O fascismo em “Pilatos” de Cony: a lição imortal de um imortal
Terça-feira, 23 de junho de 2020

O fascismo em “Pilatos” de Cony: a lição imortal de um imortal

Imagem: Divulgação

 

 

Por João Paulo Rodrigues de Castro

 

Ninguém captou melhor o espírito fascista do que Carlos Heitor Cony. Em sua celebrada obra, “Pilatos”, o fascista é apresentado na veia de “Dos Passos”. Externamente, o personagem é um “homem de grandes ideias”. Por dentro, é um homem com forte instinto, grande libido. Se boas ideias todos podem ter, fascistas ou não; está na força da libido, autêntica propulsora de grandes ideias, a raiz de todo o mal. Para Cony, só resta uma solução. Retroagir ao pacto social, depurando todos os desejos por detrás do “véu da ignorância” a apenas um: o falo. Eis a solução apresentada pelo autor para exterminar a chaga do fascismo.   

 

Tal como os grandes teóricos do contrato social; Cony inicia seu texto fora da história, num cenário hipotético:

“É difícil — ou inútil — datar o início desta história. Ela está começando hoje, talvez só comece realmente amanhã, mais tarde ainda, ou nunca. Sei que a história existe, está escrita e inscrita em minha carne, mas creio que ela não teve um início, nem mesmo no dia em que resolvi dar um nome ao meu pau”

 

A fim de preservar a abstração, Cony também não nomina o personagem principal do romance. Para o desenvolvimento da narrativa, o protagonista é o homem que carrega o órgão sexual num vidro de compota. Perdera o pênis em um acidente automobilístico. No vazio, passa a dar um valor antes imerecido ao seu órgão genital. Antes nem sequer merecia um nome. Agora, é proclamado rei. Será chamado de Herodes, em alusão ao rei que determinou o massacre dos inocentes (Mateus 2:16-18). O vermelho de sangue dos feridos e a força da glande, no auge de seus melhores momentos, gerou a associação e o batismo real.  

 

Pobre e sem órgão genital, o protagonista perambula pelas ruas com um objetivo simples, sobrevivência. Sua e de seu órgão genital. Até que conhece o nosso personagem principal: Dos Passos. Autodeclarado fascista, Dos Passos acha importante ter um chefe, não importa qual. Pouco importa se de esquerda ou de direita. Afinal, nunca vi fascista bradar fascismo, colocar fascismo em bandeira. Só há antifascistas, de um lado e de outro. No cenário de lei e ordem, devemos buscar a vantagem social, que, por sua vez, advém de boas ideias – democraticamente, das boas ideias; que, por sua vez, são garantidas a todos…

 

Dos Passos não demora a colocar sua teoria em prática. Após fazer amizade com o protagonista – que não tem qualquer pretensão política, pois não tem mais desejo, mais falo –, propõe uma sociedade com ele. O contrato social da joint venture: transformar o pau de compota em dinheiro, suor em ouro. O primeiro passo da sociedade seria destruir o Cristo Redentor. É uma estátua de “quase quarenta metros, não serve para nada”, sugere Dos Passos. No lugar, deveríamos fazer “um monumento ao caralho, e o botamos lá em cima”. 

 

O protagonista refuga, pois não pretendia se afastar do Herodes. Afinal, era a única coisa de valor de que dispunha. 

 

Dos Passos transige. Sugere que Herodes fique trancafiado numa redoma de vidro dentro do monumento, a fim de proporcionar uma experiência viva, rendendo um ingresso à parte por visitante. O plano é deixado de lado, por uma questão de custo-benefício: dinamitar o cristo redentor sem ser pego pela polícia demandaria um grande custo operacional. Não valia a pena…   

 

“Dos passos” e suas grandes ideias não pararam por aí. Outra grande e perigosa ideia será a de utilizar os pelos pubianos do protagonista, que se avolumaram após a derrocada de Herodes, para construir uma espécie de violino sensual. Após descobrir que a banda local precisava de um violonista para um evento local, Dos Passos aceitou participar da orquestra. Detalhe: não sabia tocar. A única coisa que possuía era um tampo de violino. Ao ser perguntado pelo vocalista se sabia tocar; não teve dúvida. Sei tocar, sou formado em música. Só faltava arrumar as cordas. Até a noite estará pronto o instrumento.  Apareço no baile na hora combinada. 

