Eu quis dizer, você não quis escutar. E agora?
Sexta-feira, 15 de maio de 2020

Eu quis dizer, você não quis escutar. E agora?

Artes: @naosouartista.art

 

Por Gabriel Pedroza e Ergon Cugler

(referência de consulta universal: http://www.cagometro.com/

 

“Eu avisei”. Duas palavras que são proclamadas principalmente pelo campo progressista e democrático desde que Jair Messias Bolsonaro começou seu desgoverno em 2019. Bolsonaro, que não perde a chance de se fazer de Messias, também faz uso de uma célebre frase bíblica para justificar o obscurantismo e a confusão diante de suas ações – “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (João 8:32). Ocorre, que diante dos primeiros 500 dias em posse da presidência, Bolsonaro tem provado que suas ações de nada diferem de seu histórico nas últimas décadas. Muito além do “eu avisei”, à luz dos fatos, nos cabe questionar, “e agora?”

 

15 de maio de 2020, são 500 dias com ele – ou melhor, #EleNão -, como presidente da República. Bolsonaro (agora sem partido) já passou por nove partidos em seus 28 anos como Deputado Federal, oscilando de acordo com seus interesses familiares. Diante do desastre em posse da Presidência, o “eu avisei” tem se tornado uma denúncia constante para os milhares de absurdos e, pior, ataques explícitos de Bolsonaro contra direitos fundamentais do povo brasileiro. Soma-se ao cenário, a radicalização de sua base mais fiel, com aumento de popularidade e polarização, tendo desprendimento diário de mais moderados conforme o radicalismo aumenta.

 

Conforme aliados ocasionais ou pessoas que se dizem traídas vão se desprendendo do bolsonarismo, o que fica é a contradição de que Bolsonaro implementa nada mais do que sempre prometeu. Isto é, aos que se arrependem do voto – e fazem bem, apesar de tarde -, ou não tiveram acesso ao seu histórico de promessas, ou não levaram a sério as denúncias que chegaram por todos os lados. Nesse sentido, este artigo reúne diversas falas ao longo do esvaziado mandato de Bolsonaro como Parlamentar e o resultado dessas falas – que para muitos soavam vazias -, agora em posse do Estado brasileiro.

 

Muito além do “eu avisei” é momento de explorar as contradições e fazer do arrependimento ao bolsonarismo, força motriz para que as denúncias que virão não sejam, mais uma vez, ignoradas. Até porque, Bolsonaro faz muito estrago, mas quando Bolsonaro passar – e há de passar -, o bolsonarismo, seguirá, sem dúvidas, disputando espaço enquanto movimento. Portanto, transformar o “e daí” da indiferença antipática do bolsonarismo em “e agora?” da união nacional propositiva e racional do povo, talvez seja um dos maiores desafios que tenhamos em frente.

 

Corrupção no Bolso

Antes da Presidência

Desde 1999 Bolsonaro já confessava em entrevista, sem o menor receio: “Eu sonego tudo que for possível”. Mais recente, em 2018, ao explicar a polêmica dos R$ 200 mil da JBS, admitiu que seu partido recebeu propina: “qual partido não recebe?” -, para além de manter funcionária fantasma paga com dinheiro público; e que, como “estava solteiro naquela época, esse dinheiro do auxílio-moradia eu usava para comer gente”.

 

Mamata e nepotismo

Bolsonaro, assim como tantos dos seus apoiadores e aliados, também bradaram ao longo desses anos que “acabou a mamata”. Os exemplos dado por esse governo constatam justamente o contrário. Em meados de 2019, Jair já dizia que o filho Eduardo poderia assumir a liderança do PSL (o que foi feito) ou até a embaixada dos EUA, ainda que a experiência declarada do “filho 03” era de ter “fritado hambúrgueres” no país (o que é impreciso, já que o restaurante no qual trabalhou sequer tem hambúrgueres no cardápio), além de seu inglês ser absolutamente incompatível com o cargo. Ainda em 2019, veio à público que entre 2015 e 2016, Bolsonaro empregou cinco funcionárias que nunca foram ao Congresso, porém com o salário em dia.

 

Extinção do Conselho de Combate à Corrupção

Em posse da Presidência, em junho de 2019, Bolsonaro extinguiu o Conselho da Transparência Pública e Combate à Corrupção (CTPCC), dentre quase 40 conselhos de fiscalização da administração pública.

 

Gastos no cartão coorporativo

Entre janeiro e março de 2020, as despesas do cartão corporativo da presidência dobraram em relação à média do mesmo período dos últimos 5 anos, superando inclusive os gastos dos governos Temer e Dilma. Os gastos podem ser acompanhados pelo Portal da Transparência.

 

Desprezo à Democracia

Antes da Presidência

Em 1999, já Deputado Federal, Bolsonaro afirmava que certamente daria um golpe no mesmo dia, caso fosse presidente “[…] Através do voto você não vai mudar nada nesse país, nada, absolutamente nada! Só vai mudar, infelizmente, quando um dia nós partirmos para uma guerra civil aqui dentro, e fazendo o trabalho que o regime militar não fez: matando uns 30 mil, começando com o FHC, não deixar para fora não, matando! Se vai morrer alguns inocentes, tudo bem, tudo quanto é guerra morre inocente.”.

 

Em 2016, voltou a afirmar que “o erro da ditadura foi torturar e não matar”, repetindo a mesma declaração proferida anos antes, em 2008, durante discussão com manifestantes em frente ao Clube Militar, no Rio de Janeiro. Ainda, durante a votação de impeachment da então presidente Dilma Rousseff (2016), prestou homenagem ao torturador condenado, Coronel Carlos Ustra.

 

Mais recente (2017), exercitando a intolerância religiosa, Bolsonaro bradou em carro de som: “Deus acima de tudo. Não tem essa historinha de Estado laico não. O Estado é cristão e a minoria que for contra, que se mude […] as minorias têm que se curvar para as maiorias” Em visita ao exército, ainda em 2017, Bolsonaro disse que sua “especialidade é matar”, mesmo que nunca tenha executado qualquer missão oficial com tal demanda. Dando continuidade à propagação da chacina, em campanha em Rio Branco (2018), disse “Vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre”.

 

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Ainda, uma semana antes de assumir a presidência (2018), Bolsonaro twitta a frase “Grande Dia”, logo após o ex-deputado Jean Wyllys anunciar que não retornaria ao Brasil para cumprir o seu terceiro mandato, por medo das ameaças que já vinha recebendo há anos.

 

Slogan com inspiração alemã

Em posse do Estado, o slogan escolhido para seu governo foi “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos”, tendo assombrosa semelhança com a popular frase da Alemanha Nazista  “Deutschland über alles”, ou “Alemanha acima de tudo”. A diferença seria uma pitada a mais de fundamentalismo religioso.

 

Sem sociedade civil

Em junho de 2019, Bolsonaro extinguiu quase 40 conselhos estratégicos de participação da sociedade civil, limitando a participação e acompanhamento de entidades e organizações diversas na elaboração de políticas públicas já implementadas. Houve ainda a expulsão da sociedade civil do Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (Conad).

 

Ataque ao presidente da OAB

Em julho de 2019 Bolsonaro ataca o presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, provocando-o que, se “quiser saber como é que o pai dele desapareceu no período militar, conto pra ele. Ele não vai querer ouvir a verdade. Conto pra ele”.

 

Envolvimento no assassinato de Marielle e Anderson

Entre abril e maio de 2020, diante das interferências de Bolsonaro para troca da Polícia Federal, documentos passaram a reafirmar a relação da família Bolsonaro com o brutal assassinato da vereadora Marielle Franco e Anderson Gomes, seu motorista. Vale recordar que o vizinho de Bolsonaro, acusado de matar Marielle e Anderson, detinha um arsenal em sua casa.

