Reconhecer a subalternidade, resgatar a humanidade
Terça-feira, 5 de maio de 2020

Reconhecer a subalternidade, resgatar a humanidade

Imagem: Reprodução

 

Por Flávia Naves

 

O Brasil tem vivido na órbita de mentiras impostas como forma de dominação. As fake news¹ se tornaram referências para o posicionamento de grupos sociais, causando prejuízos profundos a democracia brasileira. Mas como essa situação aparentemente absurda tornou-se realidade?

 

 

As mentiras encontraram terreno fértil numa sociedade marcada pela colonialidade², ou seja, por relações de poder baseadas numa hierarquia racial, que consolida desigualdades e injustiças como se fossem fenômenos inevitáveis. Essa forma de dominação mostra-se mais efetiva à medida que não é percebida como tal.  Embora o país não seja mais uma colônia, se coloca em posição subalterna na geopolítica global, consolidando uma economia baseada na exploração mineral (que deteriora o meio ambiente e mata pessoas, como se vê nos casos dos rompimentos das barragens da Samarco e da Vale), e no agronegócio, que envenena a terra e as pessoas, com a utilização de produtos químicos banidos de vários lugares do mundo. Definitivamente, a vida no Sul global vale menos, mas o discurso dominante afirma que esse é o modelo de desenvolvimento possível. A vida na periferia do Brasil, vale menos ainda, o que explica o avanço das políticas de precarização do trabalho, e da quase extinção de direitos básicos como alimentação, educação e saúde, principalmente nos últimos anos. Pessoas morrem todos os dias ao nosso redor, ou contam os dias para tal, mas na mídia, as elites afirmam que são incidentes, erros, pequenos sacrifícios para o desenvolvimento do país. Mentiras (estas), que reafirmam uma condição de subalternidade do país e da maioria das pessoas que nele vive.

 

Mesmo com mobilizações das minorias – principais alvos da injustiça e da violência da colonialidade – a subalternidade nunca foi efetivamente enfrentada, cristalizando-se profundamente em nossas sociedades. Só se pode efetivamente enfrentar aquilo que se reconhece, porém, é difícil identificar as raízes dos problemas sociais enfrentados no país, ocultados pela colonialidade que legitima um modelo de sociedade supostamente civilizado, efetivamente desigual, que nega e reprime qualquer manifestação diferente do pensamento dominante, até que os próprios subalternizados reproduzam o discurso hegemônico. 

 

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Contudo, por mais mentiras ou violências que se utilize, é impossível não perceber que a subalternidade espreita e se aprofunda ao nosso redor. O enraizamento da colonialidade e o avanço do neoliberalismo excluem cada vez mais as pessoas do acesso a direitos básicos e das promessas da modernidade, inclusive nos países do Norte global. Para alguns, essa situação é uma ‘bomba’ pronta para explodir, e que não pode mais ser ocultada ou justificada pelas manipulações das elites. Mas, se essa ‘bomba’ explodir, em que direção irá seu poder destrutivo?

 

Uma grande parcela da população (inclusive a classe média), que sofre as consequências da superexploração do trabalho, de corpos e até de almas (atormentadas e depressivas) não reconhece a subalternidade como resultado da ação de grupos dominantes, que, para garantirem seus lucros crescentes impõem à população condições desumanas de vida. Instigados pelas elites, acusam aqueles que sempre estiveram na ‘zona de sacrifício’ da colonialidade (negros, indígenas, mulheres, populações tradicionais etc), por suas tragédias pessoais (sempre uma visão individualista), que já haviam sido anunciadas pelos movimentos das minorias.

 

Se faltam vagas nas universidades públicas não é devido a implantação de um sistema de quotas. A falta de empregos não é responsabilidade dos imigrantes, mas sim, do sistema (mundo-colonial-capitalista-moderno) ao qual nos esforçamos para nos enquadrar e que é um fracasso em atender e cuidar de demandas humanas. Não por acaso, mas por princípio. O ódio e a violência entre pessoas que têm em comum, no mínimo, a subalternidade, não colocará ninguém a salvo das práticas desse sistema. Jogar aos predadores os mais fracos não irá impedir (como não impediu até agora) que as feras também os devorem.

 

As mentiras de hoje e de sempre, que ouvimos passivos e ainda reproduzimos, não irão aplacar a sensação de impotência ou deter a exploração. Por mais doloroso que seja é preciso reconhecer a subalternidade. Isso significa resgatar a humanidade que nos está sendo negada a todo instante. Sem isso, naturalizando as atrocidades que se repetem em nosso cotidiano, nos tornamos mais e mais desumanos. E esse é um caminho sem volta.

 

 

Flávia Naves é professora da Universidade Federal de Lavras, coordenadora do Letra – Laboratório de Estudos Transdisciplinares


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Notas:

[1] Fake News são notícias falsas divulgadas principalmente nas redes sociais. Os boatos têm informações irreais que apelam para o emocional do leitor/espectador.

[2] Anibal Quijano afirma que colonialidade refere-se a um padrão de poder baseado na existência e reprodução de novas identidades; relações hierárquicas e desiguais entre essas identidades, na qual os europeus dominavam os não europeus em várias instâncias do poder, como na economia, na cultura e na política. QUIJANO, A. Colonialidade do poder, eurocentrismo e America Latina. In: LANDER, E (org). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latinoamericanas. Buenos Aires: CLACSO, 2005, cap. 10, p. 107-130

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