O Coronavírus como metáfora para a guerra
Terça-feira, 5 de maio de 2020

O Coronavírus como metáfora para a guerra

Imagem: José Cruz / Agência Brasil – Edição: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Marcos Vinícius Gontijo

 

Uma palavra esqueceu de lembrar

o que esquecer

e vez por outra

deixava a verdade escapar.

Reneé C. Neblett, “Snapshots”.

 

Não é raro escutarmos ou fazermos comparações sobre uma situação, um comportamento ou uma prática como algo doentio, putrefato ou deteriorante. Frases como “a corrupção é um câncer”, “isso é uma peste” ou “aquilo é cancerígeno”, preenchem nosso cotidiano de forma desavisada. Segundo o ensaio, A doença como metáfora (Illness as metaphor, 1978), da escritora, crítica de arte e ativista estadunidense, Susan Sontag (1933-2004), essas produções metafóricas sempre ocorreram, de forma distinta ao longo do tempo, é claro, porém sem se ausentarem do convívio social. Naquele ensaio, a intelectual debruçou sobre as metáforas engendradas ao redor da tuberculose e do câncer, bem como sobre as semelhanças que ambas compartilhavam, em especial, nos romances literários. A partir disso, demonstra como uma mitificação dessas enfermidades recaía sobre o indivíduo portador da doença e, ao mesmo tempo, refletia imposições, anseios, desejos e problemas sociais da sociedade que as produziam. Em linhas gerais, a principal preocupação do ensaio é demonstrar como a doença é mitificada a partir de um processo metafórico ou metonímico, de modo a atribuir à uma enfermidade um sentido figurado que transforme o seu significado e permita, por conseguinte, que a utilizemos para designar valores de um indivíduo ou grupo social. Como a doença, portanto, passa a adjetivar. Nesse sentido, a tuberculose e o câncer não eram compreendidos pelo que consistiam, um tipo de doença que exigia, como qualquer outra, pesquisa e formas de prevenção e de tratamento até que, enfim, uma cura fosse desenvolvida. O ensaio em questão apresentava os riscos que uma interpretação poderia enfrentar, como apontado em um ensaio anterior pela a autora, Contra a interpretação (Against the interpretation, 1966).

 

De acordo com Sontag, “todas as pessoas vivas têm dupla cidadania, uma no reino da saúde e outra no reino da doença.”[1] A primeira cidadania, a saúde, é passageira e não poderia ser diferente, compreendendo que a vida é uma trajetória até à morte. A doença, por sua vez, pode ser passageira, no sentido de curável, porém, carrega a ameaça da fatalidade, apresentando-nos, portanto, um vislumbre da leveza e da transparência da mortalha. Nesse ínterim, a produção de metáforas ocorreria em um cenário no qual não há uma explicação clara sobre a causa e o funcionamento de uma doença, isso somado à inexistência de uma vacina ou cura. Abre-se, portanto, um espaço de atuação do imaginário diante da incerteza e do temor que rodeiam a sociedade e os sujeitos que a compõem em face do desconhecido, do não-racionalizável, enfim, daquilo que não foi “desencantado”. Teorias conspiratórias, inimigos silenciosos internos ou estrangeiros, a redenção pelo sofrimento ou até mesmo a maldição divina tornam-se, portanto, explicações plausíveis para o surgimento da enfermidade desconhecida. Sob a presença do mistério, seja ele a causa da doença, os segredos que emanam da morte ou seja do medo por ele produzido, cria-se significados que extrapolam o é da coisa, ao passo que um sentido social, que fomente ou não uma aceitação, é-lhe atribuído. 

 

Na literatura durante o período pré-romântico, por exemplo, a tuberculose era vista como uma doença comum àqueles que eram suscetíveis a paixões excessivas e, em uma concepção judaico-cristã, a pecar por excesso. Durante o romantismo, por sua vez, em virtude das transformações das concepções de virtude, paixão ou “boas-maneiras”, o tuberculoso era aquele que vivia abertamente e com intensidade suas emoções, contudo, os sentimentos não correspondidos entregavam-no à doença. Em outros momentos, a tuberculose foi vista como redenção, como na obra Os miseráveis (1862), do escritor francês Victor Hugo, da qual padeceu a pobre Fantine após longa trajetória de dificuldades e injustiças. Esses sentidos projetam fantasias sobre a doença, atribuindo significado para algo que naquele momento tinha muito de mito e pouco de ciência. Após a descoberta da causa da tuberculose, o bacilo de Koch, e de seu tratamento, o tuberculoso é finalmente apenas um paciente que demanda cuidados específicos. Perde-se, então, o encanto, tornando a figura do tuberculoso uma pessoa doente como qualquer outra.

