A ordem de matar e de fazer viver
Segunda-feira, 18 de maio de 2020

A ordem de matar e de fazer viver

Imagem: Agência Brasil / Arte: Justificando

 

 

Por Marlison dos Anjos Carvalho

 

Mais do que escancarar à falência da escalada neoliberal no tratamento do cuidado em saúde, a crise do Covid-19 atualiza e aprofunda as fronteiras que separam a civilização da barbárie no Brasil e no mundo. As estratégias do Biopoder em Foucault [1] são revisitadas e nelas se define quem vive e quem morre. Na Necropolítica Achille Mbembe (2018) [2], ao evocar o impacto do colonialismo nos países outrora colonizados e, que, hoje, se encontrada na periferia do capitalismo global, fica claro quem são os grupos marcadas biologicamente para viver (políticos, banqueiros, empresários, bispos, pastores e toda classe burguesa); e para morrer (pessoas em situações de rua; idosos; pessoas com problemas no registro civil impossibilitadas de receberem auxílio; populações negras, pobres; indígenas; e quilombolas). 

 

Fanon (1968) [3], nos lembra em resumo, que o colonialismo é uma prática capitalista, autoritária, violenta, racista, disciplinadora, de morte, sob a benção supostamente dos representantes de Deus, governada pelo necro-Estado e praticada na ponta por militares, em cinco palavras: racismo, estadolatria, capitalismo, igrejismo e militarismo. 

 

E se tratando do governo Bolsonaro, o apreço pela morte é tão grande, que vira política de campanha. Quem não lembra que quilombolas não servirem nem para procriar?  Mulher não merece ser estuprada porque não é bonita?  E indígenas não precisarem de terras demarcadas, porque não querem viver mais isolados e doentes? 

 

 Engana-se quem pensa que se tratar de apenas discurso. Afinal de contas, nos lembra Foucault (2012)[4], é no discurso que se exerce o controle e a validação das regras, pois nenhum discurso é neutro, e é carregado de  intencionalidade que se materializa em práticas e ações pré-elaboradas e definidas por relações de poder coercitivas e consensuais. 

 

O discurso pode ser conceituado como uma rede de signos que se conecta com outros tantos discursos, em um sistema aberto que tanto regista quando reproduz e estabelece valores de uma determinada sociedade, perpetuando-os. O discurso, portanto, é um instrumento de organização funcional que pretende estruturar determinado imaginário social. Dessa forma, discurso de Bolsonaro carrega práticas biopolíticas de morte inscritas em rituais e encenações aceitas em sociedades racializadas.  

 

Essa prática de matar o outro vai ao encontro daquilo que Toni Morrison (2019)[5] chamou de outremização que procura expressar como o escravizador se convence psicologicamente da sua distinção natural e divina com relação ao escravizado. Dessa maneira, ele se sente legitimado para cometer atos covardes como de torturar, estuprar, açoitar e matar. Trata-se do uso da justificativa divina, logo, igrejista, que nega a ciência, que subjaz a existência de diferentes raças. A outremização tem a necessidade de criar o outro, o estrangeiro, estabelecendo uma relação direta com a ideia de nacionalismo. Todavia, a outremização transcende o nacionalismo, pois vê o outro a partir da invenção (supostamente científica, mas certamente social, política, cultural e econômica) da ideia de raça. Em outras palavras, a raça é uma invenção, mas o racismo, não. O racismo, portanto, é uma consequência de algo que não existe (MORAES, 2020). [6]

 

Com o agravamento da crise e recuo das cifras econômicas, a pauta de salvar a economia em detrimento da vida das pessoas, colocada pelo governo Bolsonaro, assim como Trump, e os empresários contrários as medidas de isolamento. Ambos negacionista da ciência, e contrários às recomendações da OMS,  Estes atores (sociais e políticos) criam arranjos de estratégias biopolíticas que acena para territorialidade da vida, ou melhor, da vida econômica, mesmo sabendo que a economia não pode ser salva, por ela ser a própria causa da doença. Afinal, o neoliberalismo mata mais que o vírus. É só fazer as contas!  

 

Ao mesmo tempo, tais atores cria uma governança da morte, (governança por se tratar não de um único agente, mais de vários) que se manifesta, para ficar em poucos exemplos, na dispersão de corpos enclausurados em casas abandonadas, nas ruas, ou até mesmo em valetas coletivas, abertas por retroescavadeiras. Uma territorialidade da morte. O virús coloca vidas em risco, mas a gestão dele é que é o maior perigo. 