 

Além do vizinho, existia também ligação com Adriano da Nóbrega, um ex-policial do Bope – homenageado por Jair e Flávio Bolsonaro. Ele foi considerado um dos chefes do “Escritório do Crime” – uma milícia de matadores de aluguel do RJ – e teve um mandato de prisão expedido em Fevereiro de 2019, consequente de uma operação contra milícia no RJ. Foi encontrado e morto a tiros durante confronto policial na Bahia, onde estava escondido. Adriano era considerado uma peça chave tanto no Caso Queiroz quanto da morte de Marielle. Há forte suspeita de queima de arquivo

 

A dúvida permanece: Quem mandou matar Marielle Franco?

 

Abertamente contra a democracia

Em meio à pandemia, Bolsonaro participou de diversos atos e aglomerações entre março e maio de 2020 que continham faixas pelo fechamento do Congresso, do STF e pedindo o AI-5, com profissionais da imprensa violentamente agredidos. Ainda, durante o crescimento dos casos da covid-19, Bolsonaro recebeu Curió, símbolo de assassinatos na ditadura em maio de 2020.

 

Punição às críticas

Ainda em maio de 2020, a Escola Superior de Guerra (ESG) enviou um ofício ao Ministério da Defesa questionando a possibilidade de punir servidores que critiquem o presidente. No mesmo fim de semana, a Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom) critica, em post no twitter, a cobertura da mídia durante a pandemia, finalizando a postagem com “O trabalho, a união e a verdade libertarão o Brasil”. Mais uma dentre as frases usadas pelo governo que remetem ao nazismo, dessa vez do slogan “Arbeit macht frei” (“O trabalho liberta”, em alemão), inscrito na entrada dos campos de concentração.

 

Dnalor_01 / Wikimedia Commons/ CC-BY-SA 3.0

 

Despreparo e Ingerência

Antes da Presidência

Quando Deputado Federal, durante 28 anos aprovou apenas dois projetos de lei. Sem qualquer compromisso técnico ou programático com a melhoria da qualidade de vida da população de seu estado, apresentou uma média de seis projetos por ano, ou um a  cada dois meses, ignorando saúde e educação. Como exemplo, Bolsonaro já quis batizar a faixa marítima do país como “Mar Médici” (2015), em homenagem ao Ditador e, ainda, exigir todos cidadãos a colocassem a mão direita no peito durante o Hino Nacional (1998).

 

Durante sua campanha (2018), sem planejamento estratégico para governar o país, Bolsonaro apostou na onda (ou melhor, tsunami) anti-petista para ganhar popularidade, como um punhado de outros deputados, prefeitos e governadores (como esquecer o clássico slogan de João Dória, oBolsoDória”, que era contra “tudo que é contra a esquerda”). Para deixar evidente sua falta de projeto para o país, Bolsonaro sequer participou dos debates nas eleições de 2018.

 

Sem palavras

Em janeiro de 2019, no Fórum Econômico Mundial de Davos, Bolsonaro usou apenas 6 dos 45 minutos previstos, com fala rasa e trazendo poucos elementos estratégicos e deixando os investidores internacionais sem clareza de seu projeto.

 

Sem dobrar a meta

Segundo estudo organizado pela Agência Lupa, Bolsonaro concluiu menos da metade das metas prometidas aos primeiros 100 dias de mandato (abril de 2019).

 

Distorção da Realidade e Narrativa

Antes da Presidência

Durante a campanha eleitoral (2018) não faltaram denúncias da rede de propagação de notícias falsas (fake news) organizada pela campanha de Jair Bolsonaro. Tais denúncias levaram a investigação a identificar a família Bolsonaro como articuladora do esquema criminoso de fake news.

 

Golden shower

Em março de 2019, o chefe de Estado se voltou para difamar o carnaval, compartilhando vídeo obsceno e perguntando em seu twitter “o que é Golden Shower?”.

 

Brasil sem fome?

Mesmo com 13,5 brasileiros em extrema pobreza (2019), em julho de 2019, Bolsonaro afirmou que “falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira. Passa-se mal, não come bem. Aí eu concordo. Agora passar fome, não. Você não vê gente pobre pelas ruas com físico esquelético como a gente vê em alguns outros países por aí pelo mundo.”

 

Gabinete do ódio

Em março de 2020, estudo apontou que mais da metade do apoio nas redes de Bolsonaro é forjado por robôs. Ainda, em abril de 2020, após meses de investigação da CPI das Fake News, a relatora apontou que “Bolsonaro age em conjunto com o gabinete do ódio”. Ainda, que “pula de galho em galho” em busca de um novo inimigo para manter a “adrenalina” de seu “grupo de cachorros loucos”.

 

Ataque à imprensa

Após inúmeros ataques à imprensa, buscando desmoralizar o papel do jornalismo, em março de 2020, Bolsonaro colocou um humorista para conversar com jornalistas sobre o desaceleramento da economia brasileira. Isso após “dar banana” para jornalistas pela segunda vez em duas semanas – A primeira vez foi após reclamar da repercussão de sua fala afirmando que “pessoa com HIV é despesa para todo o Brasil“, antes de ir à um evento evangélico. Ainda, em maio de 2020, Bolsonaro mandou jornalista calar a boca.

 

Ranking de declarações falsas

Ainda, em 500 dias em posse da Presidência, Bolsonaro acumulou 1028 declarações falsas ou distorcidas, segundo mapeamento organizado pela Aos Fatos.

 

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Machismo e LGBTFobia

Antes da Presidência

Parte da fama de Bolsonaro surgiu em 2003, após o então parlamentar chamar a Deputado Maria do Rosário (PT) de “vagabunda”, afirmando “não te estupro porque você não merece”. Mesmo em batalha judicial – e ordenado, em 2019, a pagar R$10 mil por danos morais – Bolsonaro não hesitou em dizer  por isso o cara paga menos para a mulher [porque ela engravida]” (2014) reafirmando em entrevista no programa “Superpop”, em 2016 que “não empregaria [mulheres e homens] com o mesmo salário”.

 

Em entrevista à revista Playboy em 2011 Bolsonaro afirmou que prefere um filho morto a um herdeiro gay e diz que ser vizinho de um casal homossexual é motivo de desvalorização de imóvel. “Seria incapaz de amar um filho homossexual. Prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí.”, pois “ter filho gay é falta de porrada”. Ainda, em ritmo de campanha (2018), reclama que casais homossexuais estariam em busca de “privilégios” e afirma: “Eu tenho imunidade para dizer que sou homofóbico sim, com muito orgulho […] eu prefiro ter um filho viciado do que um filho homossexual”.

 

“Se quiser vir fazer sexo com mulher, fique à vontade”

Já em posse da Presidência, em abril de 2019, Bolsonaro comentou que  “O Brasil não pode ser um País do mundo gay, de turismo gay. Temos famílias.”. Mas que “Se quiser vir fazer sexo com mulher, fique à vontade” – reforçando seu machismo ao validar a exploração de mulheres e o turismo sexual, ainda fazendo associação entre homosexualidade e imoralidade.

 

Extinção Conselho de Combate à Discriminação LGBT+

Dentre outros conselhos de fiscalização e participação da sociedade civil, em junho de 2019, Bolsonaro extinguiu o Conselho Nacional de Combate à Discriminação e Promoção dos Direitos de LGBT (CNCD/LGBT).

