George Floyd: A América Racista Mostra seus Dentes
Terça-feira, 2 de junho de 2020

George Floyd: A América Racista Mostra seus Dentes

Imagem: TVI24 – Arte: Justificando

 

Por Timóteo Bezerra da Silva

 

George Floyd, até então um desconhecido, uma pessoa comum tentando ganhar a vida e como Solomon Northup, que enquanto era torturado por homens brancos gritava dizendo que era livre, seu crime foi ter nascido com a pele negra na América. Passados 179 anos desde que Northup fora preso, homens brancos ainda torturam e matam homens negros simplesmente por se acharem no direito de fazê-lo, e escancara para o mundo a ignomínia que a América tenta esconder no armário: o racismo.

 

 

Semana passada, foi publicado um texto que falava sobre o racismo incorporado como política de Estado na gestão dos indesejáveis (Leia A Carne mais Barata do Mercado é a Carne Negra). E nesse texto falou-se sobre o livro Entre o Mundo e Eu do jornalista americano Ta-Nehisi Coates que escreve para o seu filho alertando para a destruição dos corpos negros na América.

 

Em um primeiro momento, o livro até causa uma reação que tende a achar que o autor exagera na maneira como adverte o filho para ter cuidado com o seu corpo, a atenção e prudência ao lidar com a polícia, isso provoca o leitor, o incomoda a ponto de causar um ceticismo, e de certa maneira cria até uma resistência com a narrativa do autor pelo o seu excesso de cuidado com o corpo negro. Porém, vendo o que aconteceu com George Floyd, não é nada descomedido o que Coates tenta ensinar para o seu filho, a destruição do corpo negro é uma verdade insofismável.

 

O Grande Sonho Americano foi inaugurado através do derramamento de sangue em favor do progresso. Será que alguma vez nos perguntamos sobre preço pago por toda essa riqueza? Os homens mais ricos da América viviam no vale o rio Mississípi, um dos Estados mais ricos do incipiente Estados Unidos, onde toda aquela opulência derivava da mão de obra escrava que trabalhava nas grandes fazendas de algodão.

 

Estima-se que no início a Guerra Civil (1861-1865)[1], os escravos nos Estados Unidos valiam $ 4 bilhões de dólares, isso era mais do que toda a indústria, ferrovia, oficinas e fábricas americanas na época, nenhuma outra atividade era tão lucrativa quanto a escravidão. Quem hoje vai à América e ver a grandiosidade das cidades, a pujança da riqueza americana talvez não imagine que tudo isso foi conquistado com o sangue de muitos corpos negros traficados da África e obrigados a trabalhar até a morte pela grande nação fundada sob os valores da liberdade e igualdade.

 

A grande ironia é que esses valores nortearam a criação do espírito americano, não eram raras as vezes que após o cultos dominicais realizados nas fazendas, os senhores de escravos como forma de demonstrar o amor cristão submetessem seus escravos a torturas, espancamentos, estupros e humilhações das mais diversas formas. Assim foi construído o grande sonho americano. Parece que na América, alguns são mais iguais que outros.

 

Na América, faz parte da tradição a destruição do corpo negro, essa é a herança dos seus fundadores. Enquanto os senhores de escravos entoavam hinos de louvor a Deus e liam a bíblia, o canto dos escravos vinha através de um corpo escravizado que alimentava as plantações de tabaco e um espírito atormentado, cujo o sangue irrigava as plantações de algodão.

 

Com o fim da Guerra Civil em 1865 foi aprovava a 13ª emenda na Constituição Americana, que previa o fim da escravidão, todavia, a emenda trazia uma ressalva, dizia que a escravidão estava abolida, salvo como punição por crimes, ou seja, os negros poderiam ser escravizados se fossem condenados por crimes, a consequência foi criar a maior população carcerária do planeta.

 

A grande solução encontrada foi criar normas de exceção para negros, cria-se então a segregação racial na América, lugares para negros e brancos, banheiros para negros e brancos, vagas para negros e brancos nas escolas e universidades, os assentos na frente dos ônibus para brancos e os últimos lugares para os negros. Como esquecer de Rosa Parks em 1955 na cidade de Montgomery-Alabama quando recusa-se a levantar do seu do lugar no ônibus para um homem branco sentar, 

 

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Alguém poderia questionar que isso foi há muito tempo, atualmente as coisas estão diferentes. Coates vai dizer que pessoas que pensam assim são sonhadores, pessoas que acreditam em uma América igualitária, justa para negros e brancos. Coates relata um caso dos moradores de uma região chamada Levittown na Pensilvânia que em 1957 defendiam o direito de manter a segregação na cidade “Como cidadãos de moral, religiosos e cumpridores da lei, achamos que não estamos sendo preconceituosos ou discriminatórios em nosso desejo de manter a nossa comunidade como uma comunidade fechada” foi o que disse o grupo de moradores.

