A importância de se conhecer a regra da dupla negação
Quinta-feira, 4 de junho de 2020

A importância de se conhecer a regra da dupla negação

Autor de stencil: Desconhecido – Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

 

Por Ricardo Manoel de Oliveira Morais

 

Gostaria de me adiantar a uma crítica de que eu estaria me valendo da falácia argumentativa ao falso dilema. Não que um anti-antifascista fosse capaz de imprimir tal crítica. Se esta figura sequer conhece a máxima da dupla negação, imagine saber o que é uma falácia.

 

Mas em que consistiria a falácia do falso dilema? Precisamente no fato de oferecer um número limitado de alternativas argumentativas ao interlocutor para criar uma falsa percepção da realidade. Exemplifico: “ou você está comigo ou contra mim”. Ora, uma pessoa facilmente poderia dizer que entre estar com o orador e estar contra ele, há uma infinidade de alternativas. 

 

Neste sentido, quando digo que os anti-antifascistas deveriam se atentar à regra básica de coerência argumentativa, acredito que isso seja mais um conselho a eles do que qualquer outra coisa (embora eu duvide que eles consigam alcançar a complexidade de uma ironia). Se uma pessoa é contrária ao antifascismo, ela só pode ser [trecho censurado pelo SNI]. Por isso me adiantei quanto à crítica da falácia do falso dilema. Sim, estou utilizando, no âmbito da lógica argumentativa abstrata, de um falso dilema: ou se é antifascista ou se é anti-antifascista. Mas, como pretendo mostrar, quando estamos falando de fascismo, o falso dilema não advém propriamente da oposição ao fascismo, mas dele próprio. Explico. 

 

O termo “fascismo” tem sido empregado de forma constante. Muitas pessoas acusam o fato de ter havido uma banalização da expressão. Banalizado ou não, o fascismo é um termo político bastante impreciso, razão pela qual devemos, antes de tudo, tentar apreender alguns de seus elementos gerais para não cairmos em uma imprecisão terminológica (já basta a acusação do falso dilema). De modo bastante esquemático, eu apontaria alguns indicadores do fascismo para que o leitor, após compreendê-los, tire suas próprias conclusões. Tais indicadores se fizeram presentes em regimes como o de Mussolini, no Nacional-Socialismo e em sua versão latina, Estado Novo. 

 

O primeiro indicador seria o estabelecimento de um inimigo que deve ser extirpado do corpo social. Este inimigo pode ser traduzido em termos étnicos, raciais, culturais, sociais, políticos. A escolha de um inimigo, para o fascismo, é fluida, pois permite o seu redirecionamento constante. A função central desta “escolha do inimigo” é precisamente criar uma imagem de união nacional contra a degeneração causada pelo inimigo, contra o que impede o avanço absoluto. Pouco importa se o inimigo é real ou imaginário, desde que ele cumpra a função da união nacional. (Não quero induzir o leitor, mas na noção do inimigo fascista caberiam os petistas, os comunistas, os anarquistas, os antifascistas, os negros, as feministas, os professores doutrinadores. Caberia, inclusive, uma instituição, como o STF ou o Congresso. Mas não quero induzir).  

 

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O segundo indicador, intimamente ligado ao primeiro, seria o caráter interno deste inimigo. Ora, caso o inimigo fosse externo, apenas uma guerra poderia levar à sua derrota. A mobilização interna contra este inimigo não teria sentido caso fosse ele estrangeiro. Este inimigo deve estar próximo, até mesmo na família. Não apenas os opositores institucionais (STF, Congresso, Maia) seriam inimigos, mas o vizinho cujo filho cursa Ciências Sociais numa universidade pública poderia sê-lo. A derrota do inimigo interno demanda a mobilização constante e o medo incessante deste inimigo que é, paradoxalmente, fraco e perigoso. Este indicador diz respeito à necessidade de sobrevivência frente às ameaças que este inimigo e os inimigos invisíveis representam.  

 

O terceiro indicador diz respeito à politização de esferas não políticas da sociedade, de modo a esvaziar a política (se algum anti-antifascista chegou até aqui, seguramente esta frase o levou a desistir da leitura, por isso peço que continue comigo. Como estão vendo, o anti-antifascista é alguém simplório demais para uma frase como esta). No fascismo, a arte, a medicina, o estudo social sobre o fenômeno das drogas, a ciência ambiental, (a cloroquina?) se tornam questões políticas, questões de opinião. E caso você não concorde com a “opinião”, seguramente você é um inimigo.

 

O último indicador diria respeito à figura de uma liderança personalista. O líder fascista é alguém que não possui apreço pelas instituições comunitárias, pela impessoalidade. Ele é um ser que tenta criar um laço de identidade com a base social, mas não uma identidade através de sua força, mas de sua fraqueza, de sua mediocridade. O líder fascista, ao mostrar que possui as mesmas dificuldades e defeitos do “homem medíocre” (e eu não disse médio propositalmente), ele cria uma relação de identificação com sua base social, de modo que a lei, as convenções sociais, as liturgias mais básicas se dissolvem. (Novamente, sem querer induzir, o líder fascista seria alguém que tem filhos problemáticos, justamente como a sua base). 

 

Diante disso, o que vemos é que o fascismo empurra a sociedade para um falso dilema: ou se está contra os inimigos e com o líder (que é alguém como “nós”) ou se é o inimigo. Com isso, eu proporia um exercício de raciocínio um pouco diferente: inverter a falácia fascista. Se o fascismo se vale do falso dilema, a única alternativa é inverter este falso dilema, mostrando que ou se é antifascista (e aqui se pode ser tucano, petista, comunista, liberal, libertário, feminista, professor, socialdemocrata, conservador, legalista, institucionalista, jornalista) ou se é anti-antifascista. 

 

Como disse no início, o falso dilema impõe uma quantidade limitada de alternativas, criando uma falsa representação do real. O antifascismo é justamente aquilo que mostraria que a realidade é mais complexa que o mundo imaginário do nosso presidente. Existe algo além da dualidade entre a “utopia de verde e amarelo” e seus inimigos. Existe algo além do dilema entre a militarização “necessária” e a balbúrdia. Existe algo além do bolsonarismo e dos que estariam contra a “nação”. Reprimir aqueles que combatem o fascismo não é reestabelecer a ordem, mas ser justamente aquilo que o antifascismo combate. 

 

 

Ricardo Manoel de Oliveira Morais é doutor em Direito Político pela UFMG. Mestre em Filosofia Política pela UFMG. Bacharel em Direito (FDMC) e em Filosofia (FAJE). Professor


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