 

“O Brasil é uma virgem que todo tarado de fora quer”

Pouco tempo depois (julho de 2019), incapaz de estabelecer reflexão profunda sobre o meio ambiente, Bolsonaro apostou no machismo ao reclamar sobre a demarcação de terras indígenas e preservação ambiental, afirmando que “o Brasil é uma virgem que todo tarado de fora quer” e, portanto, melhor entregar às oportunidades.

 

Financiamento zero para comunidade LGBT+

Com edital que havia selecionado produções para TV pública sobre diversidade de gênero e sexualidade, em agosto de 2019 críticas de Bolsonaro levaram à proibição do financiamento para filmes ligados às temáticas LGBTs e, em janeiro de 2020 Bolsonaro orientou Regina Duarte a não financiar a pauta LGBT na Cultura, ainda criou uma “curadoria” afirmando “pode fazer, mas não com dinheiro público”, como se a população LGBT+ não compusesse a sociedade brasileira.

 

Racismo

Antes da Presidência

Em entrevista ao programa CQC, da Band, em 2011, Bolsonaro afirmou que “não entraria num avião pilotado por um cotista, nem aceitaria ser operado por um médico cotista”. Ainda na mesma entrevista, é questionado pela cantora Preta Gil sobre como reagiria se um de seus filhos namorasse uma negra, respondendo: “não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco e meus filhos foram muito bem educados” Em 2017, no Clube Hebraica (2017), disse “Eu fui num quilombo em Eldorado Paulista. Olha, o afrodescendente mais leve lá pesava 7 arrobas, não fazem nada. Eu acho que nem pra procriador serve mais”.

 

Ainda, em mais de 80 páginas do plano de governo do então candidato (2018), Bolsonaro, a equipe dele não cita em nenhum momento as palavras “negro”, “negra”, “indígena”, “etnia” e “raça”, muito menos existem propostas de políticas de ações afirmativas.

 

Extermínio da população negra

Enquanto em maio de 2019, Bolsonaro afirmava que “racismo é algo raro no Brasil”, em outubro de 2019, a ONG Educafro denunciou na ONU o aumento das mortes envolvendo a população negra e o percentual de 75,5% do total dos homicídios no Brasil durante a gestão de Bolsonaro.

 

Sem consciência

Após a destruição de uma placa na Câmara dos Deputados em alusão à violência contra a população afrodescendente em novembro de 2019, Bolsonaro optou por ignorar tanto a destruição da placa, quanto o dia da consciência negra – dando continuidade à política de omissão do Estado implementada abertamente desde o início de seu mandato.

 

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Desprezo ao Meio Ambiente

Antes da Presidência

Após discussão com indígena em Audiência na Câmara (2008), disse que “Ele devia ir comer um capim ali fora para manter as suas origens”.

 

Fogo na Amazônia

Em março de 2019, o céu em cidades do Sudeste escureceu durante o dia, isso porque as chamas na Amazônia já se alastravam há quase duas semanas. Dessa vez, Bolsonaro decidiu jogar a culpa para o ator Leonardo DiCaprio e a ONG WWF; Ainda, quando a crise foi denunciada pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Bolsonaro respondeu com a exoneração de Ricardo Galvão, presidente do Instituto, além de rejeitar ajuda de US$ 20 milhões do G7 para a Amazônia, como uma resposta birrenta às críticas feitas pelo presidente da França, Emmanuel Macron. Bolsonaro disse que só aceitaria o dinheiro se Macron pedisse desculpas, demonstrando novamente que o seu imenso ego vaidoso está, lamentavelmente, acima do bem estar da população. Houve recuo dessa condição, horas depois, declarado pelo porta-voz do governo. Vale lembrar que, nesse meio tempo, Bolsonaro endossou uma montagem sexista feita por um de seus seguidores, zombando da aparência de Brigitte Macron, primeira dama da França.

 

Meio ambiente só para veganos

Em julho de 2019, Bolsonaro já afirmou que “[A questão ambiental importa] só aos veganos que comem só vegetais.”.

 

Vazamento de óleo no Nordeste

Em outubro de 2019, o Governo Bolsonaro demorou mais de um mês para iniciar investigação do vazamento de óleo no Nordeste, colocando a culpa na Greenpeace, insinuando que a ONG só atrapalha e de que o vazamento teria sido um “ato terrorista”. Enquanto isso, centenas de pessoas se mobilizaram, colocando a saúde em risco,  para limpar voluntariamente as praias.

 

Grilagem liberada

Mais recente, em dezembro de 2019, apresentou a Medida Provisória 910/2019, prevendo anistia ao crime de invasões de terras públicas entre 2011 e 2018 e beneficiando principalmente a prática de grilagem e os grandes produtores, precarizando ainda mais as condições da população indígena e tradicional, além dos produtores familiares. A tragédia denunciada por diversas organizações, conta com estudo do Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), detalhando didaticamente suas implicações.

 

Uso Político da Pandemia

“É só um resfriadinho”

Em março de 2020, enquanto Bolsonaro chamava a pandemia de “fantasia propagada pela mídia”, pesquisadores da UFMG apontavam o aumento no nível de populismo do presidente com sua convocação de manifestações. Ainda, estudo realizado por economistas da Faculdade Getúlio Vargas e da Universidade de Cambridge aponta relação direta de causa e efeito entre as declarações do presidente contrariando recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e o não cumprimento do isolamento social pela população. Entre março e maio de 2020, da “gripezinha” ao “e daí?”, as frases de Bolsonaro foram se acumulando enquanto o vírus se alastrava pelo país, com diversos levantamentos denunciando a ingerência diante da crise.

 

Sem ONG, tá ok?

A própria Fundação Nacional do Índio (Funai) serviu de recente instrumento para uso político da pandemia. Mesmo com, pelo menos, 139 indígenas confirmados com covid-19 e oito mortos (maio de 2019), o texto “Os Fatos”, publicado no site oficial da Funai argumentou uma “complacência e participação de ONGs e grupos religiosos” ligados a uma “matriz marxista” na elaboração de uma política indigenista que se restringiu ao “assistencialismo subserviente e ao paternalismo explícito”. Ainda, que a eleição de Bolsonaro representou uma “ruptura” às políticas públicas “socialistas” que vinham sendo implantadas por governos do PT.

 

Fome tá ok?

Com a desastrosa implementação da Medida Provisória (MP) 944/2020 (abril de 2020), a qual prevê o Programa Emergencial de Suporte a Empregos (Pese), da estimativa de 1,4 milhão de empresas e 12,2 milhões de trabalhadores que teriam acesso à linha de crédito, apenas 19,3 mil empresas (1,3%) e 304 mil trabalhadores (2,5%) conseguiram garantir a manutenção do salário através do programa. Muito além da retórica, Bolsonaro parece apostar na omissão como estratégia para postergar o auxílio aos trabalhadores e testar a fome da população, jogando a culpa na burocracia para ver quem volta à postos, mesmo com a pandemia acumulando mortes.

 

Cabelo tá ok?

Enquanto o Brasil se aproximava da marca de 10.000 mortes oficiais por coronavírus (maio de 2020), o presidente ironizava que faria um churrasco de 3.000 pessoas no Palácio da Alvorada. Bolsonaro justificou que o churrasco era “fake”, mas aproveitou a data para andar de moto aquática acompanhado de um segurança, referindo-se novamente ao cenário pandêmico de “neurose”. Dois dias depois (11), o presidente declarou, durante uma dos seus pronunciamentos na esplanada, que ele ordenou, por meio de decreto, que academias, salões de beleza, cabeleireiros e barbearias fossem incluídos como serviços essenciais. O Ministro da Saúde, Nelson Teich, só ficou sabendo da mudança por meio de jornalistas durante coletiva de imprensa – visivelmente confuso. Enquanto isso, a demanda por testes, respiradores e leitos torna-se cada vez mais crítica.