 

Longe das receitas kenesyanas, o neoliberalismo trouxe consequências que, sem dúvidas, serão sentidas por todas as pessoas, e perdurar por muitas tempos, em todas as partes do mundo. Entretanto, as suas custas serão pagas pelos estados e pelas populações pobres- já estamos pagando com o recuo dos estados na prestação do cuidado em saúde as suas populações e nas mortes em massa que não para de cresce-, porque, certamente, as multinacionais, os bancos, as empreiteiras e as demais frações que representam o capital sairão dessas ilesas e com a musculatura devida para disputa das novas narrativas abertas com o “novo mundo” que se anuncia.  Eles privatizam os lucros e democratizam os custos.

 

A despeito do Brasil, o artigo da UOL, desta quarta-feira (06) mostra porque país está projetado para matar pobre e preto na pandemia. Enquanto o país batia novo recorde de mortes diárias pelo coronavírus, o IBGE revela que a concentração de renda continua em patamares estratosféricos. A desigualdade social, que fica mais gritante na pandemia, seria motivo de vergonha em qualquer lugar civilizado, aqui é razão de orgulho. É cada um por si, porque é Deus acima de todos, todas e tudes!

 

IBGE divulgou, também, os números consolidados sobre o rendimento do trabalho em 2019, mostrando que o 1% mais rico ganhou, em média, 33,7 vezes o que recebeu o 50% mais pobre.  O Nordeste (R$ 569) e o Norte (R$ 633) são as regiões com as menores médias de rendimento para a metade da população mais pobre. O vírus é democrático, mas o Brasil, não é. 

 

Com tudo isso, vimos também que o trabalho das domésticas é considerado essencial em plena crise sanitária pelo governo de Zenaldo Coutinho PSDM, do Pará. Quer dizer, elas, as domésticas, podem, em pleno pico da contaminação, expor suas vidas e de suas famílias a situações de morte. 

 

Ainda relacionado a desigualdade, a despeito da disponibilidade de leitos de UTI na Bahia, de acordo com recomendações da OMS, somente 3, das 28 regiões de saúde possui leitos de UTI adequado as recomendações, isto é,  de 1 a 3 leitos para cada 10 mil hab. As demais, ou não possuem leitos de UTI, ou possuem em números inadequados.  Numa possível contaminação massiva do Covid-19, a tragédia já foi anunciada. Seria o apocalipse que muitos falam?  Pode ser cedo pra termos respostas, mas, se assim for, sabe-se que a tragédia, assim como a do covid-19 não vai ser democratizada! 

 

De acordo com o artigo de Eustáquio Diniz Alves (06) publicado na revista [EcoDebate], provavelmente, ainda esta semana, o Brasil vai atingir o segundo lugar no número diário de casos e mortes e ao longo do mês de maio o país pode atingir o segundo lugar geral, ficando atrás apenas dos EUA. Não é sem razão que Trump e Bolsonaro estão sendo acusados de genocidas, assim como vinham sendo chamados de ecocidas, pela atuação no meio ambiente.

 

 

Marlison dos Anjos Carvalho é graduado em Geografia pela UNEB. Mestrando em Geografia pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFBA, na linha de concentração Geografia Urbana e Regional. Membro do Grupo de Pesquisa DIT (Dinâmicas Territoriais) da UFBA. Educador Popular no Pré-vestibular Quilombo Ilha.


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Notas:

[1] FOUCAULT, M. O Nascimento da Biopolítica. Curso dado no Collège de France, (1978-1979).

[2] MBEMBE, Achile Necropolítica – biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte. São Paulo: N1 edições, 2018.

[3] FANON, Frantz. Os condenados da Terra. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1968.

[4] FOUCAULT, M. A Ordem do Discurso. Aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2/12/1970. Tradução Laura Fraga de Almeida Sampaio. São Paulo: Edições Loyola, 2012.

[5] MORRISON, Toni. (2019). A origem dos outros – seis ensaios sobre racismo e literatura. São Paulo: Companhia das Letras.

[6] MORAES, W. A Necrofilía colonialista outrocída no Brasil. Revista Estudos Libertários (rel), UFRJ, vol. 2. N º3; ed. Especial nº1] 1º Semestre de 2020.

Segunda-feira, 18 de maio de 2020
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