Por que não conseguimos conversar com um bolsonarista?
Segunda-feira, 4 de maio de 2020

Por que não conseguimos conversar com um bolsonarista?

Imagem: Marcelo Camargo / Agência Brasil – Edição: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Martel Alexandre Del Colle

 

A cada dia mais pessoas começam a sentir que parece impossível conversar com um bolsonarista.

 

Apesar de a esmagadora maioria dos infectologistas afirmarem que precisamos de isolamento social, os apoiadores de Bolsonaro insistem em ignorar esses fatos e apoiam o presidente. Toda a vez que um membro que apoiava o Bolsonaro pula fora do governo ele se transforma de herói em vilão. Não importam as denúncias, não importam as ações, não importa a apologia à violência ou à tortura. Quando fica nítido que ele mentiu, os bolsonaristas arranjam um jeito de dizer que não era bem isso que ele queria dizer. Quando ele é acusado de conclamar seus súditos para uma manifestação contra o congresso, ele apaga alguns vídeos, diz que nunca falou em fechamento de congresso e os súditos não enxergam nenhuma contradição. Quando o acusam de interferência na PF, ele faz um pronunciamento confirmando que interferia na PF, mas e daí? Quando ele tem falas preconceituosas e que propagam o ódio, os bolsonaristas dizem que ele é cristão e citam o velho testamento para justificar a violência. Quando fazem imagens que comparam Bolsonaro a Jesus, os súditos acham que não tem nenhum problema. Quando ele indica a família ou assassinos para cargos, eles esquecem das desconfianças que levantavam quanto ao filho do Lula e afirmam que não dá para provar que aqueles homens eram assassinos e que a tal da Marielle não devia ser santa. Quando um jornal denuncia o Bolsonaro, os bolsonaristas afirmam que aquele jornal não tem credibilidade, pois ele é de esquerda. E é de esquerda porque denunciou o Bolsonaro. Não interessa se a notícia é verdadeira.

 

Passei um bom tempo pensando no que estava acontecendo. Como as pessoas poderiam estar tão cegas? Existe uma explicação para isso? Sim, existe. E ela passa por dois conceitos: Seita e Alodoxia.

 

Bolsonaro criou em torno de si uma seita, um culto à sua personalidade. Conforme nos explica o professor Robert Jay Lifton, uma seita destrutiva possui três características: Um líder carismático, Persuasão coercitiva ou reforma de pensamento (lavagem cerebral) e exploração dos membros do grupo (sexual, monetária, psicológica etc.).

 

Começando com o líder carismático:

Um líder de seita demanda que ele seja o centro das atenções. Bolsonaro faz isso frequentemente. Ele mostra que ele é o líder, chegou a se autointitular “líder supremo”. Ele faz questão de se colocar como a figura que lidera, que é insubstituível.

 

Um líder de seita busca formas de estar sempre aparecendo. Bolsonaro ia constantemente a emissoras de televisão e rádio. Ele não via problema em argumentar sobre um assunto o qual ele não tinha nenhum conhecimento. E buscava sempre dizer absurdos para que estes fossem distribuídos nas redes sociais por pessoas que ficavam atônitas com as asneiras e agressões que ele proferia. Ele chamou um humorista para imitá-lo para que isso fosse divulgado em todo o Brasil. Ele nega a pandemia para que ele apareça para todo o mundo.

 

Um líder de seita busca justificar sua autoridade por uma conexão com o divino. Bolsonaro não vê problema em ser comparado a Jesus, ao “Messias”. Ele busca ser visto como o salvador, como o guerreiro puro contra o pecado. Como disse acima, ele afirma ser o líder supremo. Alguém que pode agir da mesma maneira que outros políticos agiam e se tornavam alvos do bolsonarismo, pois ele é diferente, é divino. Ele procura sempre colocar Deus em seus discursos como forma de dizer-se conectado. Procura líderes religiosos que o coloquem como o escolhido, o redentor, o sagrado. Bolsonaro é a hierofania. 

 

Um líder de seita coloca as suas próprias necessidades acima de tudo e todos. Bolsonaro queria ser presidente mesmo não tendo capacidade. Mesmo que isso levasse à morte de muitas pessoas, ao colapso econômico e à crise política. Não importa, desde que ele seja o líder. Ele precisa de pessoas que lhe devam adoração em setores estratégicos, mesmo que isso seja absurdo e coloque em suspeição tais órgãos.