 

Em paralelo, a mitificação dessas enfermidades reflete características do momento em que foram criadas. Para Sontag, a palavra câncer, que agrupa uma miríade de patologias e tratamentos, que transitam entre câncer retal e à leucemia, estaria ligada ao desejável e ao execrável de nossa sociedade. Embora o tratamento e o combate ao câncer tenham avançado nos últimos anos, as formas de contraí-lo são diversas e incertas: sedentarismo, má alimentação, remorso, trabalho em excesso ou até mesmo a ingestão de produtos transgênicos. Estamos todos habituados à frase “não coma isso, dá câncer”. A sensação é de uma corda bamba, tudo e qualquer coisa é propensa a desencadear uma mutação celular que leve o próprio portador à morte. Entretanto, dentre os motivos elencados há um elemento em comum: o excesso. 

 

Veja, posto dessa forma, este é puro e simplesmente individual. No entanto, não é mera coincidência que em um mundo onde somos impelidos a consumir mais e sem parar e no qual testemunhamos um individualismo crônico, seja justamente o excesso (o qual, em termos de consumo, é por si só excludente, basta olhar para a desigualdade social cada dia maior) o vilão. Enquanto na TV e nas redes sociais assistimos a dietas específicas e restritivas, aos exercícios diários, a propagandas de suplemento e fotos variadas de corpos “shapados”, do outro lado, os agrotóxicos, cujo volume é enorme nos alimentos mais acessíveis, as emoções reprimidas e a frustração, bem como o sedentarismo — afinal de contas, quem não tem energia após 10 horas diárias de trabalho? — são apontados como perigosos. Cabe, portanto, ao indivíduo privar por si mesmo, caso contrário, “não foi falta de avisar”. A depressão também se inclui aqui. Um de seus nomes populares é o “black dog”, uma espécie de mau agouro, sorrateiro e ameaçador. Há, inclusive, quem se comporte como se a doença fosse contagiosa, sem levar em conta os comentários sobre o caráter do indivíduo, de modo a dizer mais do que alguém que está apenas com a saúde debilitada. Em contrapartida, vivemos em uma sociedade na qual as redes sociais estão repletas de bons momentos, fotos felizes e super produzidas, ignorando que o perfil do usuário é um recorte intencional e artificial da vida propriamente dita. Por fim, a mitificação diz menos sobre a doença do que sobre os problemas sociais e as perspectivas de mundo que a rodeiam e recaem sobre ela.

 

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Percebem? Não estou sugerindo, por favor, uma vida sedentária no lugar de uma ativa ou que está tudo bem a ingestão de grandes quantidades de sódio. A questão aqui é como uma enfermidade é retirada do seu contexto linguístico de doença e transformada em uma espécie de mal à espreita que ora é negado, ora é combatido a despeito do sofrimento do indivíduo. A partir disso, o nome da doença deixa de se referir a uma questão científica, médica, hospitalar, psicanalítica e/ou de próprio cuidado com a vida e, sobretudo, com a morte, para adentrar em um campo que diz respeito mais a práticas sociais e políticas do que a situação do próprio paciente em tratamento. Hoje, uma pessoa contaminada pela tuberculose não seria questionada sobre hábitos boêmios ou o péssimo ar da cidade — ainda que as condições de habitação seja um fator importante para a facilitação da propagação da bactéria — pois sabemos que isso é irrelevante no tratamento e estar infectado pelo bacilo de Koch não diz nada sobre o caráter do indivíduo.  Nos fins do século XX, Sontag não diria a mesma coisa em relação ao câncer. Esta palavra que denomina tipos distintos de doença, por vezes escapa de seu campo semântico e passa, então, a adjetivar, demarcando um posicionamento político, um grupo étnico, uma ação e etc.

 

Acredito que chegamos na reflexão que de fato quero trazer. Conforme o leitor aprofunda no breve ensaio da escritora estadunidense, as metáforas em torno da tuberculose, do câncer e, mais tarde, do HIV, são analisadas em função de suas conotações políticas e militares. A doença como adjetivo produziu expressões como “células invasoras”, “inimigas”, “defensoras”, “bombardeamento radio-quimioterapêutico”, que se tornaram corriqueiras em nosso dia-a-dia. É nesse sentido que uma doença tratada como individual se assemelha a outras cuja abordagem é coletiva, como a peste bubônica, a cólera, a sífilis e o Coronavírus, um inimigo a ser combatido. Não é por menos que nos últimos 40 dias assistimos a autoridades dizer que estamos em guerra.