 

Fama mundial, tá ok!

Enquanto ainda há quem diga que a mídia brasileira é parcial ao denunciar as arbitrariedades do bolsonarismo, entre março e maio de 2020, centenas de jornais ao redor do mundo noticiaram a irresponsabilidade de Bolsonaro diante da pandemia. Para a BBC, “Enquanto o mundo tenta desesperadamente combater a pandemia de coronavírus, o presidente do Brasil está fazendo o possível para desacreditá-la”, na mesma linha, The New York Times aponta que “O presidente Jair Bolsonaro, que chamou o vírus de ‘uma gripezinha’, é o único ‘grande’ líder mundial que continua questionando os méritos das medidas de bloqueio para combater a pandemia”.

 

Soma-se ao alerta internacional os jornais The Guardian, The Economist, Wall Street Journal, Forbes, Business Inder, The Japan Times, The Wire, The Time of India, The Chicago Tribune, The Independent, The Asahi Shimbun, Al Jazeera, The Sydney Morning Herald, Daily Herald, Jacobin Magazine, TIME e outros – todos ao tom de, “A atitude imprudente e irresponsável do líder do maior país da América do Sul ameaça causar inúmeras mortes” (El País) e “Bolsonaro é o líder negacionista mundial do coronavirus” (Washington Post).

 

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A nova velha política

Bolsonaro acumula 30 anos na vida política, com histórico marcado pelo machismo, racismo, LGBTfobia, discurso de ódio, desprezo aos indígenas e quilombolas, apologia ao crime, homenagens à Ustra e Ditadura militar, sugestão da aprovação de uma nova AI-5, desvio de verba e nacionalismo – apesar de bater continência para a bandeira dos EUA. Seu discurso se mantém odioso após a eleição e, pior, autoriza àqueles que pensam como ele a colocarem suas ideologias genocidas em prática. Nasce, então, o bolsonarismo. Aliás, nasce, não. Já existia, apesar de disperso. Mas hoje, a ideologia encontra uma figura que a abarcasse, adotando o sobrenome de Bolsonaro como expressão de um conjunto de ideais e valores que desprezam a democracia e exercitam o obscurantismo como instrumento de imposição política.

 

Apesar de prometer uma “nova política”, o bolsonarismo tem se mostrado cada vez mais dependente da polarização constante para retroalimentar sua base mais fiel. Como faz isso? Propagando declarações falsas ou distorcidas (segundo mapeamento que mencionamos), instituindo o Gabinete do Ódio e tendo a disposição um exército de robôs para dar volume e engajamento para sua narrativa. Lembre que empresários bancaram campanha milionária pelo whatsapp anti-PT/Pró-Bolsonaro em 2018. Dentre esses, o Luciano Hang, o “Véio da Havan” (bilionário que possui dívida de R$168 milhões à Receita Federal) e o MBL, acusado com frequência por disseminar fake news (agora arrependidos, somando-se aos pedidos de impeachment).

 

No entanto, a primeira grande queda de popularidade ocorreu nas últimas semanas, com a insistente postura negacionista em relação à pandemia da covid-19, além da tentativa de mudar diretoria da Polícia Federal, indicando um amigo de família, o delegado Alexandre Ramagem e resultando no pedido de demissão do, agora, ex-Ministro da Justiça Sérgio Moro que, após um longo período de silêncio, concretiza seu distanciamento do governo, construindo sua imagem como uma alternativa “moderada” da direita. Fica claro que a mudança visa salvar seus amigos e filhos da investigação sobre o rede de Fake News arquitetada pelo Gabinete do Ódio. 

 

Após suspensão da nomeação de Ramagem pelo ministro do STF Alexandre de Moraes, por entender que houve desvio de finalidade na indicação, Bolsonaro manobra e nomeia o também delegado Rolando Alexandre de Souza, considerado braço direito de Alexandre Ramagem. Quem entra no lugar do Moro no Ministério da Justiça? O advogado e pastor André Mendonça, outro amigo próximo da família. Esse foi o maior absurdo do governo? Dificilmente. Foi a gota d’água para muitos? Foi, mas não deveria ser. O que é uma gota d’água num balde que já estava transbordando desde o início?

 

Em posse do Estado brasileiro, Bolsonaro ainda aproximou figuras caricatas para a composição de seus ministérios. Para além de suas ações, o despreparo técnico e a distorção da realidade tem conduzido pastas estratégicas para promoção de políticas públicas. Contraditórios, sem experiência e acusados – diante do absurdo -, quase sempre de estarem criando cortina de fumaça, seus ministros e articuladores atuam como extensão e reflexo fiel da narrativa bolsonarista. Alguns destacam-se mais que outros: raramente de forma positiva.

 

Damares Alves: Mulher, Família e Direitos Humanos

Antes do Ministério

Antes de assumir o ministério, a pastora, durante palestra em uma igreja em 2013, afirmou que era “Mestre em educação” e “Mestre em direito constitucional e direito da família”. Porém, Damares não possui tal formação. Quando questionada pela reportagem da Folha de São Paulo justificou que, “diferentemente do mestre secular, que precisa ir a uma universidade para fazer mestrado, nas igrejas cristãs é chamado mestre todo aquele que é dedicado ao ensino bíblico”. Durante uma de suas pregações, na Igreja Batista da Lagoinha (2016), clamou que “é o momento da igreja ocupar a nação”. Agora Ministra, reafirmou posição em entrevista concedida à DW Brasil. Damares afirmou ainda que “o Nordeste tem um manual prático de bruxaria para crianças de seis anos”.

 

Azul e rosa

No seu discurso de posse (janeiro de 2019), disse: “neste governo, menina será princesa e menino será príncipe. Tá dado o recado”. Logo depois de assumir o cargo, foi filmada, rodeada de apoiadores, proclamando o que se tornou a sua mais famosa frase: “meninos vestem azul e meninas vestem rosa”. Tudo isso como uma ofensiva contra o que insistem em chamar de “Ideologia de gênero”.

 

This is Damares

Damares ainda nomeou a “anti-feminista” Sara Winters como Coordenadora Nacional de Políticas para Maternidade do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos em abril de 2019; Sara gerou atrito com, e foi processada por Carla Zambelli e pediu exoneração do cargo ainda em outubro de 2019. Sara atualmente lidera um grupo de extrema-direita, denominado “300 do Brasil”, acampados em brasília em apoio à Bolsonaro, contra o comunismo, e pelo “extermínio da esquerda”, e que “só termina quando Rodrigo Maia cair”. Um claro sinal de um grupo que se estrutura com essência paramilitar, ficando ainda mais evidente após Sara admitir a presença de armas no acampamento.

 

“Ninguém abraça morador de rua”

Com um raciocínio impressionantemente desconexo da realidade, Damares explica (maio de 2020) que os baixos registros de pessoas em situação de rua confirmados com covid-19 deve-se ao fato de que “ninguém abraça morador de rua”. Ou seja, não foram as faltas de testes, a falta de acesso à serviços de saúde, a invisibilização social ou a subnotificação de casos. Para a Ministra, a lógica mais coerente é que “ninguém pega na mão deles”.

 

Nepotismo mesmo, e daí?

Mais recente (maio de 2020), sob gestão de Damares, a Funai nomeou irmãos com cinco dias de diferença para cargos ligados de chefia. Apesar de confirmar nepotismo, ambos continuaram com o trabalho e salário no Tocantins.

 

Ingerência da Funai

Ainda em maio de 2020, diante da ingerência de Damares, ainda mais em meio à pandemia da covid-19, o Ministério Público Federal (MPF) chegou a recomendar que a regularização de terras indígenas – atribuída à Funai -, passasse para gestão do Ministério da Justiça.