 

Um líder de seita é inconstante e tem uma personalidade diferente. Como o líder precisa aparecer ele desenvolve uma personalidade diferente. Ele procura ser inconstante para que as pessoas não se apeguem à dogmas, mas à sua figura. Ele um dia promete que o ministro da justiça terá livre comando e no outro decide demitir um dos membros de um cargo que está subordinado ao tal ministro. Com isso, a verdade se torna o próprio Bolsonaro. E todo aquele que é contrário a ele é pecador, no caso, comunista.

 

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Quanto a persuasão coercitiva ou reforma de pensamento (lavagem cerebral):

Um líder de seita faz com que o pensamento do súdito seja abominável para ele mesmo. Toda a vez que um fiel pensa em questionar, ele é tomado pelo medo. Medo de ser expulso, de ser marcado como comunista. Logo, é melhor não pensar. Jamais um devoto pode pensar que o líder pode estar errado. Para isso, ele é bombardeado emocionalmente constantemente. Os termos são polarizados, uma simples dicotomia, bons e maus, fiéis e infiéis, santificados e condenados. As emoções – ódio, raiva, rancor – são utilizadas para que a empatia seja anulada. E para aumentar a tensão, todo o fiel que sai da seita é tachado de traidor, comunista. Um perverso que se escondia, disfarçava sua verdadeira face que agora é revelada pela sabedoria do líder.

 

Um líder de seita busca pessoas que estão vulneráveis. Para que essas pessoas estejam dispostas a sacrificar sua ética, sua moral, suas famílias, o chefe busca pessoas que estejam sensibilizadas, perdidas, enfraquecidas, confusas. Aqui entra a Alodoxia, mas deixarei ela mais para o final.

 

Um líder de seita tenta refazer a imagem dos súditos. Apagando a imagem dos súditos ele consegue apagar o passado desse súdito, quebrar seus laços de amizade e família, apagar os seus antigos conceitos e encher o fiel com a sua nova lógica de adoração ao líder. A mudança aqui acontece através da exigência da uniformização (camiseta da CBF amarela), do olho com a bandeira do Brasil chorando, do uso das cores usurpadas pela seita.

 

Um líder de seita escraviza seus súditos. Bolsonaro faz com que seus súditos fiquem pensando nele durante quase 24 horas por dia. Através de suas falas absurdas, o fiel tem de estar sempre em vigilância para que seus pensamentos não o traiam, para que ele não seja contaminado pelo “comunismo”. Ele precisa trabalhar para o líder, mandando mensagens de apoio bolsonarista em todas as redes sociais, respondendo a todos os que questionarem a pureza de seu líder. O líder precisa se tornar o centro e o motivo de existir do súdito.

 

Quanto a exploração dos membros do grupo (sexual, monetária, psicológica etc.):

Um líder de seita faz com que seus súditos trabalhem para ele de graça. Quem não se lembra de quando Bolsonaro ficou suspeito de organizar grupos de bombardeamento de mensagens e de perfis falsos? O que aconteceu depois? Vários súditos foram às redes indignados dizendo que eles mandavam as mensagens de Bolsonaro de graça, que eles faziam trabalho político para Bolsonaro de graça, que eles eram robôs de Bolsonaro. A seita bolsonarista exige que seus fiéis façam carreatas, passeatas, marchas de apoio com uma frequência nunca vista no país. O súdito é explorado financeiramente para o agrado do líder.

 

Um líder de seita exige sacrifícios dos seus fiéis. Além dos sacrifícios financeiros, Bolsonaro pede aos seus súditos que sacrifiquem os idosos, os comunistas, os doentes. Durante a pandemia, Bolsonaro insistiu no retorno das atividades econômicas mesmo que isso significasse que muitas pessoas morreriam. Os súditos bolsonaristas começaram a dizer que só morreriam idosos e pessoas com comorbidades. Como se essas vidas fossem descartáveis. Ele faz falas de apoio ao extermínio de certos grupos (vamos fuzilar a petezada aqui do Acre) e pede o sacrifício da humanidade de seus súditos. Tudo pode ser sacrificado, se o líder pedir.