 

Mas, se o desconhecimento e o temor eram elementos fundamentais da mitificação daquelas enfermidades aqui citadas, não me parece que esse seja o caso do Coronavírus. Arrebatada pela peste, a Europa, entre os anos 1347 e 1348, testemunhou “massacres de judeus em números sem precedentes, os quais cessaram quando a peste recuou.”[2] Porém, mais de 500 anos separavam a chamada “peste negra” do bacteriologista francês, Alexandre Yersin, e do bacilo Yersina pestis,  transmitido por pulgas vetorizadas por ratos. Ao contrário da peste, o Brasil, hoje, lida com uma doença que em poucos meses teve seus sintomas elencados, sua patologia destrinchada, o causador com suas proteínas e material genético computadorizado. Receio, portanto, que o desconhecimento não seja aqui um elemento relevante, porém existe outro, talvez mais perigoso que aquele, isto é, o negacionismo. Este compõe uma amálgama ao lado do temor, também distinto daquele supracitado, não um temor relativo à morte, pois a ação daqueles que negam é para lá de temerária, senão um medo à diferença e à perda de seus privilégios. A composição final de ambos os elementos se transforma no substrato para todo tipo de metáfora sórdida, do tipo que o bolsonarismo sabe utilizar muito bem. O famigerado vírus que vem deixando o mundo em polvorosa é uma “gripezinha”, um subterfúgio, uma distração para um ataque comunista e os culpados só podem ser os chineses e, naturalmente, os esquerdistas — nesse grupo que inclui até o príncipe que fugiu pela braquiária, Aécio Neves. O vírus é tudo menos um vírus. “Como não podem perceber? O que tem na China? Um partido comunista no poder, é claro! É tão evidente!” Se interpelados negarão que não tem nada a ver com as ações xenófobas, discriminatórias e negacionistas. Afinal, sequer foram as publicações em redes sociais e a criação em larga escala de bots que os levaram ao poder. E, sim, o “sentimento nacional”! É uma mistura de coprólito com curuzu protofascista. 

 

Embora eu acredite que a pandemia esteja enfraquecendo o bolsonarismo, o trecho a seguir em especial, provavelmente em virtude do atual momento, despertou-me a curiosidade: “As doenças tidas como simplesmente epidêmicas foram menos úteis como metáforas, conforme se evidencia pela quase total amnésia histórica com relação a gripe pandêmica de 1918-1919  [a qual se convencionou equivocadamente chamar por “gripe espanhola”, termo que induz não-raramente ao erro][3], quando morreu mais gente do que nos quatro anos da Primeira Guerra Mundial.”[4] O trauma de mortes incalculáveis em um curto espaço de tempo e sem aviso prévio é por demais horrendo, fere as bases do que chamamos ilusoriamente de civilização e nos coloca de frente com a nossa vulnerabilidade existencial, a qual somos levados a negar durante toda a nossa existência. 

 

O bolsonarismo é isso, um grupo que se alavanca em preceitos frágeis, simplórios em seu conservadorismo e que se alimenta do medo à diferença, do horror à mulher preta e médica, dos pesadelos da perda dos privilégios. Para sustentar esse medo, enganando-se sobre sua suposta legitimidade, nega-se a desigualdade, a violência simbólica e estrutural, nega-se a alteridade. Se não fosse trágico, seria cômico, o Coronavírus ser infectado pela politização absurda daquilo que é fato dado, muitas pessoas morrerão pela epidemia e muitas morrerão pelo ódio e pela mesquinhez dos pequenos filhos da nação. Eis os perigos da interpretação e os males da metáfora.

 

Agradeço, por fim, à Carolina Anglada pela coordenação do grupo de pesquisa Poéticas da Resistência, Políticas da Insurreição, cujo encontro virtual me conferiu oportunidade da leitura e da discussão aqui proposta. Agradeço do mesmo modo à Janaína de Paula, quem me convidou a participar de tal grupo. Fiquemos em casa e chamemos as coisas pelos nomes que elas têm!

 

 

Marcos Vinícius Gontijo é pesquisador e historiador, Mestre em História pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e Doutorando em História e Culturas Politicas pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)


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Notas:

[1] SONTAG, Susan. A doença como metáfora. Rio de Janeiro: Editora Graal, 1984.

[2] SONTAG, op. cit., p. 45.

[3] A “gripe espanhola” recebeu esse nome não por ter surgido na espanha, mas por ter sido noticiada pelos veículos espanhóis, enquanto o resto do mundo negava ou subestimava os perigos da epidemia.

[4] SONTAG, op. cit., p. 45.

Terça-feira, 5 de maio de 2020
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