O governo brasileiro é o lobo do seu próprio povo
Terça-feira, 14 de julho de 2020

O governo brasileiro é o lobo do seu próprio povo

BG: Agência Brasil – Foto: Marcello Casal Jr. / Agência Brasil – Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Luana Broni de Araújo

 

O filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679) ao escrever sua obra célebre Leviatã (1651) elaborou uma teoria política que têm como base as moções voluntárias, comumente conhecidas como paixões. Dentre elas, a paixão do medo recebe uma atenção demasiadamente essencial. Para Hobbes, medo significa a presença de um iminente perigo, é a expectativa de um mal. Ter medo é ter consciência da sua própria fraqueza. Para Strauss² (2016) “o medo é a força que leva os homens a ver.”

 

 

Portanto, ter medo não significa aqui ser covarde ou algo do tipo, mas significa preservação. O homem com medo é capaz de se defender e lançar estratégias que visem sua autoproteção. A ausência de medo diante de uma situação de perigo, insere os indivíduos em uma condição de desproteção. A vulnerabilidade torna-se presente e o indivíduo torna-se presa. 

 

Esse contexto de vulnerabilidade, ausência de medo e até mesmo negligência diante de uma situação não favorável à existência humana nos remete a algo que estamos presenciando: a pandemia causada pelo COVID-19 somada a um governo altamente incompetente que lança seus cidadãos a um abismo, a uma situação que Hobbes sempre  se preocupou e entendia que todos nós deveríamos evitar a todo o custo: a morte. 

 

Se Hobbes entende que o Estado deve assegurar a preservação de todos os indivíduos, garantindo a possibilidade de uma vida menos embrutecida e curta como era de se esperar no estado de natureza, a cúpula do governo brasileiro liderada por Jair Bolsonaro pensa exatamente o contrário.

 

Desde o surgimento do primeiro caso de contaminação por covid-19 no Brasil, todos os dias vivenciamos um show de horror, seja por conta da pandemia ou pela atuação e falas dos nossos governantes, com atenção especial para o Presidente da República³: 

 

29/03 – “Todos nós iremos morrer um dia.”

12/04 – “Vírus está indo embora.”

20/04 – “Eu não sou coveiro, tá?”

28/04 – “E daí? Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre.” 

14/05 – “Tá morrendo gente? Tá! Lamento? Lamento! Mas vai morrer muito, muito, mais muito mais se a economia continuar sendo destroçada por essas medidas.”

 

De histeria à gripezinha, compreendendo que o lockdown e as medidas isolamento que são defendidas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) estavam incorretas e compunha um verdadeiro absurdo, pois prejudicaria a tão importante economia. Essas são as ideias proferidas pelo chefe do Executivo e aceitas sem muita reflexão pelos seus adeptos. 

 

Além do mais, quem pensa diferente de Bolsonaro é facilmente descartado mesmo quando faz parte do governo. Pudemos observar isso com os últimos dois ministros da saúde: Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich. Ambos tinham uma opinião contrária à de Bolsonaro em relação ao uso da cloroquina em pacientes com Covid-19. Além da divergência em relação ao uso da cloroquina, os dois últimos ministros compreendiam que as medidas de isolamento seriam eficazes para a não propagação do vírus e uma possível contaminação em massa, consequentemente evitando uma superlotação no Sistema Único de Saúde (SUS). Enquanto Bolsonaro, defendida exatamente o contrário. 

 

Os discursos de Bolsonaro defendendo o isolamento vertical se propaga entre os seus apoiadores que disseminam seus ideais nas redes sociais, em especial, nos grupos do WhatsApp, ganhando cada vez mais força e contribuindo para um desrespeito às medidas proferidas pelo Ministério da Saúde. 

 

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O reflexo dessa conjuntura em que temos especialistas no assunto que são negligenciados por uma opinião qualquer, pautada em um achismo é resultado de um processo de anticientificismo e antiacademicismo que estamos vivenciando nos últimos anos. O resultado disso? Estamos a quase dois meses sem ocupante no cargo de Ministro da Saúde no meio da maior crise de saúde do século, na qual o Brasil ocupa o segundo lugar no número de mortos, somando quase 70.000. 

 

Toda a crítica ao governo, embora bem fundamentada e elaborada com referências teóricas é rechaçada, vista como incorreta e resultado de uma conspiração comunista. A velha retórica “e o PT?”, “e o Lula?” torna-se presente em determinados discursos. A ideia de sempre construir um inimigo para combater quando na verdade, não se precisa disso, o inimigo já está a posto e não é o governo anterior, é um vírus, é o Covid-19. 

 

A preocupação com a economia é latente, bem mais do que com as vidas ceifadas. Isso contribui massivamente para que os menos favorecidos economicamente estejam mais expostos ao vírus e consequentemente sejam as vítimas mais fatais, enquanto os patrões estão em suas coberturas no Leblon, tendo a sua disposição uma UTI aeromédica. É a lógica do capitalismo: empobrece e mata – os vulneráveis, os proletários.

 

E é agora que podemos perceber – não que antes não fosse perceptível – de forma prática que a negociação entre patrão e empregado não passa de um discurso elitista que necessita a todo o momento, sucumbir a existência do outro, principalmente quando esse outro não é reconhecido como seu semelhante, partindo do pressuposto de que algumas vidas são descartáveis. 

 

Quando se compreende que o outro é descartável, banalizando sua existência e normalizando o fim dela é que podemos compreender o que Hobbes quis dizer com “o homem é o lobo do próprio homem”, adaptando a frase para “o brasileiro é o lobo do brasileiro” e “o governo brasileiro é o lobo do seu próprio povo.”

 

Na teoria política hobbesiana, o estado de natureza de caráter hipotético, no qual, todos os homens são inimigos de todos os homens demonstra a natureza humana como ela é. O estado civil surge justamente para apaziguar os ânimos e garantir a manutenção da existência de todos.

 

Na teoria essa manutenção é garantida. Na prática, sabemos que não. E podemos ver que não. Analisando o caso da situação brasileira, o estado que teoricamente teria que proteger os seus cidadãos, é o primeiro a colocar-nos em uma situação de periculosidade, sem defesas e muitos de nós sem chances. 

 

Se para Hobbes, é o estado de natureza que promove uma vida pobre, embrutecida e curta, no Brasil o estado civil promove isso há muito tempo e a pandemia só veio mostrar que estamos longe de alcançarmos uma vida menos pobre, menos embrutecida e menos curta. O propagador do caos, do conflito e da morte é o nosso governo, é o nosso próprio Leviatã.

 

 

Luana Broni de Araújo é mestre em Ciência Política pela UFPA. Licenciada em Filosofia pela UEPA. Professora em escolas privadas.


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Notas:

[1] HOBBES, Thomas. Leviatã ou matéria, forma e poder de um estado eclesiástico e civil. Trad. João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva. Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1974.

[2] STRAUSS, Leo. A Filosofia Política de Hobbes: suas bases e sua gênese. São Paulo: É realizações, 2016.

[3] BBC. Relembre frases de Bolsonaro sobre a covid-19. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-53327880 Acesso em: 07/07/2020.

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