 

Osmar Terra: Cidadania (exonerado)

Antes do Ministério

Nos anos 70, Osmar era um militante de esquerda, líder de movimento estudantil na PUC-Rio e ligado ao Partido Comunista do Brasil. Formou-se em medicina durante esse período, Sua então namorada, Mônica, foi presa e torturada por Carlos Alberto Brilhante Ustra. Assim que ela foi solta, o casal se exilou na Argentina, retornando ao Brasil apenas nos anos 80. Começou sua trajetória política em 1986, filiando-se ao MDB (PMDB, na época) e ocupando desde então diversas posições – mais recentemente as de ministro do Desenvolvimento Social do governo Temer, ministro da saúde do governo Bolsonaro (até Fevereiro desse ano), além de seu sexto e atual  mandato como Deputado Federal (MDB). Seu modus operandi obscurantista e negacionista em relação à ciência e veracidade das informações lhe rendeu há tempos o apelido “Osmar Trevas” – que inclusive já foi utilizado por Mandetta.

 

Um exemplo pertinente foi sua censura sobre a divulgação do 3º Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira, enquanto ainda era ministro do Desenvolvimento Social do governo Temer. Osmar diz que o motivo da censura é que o instituto Fiocruz, responsável pelo estudo, teria um “viés de defender a liberação das drogas”. A solução? Osmar encomendou um novo estudo, com custo de R$11,9 milhões (quase R$5 milhões mais caro que o último) para tentar provar de que há uma “epidemia de drogas” no país. O extenso estudo da Fiocruz, mostrando o contrário, foi divulgado na íntegra pelo The Intercept Brasil.

 

O Terraplanista twitteiro

Censurar um estudo que não abarca sua narrativa já deveria levantar suspeitas quanto ao compromisso de Osmar com a verdade. Mas o seu descompromisso com a verdade é tanta que já se tornou o “congressista que mais publicou desinformação sobre Covid-19 no Twitter” e inclusive já foi notificado pela plataforma sobre o descumprimento das regras de uso.

 

Negacionista até o fim

Ao longo da participação do GloboNews Debate com Luiz Mandetta e Humberto Costa, criticou a quarentena, dizendo que “Não tem resultado isso. E não seria pior se não tivesse. Só se tivesse um terremoto junto. Não tem possibilidade, não tem estudo científico mostrando impacto”. Mas, mesmo com poucos meses de pandemia, já temos estudos nacionais e internacionais apontando a importância de medidas de isolamento social no achatamento da curva de contágio.

 

Golpista também

Em fevereiro deste ano Terra foi retirado da pasta, com Onyx Lorenzoni ocupando seu lugar. Em diálogo vazado com o novo ministro, Terra faz duras críticas à Mandetta dizendo que o ideal seria ele “se adaptar ao discurso do Bolsonaro” e oferece apoia para buscar um substituto para a pasta: “Eu ajudo, Onyx. E não precisa ser eu o ministro, tem mais gente que pode ser.”

 

Clonoquiner

Após a demissão, Terra segue insistindo no uso de cloroquina e hidroxicloroquina como tratamento contra o vírus, mesmo diante de uma crescente evidência sobre sua ineficácia para essa finalidade, como o estudo do New England Journal of Medicine e o mais recente Journal of the American Medical Association

 

Onyx Lorenzoni: Casa Civil (exonerado, atual Ministro da Cidadania)

Antes do Ministério

Em 2017 o então Deputado Federal – cumprindo seu quinto mandato – admitiu em entrevista ter recebido dinheiro de caixa 2 da JBS para sua campanha de 2014. Onyx chegou a fazer uma tatuagem no seu braço depois disso, como se fosse um ato de redenção: “Eu fiz isso para que eu nunca mais erre. Isso é para me lembrar do dia em que eu errei”.

 

O então juiz federal Sérgio Moro, por sua vez, fez pouco caso da admissão, sustentando que Onyx tinha sua confiança e que ele mesmo “admitiu os seus erros e pediu desculpas”. Lembrando que Moro já tinha uma forte opinião sobre a criminalização do caixa 2, opinando inclusive em palestra de Harvard que “corrupção para financiamento de campanha é pior que para o enriquecimento ilícito”; Onyx posteriormente o nomeou Coordenador do Grupo Técnico de Justiça, Segurança e Combate à Corrupção do Gabinete de Transição Governamental [grifo nosso]. Como cereja do bolo, o chefe da Casa Civil foi visto ao meio de aglomeração, em plena pandemia, no ato do dia 03 de Maio, em apoio ao governo bolsonaro e que pedia o fechamento do Congresso e do STF.

 

Cuidado! Liquidificador!

Em janeiro de 2019, fazendo pouco caso das mortes relacionadas à posse de armas e sem políticas específicas para a pasta até então, Onyx comparou o risco de ter armas em casa com o risco de ter um liquidificador.

 

Filas do Auxílio Emergencial

Entre abril e maio de 2020, durante a liberação do Auxílio Emergencial para trabalhadores informais e desempregados, a falta de mobilização de mais instituições e a centralização do Auxílio apenas na Caixa Econômica Federal resultou em enormes filas que, para Onyx – responsável pela coordenação da liberação do recurso -, era prevista, pois “fila na Caixa é da nossa cultura” e ocorre pela “natureza” do brasileiro. Ainda, no meio do mês (15/05), o Governo segue sem previsão para segunda parcela do Auxílio Emergencial.

 

Paulo Guedes: Economia

Antes do Ministério

Paulo Guedes se notabilizou por sempre defender soluções afinadas com o liberalismo ortodoxo,  como a redução do tamanho do Estado, o corte de gastos, a manutenção do câmbio flutuante e a abertura do país para o comércio internacional. Em 2018, durante a campanha de Bolsonaro, Guedes estava sendo investigado por suspeita de fraudes com fundo de pensões.

 

Servidor parasita e empregada na Disney

Em fevereiro de 2019, no início do governo, O Ministro comparou servidores públicos à “parasitas” ao defender a Reforma Administrativa Durante um seminário, no mesmo mês, o Ministro ainda criticou a época de baixa cotação do dólar (R$1,80), justificando que tinha até “empregada doméstica indo para Disneylândia, uma festa danada.”

 

“A mulher é feia mesmo”

Já em setembro de 2019, o Ministro passa pano para o presidente sobre aquela ocorrência onde Bolsonaro zombou da aparência da esposa do presidente francês Emmanuel Macron, afirmando que “Tudo bem, é divertido. Não tem problema nenhum […] A mulher é feia mesmo”

 

Nota de crédito negativa

Em maio de 2020, a Fitch, uma das principais agências de avaliação de crédito no mundo, mudou a projeção da nota de crédito do Brasil de “estável” para “negativa”,  principalmente por conta do desdobramentos da pandemia e da tensão política do país, principalmente após o rompimento de Sérgio Moro com o governo, e as acusações de interferência de Jair Bolsonaro na PF.

 

Haja besteira do Governo

O real é a moeda que mais desvalorizou em relação ao dólar em 2020 influenciado, novamente, pelo COVID-19 e tensionamentos consequentes do governo Bolsonaro. O Ministro Paulo Guedes já havia afirmado em março de 2020 que o dólar poderia chegar a R$5, mas apenas se fizessem “muita besteira”. O valor do dólar desde então bateu recordes múltiplas vezes, em rápida ascensão, chegando à máxima de R$5,96 (14/05).

 

“200 milhões de trouxas”

O ministro, em uma live promovida pelo Itaú ainda em maio de 2020, criticou a concentração do sistema bancário do Brasil. Para isso, se referiu ao povo brasileiro como “200 milhões de trouxas sendo explorados por seis bancos”.

