menor, uma vez que as testagens não têm sido realizadas em todos os indivíduos que apresentam sintomas de Covid-19. Fato que ocorre até mesmo com os indivíduos que procuram as emergências em estado grave. A insuficiência de testes na rede pública, determina o retardo nos processos de tratamento, aspecto que evidencia a precarização das estruturas de saúde pública existentes nestas regiões, e reduz as probabilidades de cura. Este é o caso de alguns bairros da zona oeste da cidade, sobretudo, Campo Grande, Bangu e Realengo, que apresentam 1/3 do número de casos registrados na cidade e as maiores taxas de letalidade no conjunto de bairros. 

 

O cenário de contágio e de óbitos produzirá um número incontável de mortos, traumas imensos e o agravamento de diversos problemas sociais. O coronavírus não será a última pandemia a nos assombrar, incontáveis outras podem surgir ou ressurgir nos próximos anos e décadas. Mas, as crises também carregam um forte potencial transformador. Crises, como a atual, carregam em seu âmago uma potência capaz de abalar estruturas consolidadas e de estabelecer profundas mudanças sociais, econômicas e culturais. O futuro está em aberto, como sempre esteve. Entretanto, agora a espessa penumbra que cobria os mais empobrecidos está se dissipando, permitido olharmos melhor as suas vulnerabilidades. É preciso aproveitar este momento para construir as bases de um amplo processo de transformação social, encarando o abismo e apontando os caminhos necessários para sairmos dele. Para isso, entre tantos outros aspectos, é fundamental discutirmos com seriedade a construção de um sistema público de saúde que seja universal, mas também eficiente. Assim como, é preciso estabelecermos as bases para uma renda mínima universal e de formas de garantir a dignidade social e laboral para vastos segmentos sociais. Sem que este debate seja elaborado de forma consistente, o futuro não será diferente do presente, talvez ele seja até mais nebuloso e o abismo passe a ser ainda mais profundo. Mas, elaborar cenário futuro não representa o objetivo deste texto.

 

 

Leonardo Freire Marino é doutor em Geografia pela UFF e professor adjunto da UERJ, onde integra o Grupo de Pesquisa Geografia História e Política desenvolvendo estudos e pesquisas sobre violência e educação.


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