 

O fundamento dos sonhadores[2] é acreditar que a América é justa, que seu sistema de justiça é íntegro e imparcial, que a polícia não é racista. Toda história é tecida através uma narrativa, porém, a narrativa que se faz com a história de segregação do passado e presente é a explicação para justificar e a tranquilizar a consciência dos sonhadores. Acordar desse sonho e passar a perceber os horrores significa abandonar a mentira contada pelos construtores da história que versaram sobre um país construído com lastro na competência, na igualdade e na justiça.

 

Contudo, há algo de podre no reino da América, a polícia que matou Floyd é somente o reflexo de uma América que traz no bojo da sua democracia o flagelo do racismo, afinal, os políticos que determinam a política de segurança pública não foram eleitos por uma minoria. A forma desumana como a polícia executou George Floyd é produto de uma democracia aristotélica, exclusivista formada por um misto de fariseus e maquiavélicos.

 

Na grande América, a vontade majoritária envia policiais armados aos guetos, torturam suspeitos em nome de proteger e servir, fazem detenções aleatórias e essa miséria civilizacional ocorre sob o olhar condescendente de uma sociedade indolente, que como escreve Enrique Dussel, desprovida de uma ética da alteridade que viver sob a lei do individualismo.

 

Edward Banfield[3], economista americano, na sua obra A Base Moral de uma Sociedade cunhou o termo “familismo moral” que se refere a uma forma de comportamento que impede qualquer iniciativa de cooperação entre as pessoas para lidar com problemas comuns a elas. Talvez a questão do racismo estrutural nos EUA não seja problema do país, seja uma luta só dos negros, porém, Banfield mostra que as consequências de uma sociedade que vive sob as regras do “familismo moral” é a indiferença social, a formação de pessoas incapazes de agir de maneira que transcenda o interesse próprio, ou seja, uma falência do compromisso moral e noção do seja certo ou errado, justo ou injusto. 

 

De acordo com Coates, o problema da polícia não é que eles sejam porcos fascistas, mas que a América é governada por porcos fascistas. O Presidente Donald Trump não emitiu nenhum comunicado oficial à imprensa condenando a ação criminosa da polícia no caso Floyd, isso pode até parecer que não é importante, mas que na verdade é como um “dog whistle”, uma mensagem de indiferença que reverbera como ondas entre aqueles que usam das benesses da democracia e estrutura do Estado para o cometimento de atos criminosos.

 

Solomon Northup[4] fazendo a descrição da casa onde fora mantido prisioneiro e torturado, era uma casa onde se podia avistar o Capitólio em Washington, onde um dia, homens públicos se comprometeram em construir um país que defendesse valores como justiça, liberdade e democracia, uma casa, cuja fachada dava uma estética de moradia comum, em que ninguém que passava pela rua desconfiava dos horrores em que lá eram cometidos. A grande construção social feita em torno da democracia americana produz para quem olha uma atmosfera de grande nação, gigante da economia mundial, contudo, é olhando mais de perto como escrever Millôr Fernandes, que podemos ver as rachaduras na estrutura dessa casa.

 

Northup escreve em seu relato, que rogava por misericórdia, porém a resposta de obteve fora mais açoites e xingamentos. Após a sessão de tortura, Burch, um dos seus algozes, jurou que o dobraria, que o mataria se voltasse a dizer que era um homem livre. O joelho do policial no pescoço de Floyd não é casual, é o símbolo de que o racismo está mais vivo de que nunca, corre pelas veias da América, ele não acaba com a criação de leis e nem se desnatura no decorrer do tempo. O racismo está introjetado na natureza humana, e buscará sempre “dobrar” suas vítimas, e enquanto for essa a consciência do corpo social, essa barbárie continuará existindo.

 

A vida dos negros é barata, são as palavras ditas por um pai ao filho. Cidades como Boston, Princeton, New York, New Orleans, Minneapolis e outras têm suas ruas banhadas pelo sangue dos negros mortos que ainda clamam por justiça.

 
Durmamos com esse barulho.

 

 

Timóteo Bezerra da Silva é técnico em gestão educacional na Secretaria de Educação do Distrito Federal.


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Notas:

[1] COATES. Ta-Nehisi. Entre o Mundo e Eu. 1ª ed. Rio de Janeiro. Pág. 105. Objetiva. 2015.

[2] COATES. Ta-Nehisi. Entre o Mundo e Eu. 1ª ed. Rio de Janeiro. Pág. 102. Objetiva. 2015.

[3] GIANNETTI. Eduardo. Vícios privados, benefícios públicos? A Ética da Riqueza das Nações. Pág. 165. São Paulo. Companhia das Letras. 2007.

[4] NORTHUP. Solomon. Doze Anos de Escravidão. Pág. 37. Tradução de Caroline Chang. 1ª Ed. São Paulo. Companhia das Letras. 2014.

Terça-feira, 2 de junho de 2020
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