 

Apareceu, e com os pelos pubianos do protagonista. Os mais fortes, pinçados um a um da zona clara. Ao todo eram seis, todos minuciosamente enrolados na tarraxa. O resultado foi estrondoso. Dos Passos começou a tocar, e nem o maestro se deu conta do ineditismo. A plateia se animou como nunca, tanto que a polícia interveio. Crimes contra os costumes, contra a vizinhança…Todos para o camburão!

 

Dos Passos tentará até o fim um lugar ao sol. Ideias não lhe faltavam. Fartas e perigosas ideias. O real protagonista do romance, por sua vez, desistirá da ideia de compensar a perda de Herodes com uma compota de vidro. “Solitário e mutilado, minha salvação deveria começar pela consciência de que nada era e de que nada me era devido. Precisava me agarrar à vida. Morto, de nada eu me adiantava” [1]. Jogou a compota no mar… Herodes nunca mais foi visto.

 

Cony retrata o fascista muito além de qualquer estereótipo político. Afinal, há fascistas de direita e de esquerda [2], todos cientificamente defensáveis. [3] Vai além de Freud, ao propugnar que contenhamos o vigor sexual, ao menos nas ações públicas. 

 

Que o fascista seja o mais despudorado, isso só nos faz distinguir dele pela quantidade, não pelo gênero. Dos Passos não ascendeu à glória por uma obra do acaso. Mas todo aquele que ascendeu em nossa sociedade usou e abusou da vantagem social. Insumo carburado pelo instinto sexual, presente em todos nós. Somos todos fascistas! 

 

Quer a verdade, o antifascismo? Procure em quem está idealmente mais próximo de banir definitivamente “Herodes”, ao menos da vida pública. Eis uma grande lição de “Pilatos”, obra imortal do imortal Cony.

 

 

João Paulo Rodrigues de Castro é analista judiciário do STJ, foi defensor público federal. Mestrando em Direito na UnB.

 


O Justificando não cobra, cobrou, ou pretende cobrar dos seus leitores pelo acesso aos seus conteúdos, mas temos uma equipe e estrutura que precisa de recursos para se manter. Como uma forma de incentivar a produção de conteúdo crítico progressista e agradar o nosso público, nós criamos a Pandora, com cursos mensais por um preço super acessível (R$ 19,90/mês).

Assinando o plano +MaisJustificando, você tem acesso integral aos cursos Pandora e ainda incentiva a nossa redação a continuar fazendo a diferença na cobertura jornalística nacional.

[EU QUERO APOIAR +MaisJustificando]

Notas:

[1] CONY, Carlos Heitor. Pilatos. São Paulo: Companhia das Letras, p. 132.

[2] Apesar das críticas, Godberb é o nome mais lembrado quando se alude, cientificamente, ao termo “fascismo de esquerda”. Para mais, cf.: GOLDBERG, Jonah. Fascismo de esquerda. São Paulo: Record, 2009.

[3] George Orwell, no ensaio “o que é fascismo?”, concluiu que qualquer definição científica do termo está fadada ao insucesso. O autor, que se notabilizou por duas obras ficcionais (A revolução dos bichos e 1984), jamais escondeu sua ambição: fazer do texto público uma arte. Como ensaísta, com os pés na realidade, trilhava primorosamente o caminho inverso: depurar a arte de qualquer simbolismo, da falsa retórica, para alcançar a verdade, o cru, o real.  Concluiu que qualquer definição de fascismo está impregnada de emotivismo. Para mais, cf.: ORWELL, George. O que é fascismo? e outros ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2017, p. 55-58.

Terça-feira, 23 de junho de 2020
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]