 

Um líder de seita exige que seus súditos se desconectem do mundo. Enquanto o mundo encara com seriedade a pandemia de Sars-Cov2, Bolsonaro exige que seus súditos considerassem a doença apenas uma gripezinha. Quando a esmagadora maioria dos especialistas afirma que a situação é grave e exige colaboração, Bolsonaro faz com que seus fiéis se desconectem do mundo e vejam qualquer forma de humanidade ou colaboração como a invasão do “comunavírus”. O membro da seita precisa ser mau com todos os que não são membros, precisa vê-los como inimigos, jamais poderá ouvi-los ou colaborar com eles.

 

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Como ele consegue tudo isso? Ele entrega aos súditos algo muito importante. Ele entrega um propósito. O fiel deixa de ser alguém que vive as dúvidas da existência para ser alguém que só tem certezas. O propósito de vida se torna a destruição do comunismo para salvar a família, os valores cristãos e o mundo. Todos nós queremos um propósito de vida, mas a vida é complexa e cheia de incertezas. As seitas encontram espaços justamente por isso. Porque elas simplificam a vida, mesmo que seja com mentiras.

 

Vamos agora à Alodoxia. O sociólogo Pierre Bourdieu descreve alodoxia como o jeito de agir e pensar que mistura diferentes campos, mergulhando um campo no outro. Em seus textos sobre a televisão (publicados no Brasil pela editora Zahar), Bourdieu explica que o campo da televisão se derrama sobre outros campos para criar uma estrutura que se justifica e se apodera dos debates de outros campos.

 

Do que uma mídia precisa para sobreviver, para vencer no campo das mídias? Patrocínios. E o que atrai os patrocinadores? Visualizações. As estruturas e superestruturas do campo midiático levam as mídias a comportamentos semelhantes, comportamentos que se tornam regras do jogo dentro do campo. Uma das regras é que uma mídia não pode ficar atrás de outra se quiser vencer. Ela precisa ser a primeira a apresentar o furo de notícia. Se ela não consegue o furo, então deve conseguir algo inédito naquele cenário. E se não conseguir nada disso, ela precisa no mínimo reproduzir o mesmo que as outras mídias estão reproduzindo o mais breve possível. Isso leva ao fenômeno de homogeneização da mídia. As novas tecnologias permitem que a mídia seja homogênea e ao mesmo tempo direcionada à certo público. A contradição vira a regra. As mídias são homogêneas dentro de seus campos ideológicos. Um membro da seita bolsonarista, por exemplo, se alimenta da Jovem Pan, da Record e da Globo, além dos grupos de facebook, whatsapp etc. 

 

Essa homogeneização direcionada é outra característica que é empurrada pela estrutura do campo. Para manter as visualizações é precisa gerar consenso, através da informação dócil, no espectador. Isso quer dizer que a mídia direcionada para um certo grupo não deve gerar reflexão, não deve mostrar outros pontos de vista, ela deve gerar consenso. Ela deve simplificar temas complexos, partindo do princípio de que o espectador é incapaz de entender e refletir sobre informações complexas. Disfarçando o consenso atrás de uma cortina de objetividade, ne neutralidade. Assim, todos os defensores de uma ideologia enxergam suas visões como óbvias e as visões de outra ideologia como absurdas. Divergência que não vem do debate, mas devido aos axiomas que carrega.

 

Por fim, a mídia precisa se autointitular a detentora da verdade. Não adianta uma mídia trazer consenso sobre economia se essa não é vista como uma referência de campo. Para isso, as mídias utilizam seu poder de propagar para invadir outros campos e realizar uma troca. A mídia entrega visualizações e os membros do campo que aceitam esse preço entregam legitimidade a mídia.

 

Então um economista vai a mídia, um comentarista genérico vai a mídia e fala com a autoridade do seu campo. Campo econômico, científico etc. E aí está o problema. Os escolhidos dos campos específicos para gerar consenso através da mídia não são os membros do campo que são reconhecidos dentro do campo, pois esses geralmente têm reflexões complexas. Geralmente, os que aceitam derramar simplificações nas mídias são aqueles que não conseguem reconhecimento em seus próprios campos e então procuram as mídias como uma outra forma de conseguir reconhecimento.

