Os homens negros e suas máscaras
Segunda-feira, 4 de maio de 2020

Os homens negros e suas máscaras

Imagem: Reprodução – Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Jeane Saskya Campos Tavares

 

O uso de máscaras pela população começa a ser adotado em várias cidades a fim de diminuir a contaminação pelo COVID 19. No entanto, esta medida pode aumentar a frequência de ataques racistas e o risco morte por violência na população negra.

 

 

Este pode ser um motivo importante para que, principalmente homens negros, não queiram usá-las. Neste sentido, é necessário considerar o racismo que estrutura nossa sociedade na análise das repercussões da pandemia para não responsabilizarmos indivíduos e populações específicas por não aderirem às orientações de prevenção, quando cumprir estas orientações não é possível ou gera maiores riscos que a doença.

 

Enquanto imagens de pessoas brancas e asiáticas usando máscaras cirúrgicas são associadas ao cuidado com a saúde, pessoas com máscaras caseiras, camisas, lenços/bandanas no rosto são comumente associadas à criminalidade e representadas como perigosas no jornalismo, cinema, TV e artes em geral. Se essa pessoa é um homem negro, a associação é ainda mais forte pois faz imaginário nacional a representação deste homem como agressivo, violento e essencialmente perigoso. 

 

Homens negros, desde a infância, são sistematicamente submetidos a esquadrinhamento por agentes de segurança de acordo com seu deslocamento pelas cidades. Cada vez em que são abordados para “averiguação” ao longo do dia é uma possibilidade de morte ou encarceramento que se apresenta. A percepção de estar continuamente em risco produz um estado de alerta permanente que pode gerar adoecimento físico crônico. Conviver com o risco de ser assassinado ou acusado por um crime a qualquer momento, ter dificuldade de acesso a direitos de cidadania, sofrer agressões físicas e verbais diárias, a solidão, a desesperança, os ataques a sua identidade racial relacionam-se com quadros de depressão, ansiedade e tentativas de suicídio/exposição ao risco de morte. 

 

No contexto da COVID 19, o não reconhecimento facial imediato produzido pelo uso de máscara soma-se ao risco cotidiano de ter o guarda-chuva, celular, carteira ou qualquer objeto “confundido” com uma arma e ser alvejado sem qualquer chance de defesa. Como não pode permanecer em isolamento, este homem negro e mascarado ao se deslocar será suspeito preferencial de crimes, sofrerá humilhações públicas, revistas ilegais e vexatórias. Podemos esperar mais medo, ansiedade e raiva pelas inúmeras vezes em que receberá ordens para mostrar o rosto para reconhecimento, em que será perseguido e abordado em mercados e farmácias, em que perceberá os olhares de julgamento de desconhecidos.  

 

Em outro sentido, também cruel, podemos esperar que ele sofra mais agressões raciais em forma de risos e piadas que remetem o uso da máscara à marginalidade ou sua estética “inadequada”. Estes ataques são especialmente covardes porque não são reconhecidos como racismo e reavivam lembranças de experiências dolorosas que sofremos, principalmente, na infância e adolescência. 

 

Os profissionais de saúde e gestores municipais/ estaduais devem considerar, portanto, a dificuldade adicional do uso da máscara pela população negra. É preciso orientar a população em geral sobre como o racismo pode gerar mais violência nas relações interpessoais durante a crise, pessoas negras devem ser representadas nas campanhas de prevenção e associadas à saúde e cuidado, estas campanhas precisam abordar o estresse adicional deste período nos contatos sociais, nos estabelecimentos comerciais e as repercussões de acusar uma pessoa de ter cometido um crime por engano.  Em relação aos agentes de segurança, importante haver treinamento sobre racismo estrutural e o medo/ansiedade gerados no contexto da COVID 19, principalmente na interação durante as operações. 

 

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Dirijo-me agora aos leitores negros. 

 

Ouvi de homens negros que é melhor “arriscar com o COVID 19, que ter a certeza da bala” e eles têm razão. Nossa história nos mostra que homens negros têm sido assassinados, acusados e encarcerados por qualquer motivo banal. 