 

Ricardo Vélez Rodríguez: Educação (exonerado)

Antes do Ministério

Atualizado pouco antes das eleições de 2018, o currículo de Vélez colecionou informações falsas ou distorcidas sobre sua trajetória, levantando suspeitas inclusive sobre sua formação.

 

Cuidado com a KGB Soviética!

Em janeiro de 2019, diante de apurações realizadas por jornalistas em relação ao ministério, a resposta institucional do MEC foi acusar um dos jornalistas de ter treinamento soviético em “marxismo e leninismo” através da KGB (serviço de inteligência secreto da União Soviética).

 

“Brasileiro é canibal”

Em fevereiro de 2019, Vélez afirmou que “o brasileiro viajando é um canibal. Rouba coisas dos hotéis, rouba assentos salva-vidas do avião; ele acha que sai de casa e pode carregar tudo”.

 

Escola sem partido?

Ainda em fevereiro de 2019, Vélez pediu para que escolas filmassem hino nacional junto à leitura de carta com slogan da campanha de Bolsonaro, servindo para vídeo institucional do MEC.

 

“Revisar visão sobre 1964”

Quatro meses a frente do Ministério (abril de 2019), Vélez afirmou querer alterar livros didáticos para “resgatar visão” sobre golpe, propondo revisão histórica da ditadura militar.

 

Abraham Weintraub: Educação (atual)

Antes do Ministério

Em 1989, quando estudante universitário, acumulou reprovações e, mais recente, teve seu histórico vazado com baixíssimas notas. Mais recente (2017), em manifesto assinado por Weintraub quando Bolsonaro ainda era Deputado Federal, foram citados o ministro de propaganda do regime nazista alemão, Joseph Goebbels, o cientista Galileu Galilei e um versículo bíblico.

 

Não muito diferente de seu histórico universitário, Weintraub foi nomeado ao ministério com maior número de servidores (2019) sem qualquer experiência ou histórico em gestão da educação, ou de qualquer órgão público. Cabe ainda destaque que passou mais tempo como investidor no mercado financeiro, do que como professor, sequer possuindo doutorado – titulação citada por Bolsonaro para justificar a nomeação.

 

Desprezo às humanidades

Em abril de 2019, recém chegado ao Ministério, Weintraub se somou à narrativa de Bolsonaro, de que deveriam ser feitos cortes em humanidades, dando prioridade para cursos de exatas.

 

Cortes, balbúrdia e chocolate

Em maio de 2019, o governo realiza cortes a bolsas de pesquisa de mestrado e doutorado, inclusive para alunos que já haviam obtido aprovação. Weintraub defendeu que “não há corte, há contingenciamento” e que “Universidades que, em vez de procurar melhorar o desempenho acadêmico, estiverem fazendo balbúrdia, terão verbas reduzidas.” Reforçou a narrativa em outra entrevista, em Setembro, afirmando que existiam “cracolândias” em universidades federais e que “todo mundo quer uma bolsinha. No Brasil, todo mundo acha que o dinheiro cai do céu”. Tentando justificar o contingenciamento de recursos, Weintraub errou a conta que fez com chocolates, para além de Bolsonaro ter comido um dos doces que representavam recursos públicos.

 

“Chuva de Fake News”

Diante das denúncias de cortes no orçamento do Museu Nacional (maio de 2019), Weintraub gravou vídeo cantando “Singing in the Rain” no MEC, acusando a oposição e a imprensa de provocar “chuva de fake news” contra o governo Bolsonaro.

 

Kafta ou cafta?

Ainda em maio de 2019, Weintraub falava sobre as sanções administrativas que enfrentou na Unifesp e confundiu o autor – superficialmente falando sobre sua obra -, com o prato árabe.

 

Extensivas plantações de maconha

No mês seguinte (junho de 2019), segue ataques dizendo que, por culpa de uma autonomia “soberana” das universidades federais, é possível encontrar “plantações extensivas” de maconha e laboratórios de química “desenvolvendo drogas sintéticas”. Porém não cita exemplos ou provas.

 

Monarquista?

No feriado de proclamação da República (novembro de 2019), Weintraub chegou a defender a Monarquia, dizendo “o que diabos estamos comemorando hoje?”.

 

Pior Enem da história

Em janeiro de 2020, Weintraub divulgou que sua gestão realizou “o melhor ENEM da história”, mas, em poucas horas, estudantes apontam erros na correção de suas provas. No dia seguinte (18), o MEC assumiu tais erros, porém Weintraub divulgou vídeo tocando gaita em seu Twitter, indiferente à angústia dos estudantes. Em meio à crise no MEC, Weintraub anunciou a suspensão das inscrições do ProUni por tempo indeterminado. No dia seguinte (28), mesmo com decisão judicial de suspensão da divulgação dos resultados do SiSU, estudantes relataram que o MEC divulgou tais resultados no portal oficial, levando as entidades estudantis a protocolarem nova denúncia ao Ministério Público. Com a crise do Enem tomando maiores dimensões e acomulando denúncias, Bolsonaro pediu à Weintraub, em fevereiro de 2020, para não ver dados sobre falha no Enem por estar de ‘cabeça cheia’.

 

Turma da Mônica contra a China

Em meio à pandemia (abril de 2020), Weintraub usou gibi da Turma da Mônica para atacar a China, fortalecendo a narrativa do conspiracionismo de que há um plano – originário do Partido Comunista Chinês -, para dominação dos mercados globais a partir do vírus. Novamente, sem qualquer evidência ou provas do que diz.

 

Ataque ao STF

Durante reunião citada pelo então ex-ministro Sérgio Moro, Weintraub teria xingado o STF, dizendo que ali teriam “11 filhos da puta”.

 

| Contraponto que salva vidas

Vale ressaltar que, enquanto escrevemos este artigo, nossas universidades federais estão conduzindo mais de 800 pesquisas relacionadas ao covid-19. Mas a crueldade é tanta que até mesmo quem está colaborando academicamente na busca por soluções frente à essa pandemia pode estar sujeito à perda de bolsa, como foi o caso de Ikaro, aprovado em 1º lugar no programa de doutorado em biologia microbiana da UnB atuando com o sequenciamento genético dos casos de coronavírus.

 

Marcos Pontes: Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações

Antes do Ministério

Após a missão espacial (2006), Marcos Pontes foi alvo de investigação pelo Ministério Público Militar (MPM) para apurar se havia violado o Código Penal Militar, que proíbe o envolvimento de militares ativos em qualquer atividade comercial. Após negar durante anos ser sócio oculto de empresa Portally, Pontes virou dono de 80% das ações da empresa assim que investigação prescreveu, em 2017, se livrando das penalidades durante a investigação.

 

Sem bolsas para humanidades até 2023

Em meio à pandemia da covid-19 (abril de 2020), a qual demanda de enfrentamento multidimensional para sua superação, uma nova portaria da pasta retirou humanas do edital de bolsas da CNPq até 2023, incluindo cursos diretamente envolvidos no combate aos efeitos econômicos, logísticos e sociais da pandemia.

 

No mundo da Lua

Não bastasse a ausência de protagonismo diante da crise multidimensional enfrentada durante a pandemia da covid-19. Aliás, por onde anda o astronauta? O Ministério sofreu redução de orçamento em 2020, comprometendo a produção científica de universidades que demandam de bolsas para realização de pesquisas.

 

Roberto Alvim: Cultura (exonerado)

Antes da Secretaria

Antes de assumir a Secretaria, ainda Presidente da Fundação Nacional de Artes (Funarte), Alvim tentou contratar a própria esposa, a atriz Juliana Galdino, para um projeto pago pelo governo que receberia R$ 3,5 milhões de dinheiro público, levando a investigação do Ministério Público em setembro de 2019.