 

Isso faz com que o consenso do campo não seja o consenso apresentado pela mídia. E o que pode parecer inofensivo tem consequências desastrosas. Na economia, o consenso midiático afirma que a economia de um país é semelhante a economia de uma casa. Já o consenso econômico dentro do campo econômico não concorda em absoluto com essa afirmação. No campo jurídico, o consenso midiático é que o ativismo judicial deve ser a regra e que o juiz deve julgar baseado na opinião popular externada pela mídia (que é outro consenso que não é consenso de campo necessariamente). Já o consenso do campo jurídico é que o judiciário deve ser um campo independente da opinião popular do momento e que os ordenamentos devem ser respeitados e o ativismo judicial só é bem-vindo quando para garantir uma interpretação extensiva de uma cláusula maior ou pétrea.

 

O consenso midiático leva a população a entender a complexidade dos campos de maneira simplificada, já que não há debate, não há contraditório, só há consenso. E como a mídia tira o peso do consenso do campo para gerar o seu próprio consenso, o campo específico acaba perdendo seu poder de gerar mudanças no mundo. Essa estrutura, quando elevada a máxima potência abre caminho para as seitas. Pois já que o consenso do campo econômico pode ser questionado por qualquer “especialista”, então por que o consenso do campo dos infectologistas não pode? Se a opinião do Paulo Guedes vale o mesmo que a do Shaik, do Keynes, então por que a opinião do Bolsonaro não pode valer o mesmo que a do campo científico?

 

A docilidade criada pela mídia abriu espaço para a simplificação do pensamento. Para a crença de que todos os campos são fáceis e que basta uma analogia para que uma pessoa se torne especialista. Não somos todos agora especialistas em economia? Não podemos agora falar que o livre mercado é o ideal sem nunca termos estudado o tema? Então por que as simplificações do Bolsonaro estão erradas?

 

A estrutura da mídia brasileira criou o espaço para o desenvolvimento da seita bolsonarista. E a principal responsável por isso foi a rede Globo que usou do seu poder de consenso para dirigir a população para as agendas dos seus investidores. Como a agenda vendida não apresentou os resultados esperados, pois eram mentiras, a população perdeu o consenso dos campos “´puros” e perdeu o consenso de mídia por achá-lo mentiroso (isso gerou clichês como “rede esgoto” e outros). Sem um norte, as pessoas começaram a procurar sentido, mas o sentido dos campos puros era muito complexo para uma população acostumada a simplificação. Até que apareceu o messias com suas simplificações – preso nem é gente, bandido bom é bandido morto, fora comunismo, livre mercado é a solução. E aí as mídias ficaram assustadas e surpresas, como se nada tivessem a ver com isso.

 

E até agora elas não entenderam suas responsabilidades e não entenderam que apenas fingir que nada está acontecendo e mudar os seus consensos dóceis não vai funcionar.

 

O que retira alguém de uma seita é o conhecimento da estrutura de uma seita, o que retira alguém de conceitos simplificadores é a complexidade. Portanto, a realidade brasileira só irá mudar quando entendermos que os campos são complexos. E a mídia pode ajudar nessa mudança se esforçando para acabar com a simplificação dos consensos e dando espaço para o consenso dos campos puros e não para oportunistas do campo.

 

Nesses tempos de caos, eu recomendo os seguintes especialistas de campo: Eduardo Moreira, Paulo Gala, Monica de Bolle, Laura Carvalho e Gabriela Prioli. Outro comentarista mais à direita que tem feito um bom trabalho, apesar das diferenças ideológicas, mas que tem buscado informações de campo puro é o Reinaldo Azevedo. Não precisamos concordar com o que eles dizem, mas precisamos ouvir mais dos campos para que consigamos gerar nossas próprias conclusões. E quando a complexidade não permitir, então precisamos ouvir o consenso do campo puro. E se não concordamos com o consenso, então devemos nos aprofundar no tema para desafiar o consenso do campo puro e trazer um novo consenso.

 

 

Martel Alexandre Del Colle é tem 28 anos, foi policial militar por 10 anos.


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