 

Seu medo de cobrir o rosto é justo e só você sabe o quanto passar por essas experiencias de discriminação e injustiça geram ansiedade e raiva. É cruel e terrível ter que escolher entre se proteger de uma doença, sofrer violência ou morrer.  Você tem razão também em relação ao desconforto físico que a máscara produz enquanto trabalha ou anda pela rua (esquenta, embaça os óculos, dificulta respiração, incomoda de várias formas), ficar em ambiente com ar condicionado e se deslocar de carro muitas vezes não são opções.  

 

No entanto, estamos em crise e precisamos ficar atentos e vivos pois qualquer ato pode ser utilizado como justificativa para violência. Infelizmente, as dicas de cuidados a seguir não são garantia de proteção total, mas em outros países algumas dessas orientações têm sido discutidas como possibilidades de diminuir os riscos de violência pelo uso de máscaras:

 

  1. Se, por qualquer razão, você tiver acesso a máscaras industrializadas descartáveis prefira essas. Elas são associadas à saúde não à criminalidade;
  2. Alie-se aos movimentos comunitários de apoio, ajude sua comunidade e use as máscaras distribuídas localmente. É importante que se identifique rapidamente que você faz parte deste território;     
  3. Evite lenços, bandanas e camisas amarradas no rosto;
  4. Evite esconder ainda mais seu rosto. Não é aconselhável usar tecidos de cores escuras ou cabelo no rosto/boné/capuz que impossibilite sua identificação imediata e dê margem à violência letal; 
  5. É importante que a sua máscara seja “inconfundível”, ela não deve atrair atenção indesejável para você. Evite, por exemplo, estampas e associadas no seu contexto a filiação aos grupos em conflito, imagens que remetem à morte e violência. Avalie os riscos!
  6. Não preste atenção nas brincadeiras e piadas de outros homens. O machismo mata muitos homens que acreditam que se proteger é coisa de gente fraca. Você vai adoecer e morrer para provar que é forte? É sério?    
  7. Tenha várias máscaras e, se puder, tente inseri-las aos poucos na sua rotina. Quanto mais você usar, mais rápido vai se acostumar; 
  8. Se você é vaidoso, invista na máscara como parte do seu guarda roupa, você tem estilo e vai ficar lindo;
  9. Se sua máscara é caseira, ou seja, não é descartável, você vai precisar trocar a cada 2 horas ou se molhar, ponha alarme no celular, tire sempre pelo elástico ou pelas alças e guarde numa sacola plástica para lavar quando chegar em casa;
  10. A máscara é sua, não deixe outra pessoa usar;  

 

A mais importante dica que posso te dar é: sua vida importa e merece ser protegida. Muitas vezes não nos protegemos porque o racismo nos ensina que não valemos a pena, pensamos que todo esse esforço é inútil porque morreremos de qualquer jeito e que se cuidar é só um trabalho a mais. Essa é uma mentira criada na escravização e é uma forma de fazer com que aceitemos que continuem nos matando.

 

Sua vida importa, nossas vidas importam, proteja-se e seguiremos juntos!

 

 

Jeane Saskya Campos Tavares é Psicóloga. Doutora em Saúde Pública (Instituto de Saúde Coletiva UFBA). Docente da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 


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Referências:

  • Almeida, s. O que é racismo estrutural? Belo Horizonte: Editora Letramento., 2018 
  • Anunciação, Diana, Trad, Leny Alves Bonfim, & Ferreira, Tiago. (2020). “Mão na cabeça!”: abordagem policial, racismo e violência estrutural entre jovens negros de três capitais do Nordeste. Saúde e Sociedade29(1), e190271. Epub March 16, 2020.https://doi.org/10.1590/s0104-12902020190271
  • Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa. Departamento de Apoio à Gestão Participativa e ao Controle Social. Óbitos por suicídio entre adolescentes e jovens negros 2012 a 2016 / Ministério da Saúde, Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa, Departamento de Apoio à Gestão Participativa e ao Controle Social. Universidade de Brasília, Observatório de Saúde de Populações em Vulnerabilidade – Brasília : Ministério da Saúde, 2018.
  • Damasceno, Marizete Gouveia, Zanello, Valeska M. Loyola. Saúde Mental e Racismo Contra Negros: Produção Bibliográfica Brasileira dos Últimos Quinze Anos. Psicologia: Ciência e Profissão, 38(3), 450-464, 2018. https://dx.doi.org/10.1590/1982-37030003262017
  • Moreira, Adilson.  Racismo recreativo. São Paulo:  Sueli Carneiro. Pólen, 2019.
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