 

“Racismo Nutella”

Em novembro de 2019, com “carta branca” de Bolsonaro, Roberto Alvim indicou Sérgio Camargo para presidir a Fundação Palmares, entidade cujo objetivo é fortalecer a cultura afro-brasileira. Sérgio, por sua vez, recebeu duras críticas do movimento negro por conta de seus posicionamentos extremamente problemáticos, como o de que a escravidão foi “benéfica para os descendentes”; que temos um “racismo nutella” no país; e que é uma “vergonha” a existência do Dia da Consciência Negra.

 

Já esse ano, em 13 de Maio, data de assinatura da Lei Áurea, Sérgio voltou a provocar desqualificando Zumbi dos Palmares, afirmando que foi um “herói imposto pela ideologia” enquanto exaltava a Princesa Isabel por meio de retweets e artigos, reforçando a posição de branca-salvadora da monarca. Eduardo e Flávio Bolsonaro compartilharam e elogiaram suas postagens.

 

Sem rock, baby

Alvim nomeou o maestro olavista Dante Henrique Mantovani à presidência da Fundação Nacional de Artes (Funarte), o qual, em dezembro de 2019, gravou vídeo afirmando que “o rock ativa a droga, que ativa o sexo, que ativa a indústria do aborto, que ativa o satanismo”.

 

Nazismo escancarado

Em janeiro de 2020, Roberto Alvim gravou vídeo institucional fazendo óbvias referências ao nazismo, desde seu discurso praticamente copiado de Goebbels (ministro da propaganda do governo nazista) à trilha sonora inserida de fundo, de Richard Wagner (cujas obras eram profundamente admiradas por Adolf Hitler). Parecia atuar em uma peça de muito mal gosto.

 

Regina Duarte: Cultura (atual)

Antes da Secretaria

Em 2009, ao participar da 45ª Exposição Agropecuária e Comercial (Expoagro), em Dourados (MS), a atriz se mostrou solidária aos produtores do estado que lutavam contra demarcações indígenas e quilombolas. Regina Duarte ainda mantém, junto com o marido, um criatório de gado de elite, frequentando espaços de poder e prestígio do agronegócio.

Antes de se tornar Secretária de Bolsonaro, a atriz defendeu corte de verbas na Cultura em 2017, apoiando a extinção do então Ministério da Cultura realizada por Michel Temer.

 

Cultura é como o “Pum do palhaço”

Seu discurso de posse (março de 2020) foi um que facilmente engatilha vergonha alheia. No auge (ou ruína) do seu discurso, faz uma analogia de que a cultura é, dentre outras coisas, como “aquele pum produzido com talco espirrando do traseiro do palhaço […] cultura é assim, é feita de palhaçada! ”. Só não ficou claro que tipo de palhaçada seria.

 

Desautorizada!

Em maio de 2020, Regina já demonstrava começar perdida e sem autoridade. Demitiu Dante Mantovani da presidência da Funarte mas, 2 meses depois, o mesmo é reconduzido ao cargo, sem que Regina sequer fosse consultada a respeito da mudança. No entanto, a nomeação foi revogada no mesmo dia e o cargo ficou com Luciano Querido, ex-assessor de Carlos Bolsonaro.

 

“Morbidez insuportável”

Ainda em maio de 2020, em uma entrevista constrangedora concedida à CNN, Regina relativizou as mortes da ditadura dizendo que “sempre houve tortura [na história], logo após cantar um trecho de uma música símbolo da ditadura (Pra Frente Brasil), complementando que as pessoas precisam “parar de olhar pra trás”, além de reclamar que o coronavírus estaria trazendo uma “morbidez insuportável”. A entrevista precisou ser interrompida precocemente após Regina Duarte dar um “chilique”, como ela mesma descreveu, diante da exibição de um vídeo enviado pela atriz Maitê Proença, onde pedia que a Secretária conversasse com a classe artística. Essa sequência de eventos durou pouco menos de 40 minutos. As declarações foram recebidas com um manifesto de repúdio com mais de 500 assinaturas de atuantes da área da cultura.

 

Artistas desamparados

Sem planejamento estratégico apresentado, mesmo após diversas conversas da então Secretária com o Presidente, ainda em maio de 2020, Regina Duarte foi constantemente questionada sobre qual seria a política da Secretaria para aporte emergencial aos artistas brasileiros. Sem respostas, diversos artistas seguem sem aporte do Estado, sem renda e vulneráveis.

 

Ernesto Araújo: Relações Exteriores

Antes do Ministério

Fiel de que o aborto é uma bandeira da esquerda para pregar o extermínio, em 2017, Araújo escreveu em seu blog, “Eles [a esquerda] querem uma sociedade onde ninguém nasça, nenhum bebê, muito menos o menino Jesus. Pergunto inclusive se o sadismo abortista da esquerda não provém de uma pretensão niilista de, em cada bebê, estar matando o Cristo antes de nascer”. Ainda em 2017, Araújo comparou Donald Trump com uma divindade enviada para salvar a civilização ocidental, “somente Trump pode ainda salvar o Ocidente”.

 

Militante antiglobalista, em seu blog com biografia de 2018, Araújo afirma, “Quero ajudar o Brasil e o mundo a se libertarem da ideologia globalista. Globalismo é a globalização econômica que passou a ser pilotada pelo marxismo cultural. Essencialmente é um sistema anti-humano e anti-cristão”. Tal discurso ainda se soma ao negacionismo do aquecimento global e mudanças climáticas, diz que “a esquerda sequestrou a causa ambiental e a perverteu”, também de 2018.

 

Grego Arcaico

A posse do Ministro contou com citações bíblicas em Grego Arcaico e louvores ao nacionalismo, criticando o globalismo e explicando que “O problema do mundo não é a xenofobia, mas a oikophobia, que é odiar o próprio lar, o próprio povo, tripudiar a própria nação”

 

“Nazismo é de esquerda”

Ernesto Araújo afirma, desde 2017, que o Nazismo é um movimento de esquerda e Bolsonaro, claro, pulou no bonde e reforçou a ideia enquanto estava visitando Israel (é sério). Em abril de 2019, ambos foram contestados pelo Museu do Holocausto em Israel por diversos especialistas, dentre estes, historiadores.

 

“Comunavírus”

Em abril de 2020, em seu blog, Araújo utiliza o termo “Comunavírus” para descrever o que seria um “projeto de usar a pandemia para instaurar o comunismo” no mundo. O termo teria sido usado também, no mesmo dia, em reunião citada por Sérgio Moro, onde ele culpabiliza a China pelo vírus, sugerindo que o país visa dominar outras nações, recebido pelo presidente com risadas.

 

Às escuras

Mais recente (maio de 2020), insatisfeito com a cobertura da mídia sobre a sua gestão na pasta, Araújo ordenou que o Itamaraty suspendesse o envio de notícias nacionais para os postos diplomáticos, limitando o conhecimento sobre assuntos pertinentes com os nossos representantes externos. Uma forma não tão sutil de silenciamento da mídia no ápice de um dos momentos mais críticos da história desse país.

 

Ricardo Salles: Meio Ambiente

Antes do Ministério

O advogado foi listado, em diversos portais e entrevistas desde 2012, como “Mestre em Direito Público pela Universidade de Yale”. Essa informação foi desmentida pelo The Intercept Brasil, que entrou em contato com a Yale e confirmou a inveracidade da formação do Ministro, que apenas depois da veiculação da matéria admitiu, via twitter, que a informação era falsa – ou, melhor, um “equívoco da assessoria”. Claro.

 

“Que diferença faz?”

Durante sua participação no programa Roda Viva, em fevereiro de 2019, admite não conhecer o ambientalista Chico Mendes, mas diz que “escuta histórias de todo lado” e que as pessoas do agronegócio dizem que ele “usava os seringueiros para se beneficiar e fazia uma manipulação da opinião”, e demonstra desdém ao afirmar que “o fato é que ele é irrelevante, que diferença faz quem é Chico Mendes nesse momento?”.

 

| Contraponto do meio ambiente

Chico Mendes foi um dos maiores ambientalistas do país, lutando por condições dignas de trabalhos dos seringueiros ao mesmo tempo que buscava diminuir o impacto ambiental e a invasão de terras públicas. E um fator importante nessa história: tudo isso durante a ditadura militar. Chico foi assassinado em 1988 por um fazendeiro, cerca de um ano depois de receber o prêmio Global 500, concedido pela ONU para figuras de maior destaque mundial na preservação do meio ambiente.

 

Sem críticas

Ainda em entrevista (fevereiro de 2019), seguindo a tendência da conjuntura governamental, não sabe ouvir críticas, tampouco respondê-las da forma que é esperada de um ministro. Em resposta à um artigo escrito pelo alemão Philipp Lichterbeck, no DW Brasil, Salles destaca um trecho da matéria onde o colunista fazia críticas ao governo e rebate que a “descrição se parece mais com o que a própria Alemanha fez com as crianças judias e tantos outros milhões de torturados e mortos em seus campos de concentração”. Isso foi via Twitter e o post seguiu no ar.

 

Anistia aos desmatadores

Ao que se assemelha à um esforço para devastar a natureza, Salles aproveita o momento caótico da pandemia (abril de 2020) para anistiar desmatadores da mata atlântica, abrindo portas para maiores danos ambientais, principalmente relacionados ao sistema hídrico. De acordo com levantamento do Inpe, durante o período de isolamento social, em abril, o desmatamento na Amazônia aumentou mais de 63,75% quando comparado ao mesmo mês do ano de 2019.

 

Nelson Teich: Saúde (exonerado)

Antes do Ministério

Em 2019 havia gravado para o grupo “Oncologia Brasil”, vídeo em que Teich explica que “quando você tem dinheiro limitado […], você vai ter que definir onde você vai investir” trazendo o impasse entre tratar uma pessoa jovem e uma pessoa idosa. Veja: a grande questão nessa frase, que pode passar despercebida, não é tanto a difícil escolha de quem deve prioritariamente receber um leito, mas uma construção narrativa que enxerga seres humanos como algo à que se deve “investir” ao invés de se “cuidar”. É a absoluta expressão da mentalidade capitalista que se impõe à lógica do cuidado, escancarando o lucro como oposto à prioridade de preservação de vidas.

 

Em outro vídeo, para o mesmo grupo, já em abril de 2020, o ministro novamente explicita suas prioridades:  “se você se prepara de mais e amanhã sai um tratamento, você fez um investimento enorme, desnecessário […] porque, por exemplo, hoje você tem um número de ventiladores mecânicos que você precisa, aí de repente você dobra a sua quantidade de ventilador mecânico. O que você vai fazer com ele depois?”. O Ministro trata a aquisição de equipamentos imprescindíveis para salvar a vida das pessoas como possíveis inconveniências orçamentárias e logísticas. É aquele raciocínio de “contar com o ovo dentro da galinha” – mas que pode impactar a vida de centenas de milhares de pessoas.

 

De paraquedas

O médico oncologista e empresário assume a pasta no dia 17 de abril de 2020, quando o país já contava com mais de 30,000 pessoas infectadas pelo coronavírus (fora a subnotificação), com crescentes atritos políticos e desgastes cada vez mais evidentes, tanto internamente quanto com a imprensa. Teich é nomeado no lugar de Luiz Henrique Mandetta, que contava com um índice de aprovação de 76%, 2 vezes maior que a de Bolsonaro, mas foi afastado por divergências irreparáveis de como lidar com a pandemia. E o que isso representa pra Teich? Dar conta de uma crise sanitária com taxas de infecção em crescimento acelerado enquanto anda pisando em ovos, já que o recado foi dado: contrariar Bolsonaro é basicamente sinônimo de demissão.

 

Demissão de técnicos

No início de maio de 2020, o ministro exonerou servidores técnicos de cargos de direção da pasta e nomeou militares. Um dos exonerados, Francisco Bernd, que fazia parte do Ministério desde 1985, afirmou que “os militares que chegam não têm absolutamente nenhuma experiência histórica na Saúde. O próprio Teich não tem experiência em gestão pública”. Governadores e profissionais de saúde que se reuniram com o Ministro o descreveram como estando “perdido” em meio à crise sanitária. Teich é aquilo que Michel Temer se queixava no passado: uma peça decorativa.

 

Tão simples?

Com a expansão do vírus se acentuando há meses no país (maio de 2020), o Ministro que, vale lembrar, é um médico especializado em oncologia, demonstrou-se despreparado até com o simples ato de colocar uma máscara no rosto.

 

Nem um mês

Enquanto fechávamos essa matéria, Nelson Teich pediu exoneração do cargo. Quem assume interinamente é Eduardo Pazuello – outro general, outro paraquedista

 

Encerramento

 

Extremamente alinhados com Bolsonaro, os ministros sem experiência ou habilidades para gestão do Estado e, ainda, com desprezo à democracia e às instituições, constituem o núcleo do poder institucional do bolsonarismo. Isto é, a relação traçada ao longo do texto nada mais faz do que evidenciar que o que está sendo implementado de nada difere de seu histórico – não há novidade na agenda bolsonarista. Por outro lado, é tal brutalidade e truculência em posse do Estado brasileiro que retroalimenta a base mais fiel, apostando na polarização como instrumento de manutenção no poder.


Não há como justificar apoio à um governo regido explicitamente por bandeiras de ódio e moralismo barato. E não foi, nem um pouco, por falta de aviso. O campo progressista e democrático deu todos os alertas. Só pode se dizer surpreso quem estava em completo isolamento de toda e qualquer fonte de informação; ou quem não acreditava no que era dito pelo bolsonarismo ao longo de anos, compactuando, em algum nível, com uma ou outra reflexão mais conservadora ou liberal econômica, mas que possibilitou a ascensão de ideologias perversas de um movimento obscurantista, autoritário e absolutamente retrógrado.

 

Não há contradição, no entanto, entre reafirmar a gravidade do apoio ao bolsonarismo – seja por desinformação, por apoio parcial ou limitações ou compreensões distintas -, e fazer deste rompimento um alerta contra outras armadilhas retóricas que venham a surgir. Pois é da crise multidimensional que enfrentamos que devemos jogar luz às atrocidades do bolsonarismo, fazendo com que venhamos a superar a distopia que tem sido construída e, quem sabe no próximo alerta, mais pessoas possam se atentar à realidade.

 

Ao longo do texto você pode ter se perguntado sobre o Queiroz. Pois é, a gente também se pergunta: Cadê o Queiroz? Por enquanto, com 500 dias vendo o povo cada vez mais vulnerável, se “a verdade nos libertará”, só o tempo nos dirá.

 

 

Gabriel Pedroza é Psicólogo, Redutor de Danos no Projeto ResPire do Centro de Convivência É de Lei, além de roteirista e apresentador do programa “Que Droga é Essa?” pelo Justificando.

 

Ergon Cugler é pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), associado ao Observatório Interdisciplinar de Políticas Públicas (OIPP) e ao Grupo de Estudos em Tecnologia e Inovações na Gestão Pública (GETIP) – EACH/USP.


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Sexta-feira, 15 de maio de 2020
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