Destrinchando o empreendedorismo: A ideologia do salve-se quem puder
Quinta-feira, 16 de julho de 2020

Destrinchando o empreendedorismo: A ideologia do salve-se quem puder

Imagem: Tony Robbins – Divulgação

 

 

Por Marcos Vinícius Gontijo

 

Todos nós temos um amigo ou amiga que se enveredou pelo famigerado empreendedorismo. No tête-à-tête não é comum de se encontrar, até porque há certa desconfiança sobre o dito cujo, porém nas redes sociais a ideia pipocou. Há empreendedores nas mais diversas áreas, estética, moda, culinária e até literatura. O que é bastante surpreendente, em especial nesta última, que seria como tirar não água, mas leite de pedra. A inquietude que esse assunto desperta vem, justamente, desta guinada no atual contexto. Não que o empreendedorismo seja algo novo, pois dera as caras muito antes. Contudo, é válido questionar: qual a razão dessa massificação do fenômeno em uma conjuntura marcada pela crise econômica, pelo aprofundamento da desigualdade social, pelo ataque aos direitos trabalhistas e da precarização do trabalho, sobretudo em virtude da “pejotização” [1] e “uberização” [2] das relações empregatícias, pela intensificação da não tão recente aversão à justiça social e, por fim, em uma conjuntura na qual perambula a negação do conhecimento produzido pelas instituições de educação, pesquisa e de desenvolvimento.

 

É importante salientar de antemão que o presente artigo não procura estabelecer juízos de valor sobre as atividades realizadas ou sobre os profissionais que atuam em função do empreendedorismo. Seu objetivo se restringe apenas em analisá-lo como fenômeno social e político, de modo a contribuir para a compreensão dos conceitos e das práticas por ele fomentados. Estes que, por um lado, legitimam um discurso que justifica uma mentalidade específica e, por outro, procuram seduzir sujeitos ou grupos específicos que formam a nossa sociedade. Queira ou não, qualquer saída é atraente quando se trata de uma crise econômica profunda como esta na qual nos encontramos.

 

Pois bem, o verbo empreender vem do latim imprehendo, que significa “tentar executar uma tarefa”. A etimologia nos apresenta uma pista inicial sobre o que a palavra denota: “decidir realizar”, “tentar” ou “por em execução” uma tarefa difícil ou complicada. É curioso como a própria acepção da palavra aponta para uma incerteza: alguém que tenta realizar algo e que não necessariamente o faz ou obtém êxito ao fazê-lo. Ou seja, há uma chance de falha, inclusa pela ideia de tentativa, que contradiz logo de início expressões como sete passos para…; como se tornar em…; torne-se em X em N dias. É importante enfatizar, de uma vez por todas, que não existe receita, atalhos, feitiço, mindset ou youtuber que vá fazer de alguém um success case ou um milionário da noite para o dia. Continuemos. Outra característica interessante é que, ao contrário do uso atual, a palavra empreender não inclui função ou objetivo financeiro, mas apenas uma ação de confecção de algo complexo, seja inédito ou não.

 

Entretanto, no século XX, segundo o dicionário Houaiss, aparece uma nova palavra em nosso vocabulário, o empreendedorismo. Esta palavra surgiu da união do substantivo empreendedor, aquele que empreende, com o sufixo ismo — que pode ser também substantivo, i. e., “os ismos”, como capitalismo, socialismo, cristianismo e etc. — que, por sua vez, abrange “doutrinas, sistemas, tendências, correntes e etc.” Empreendedorismo seria, de acordo com o dicionário, a “disposição ou capacidade de idealizar, coordenar e realizar projetos, serviços, negócios.” O artigo, Mas afinal, o que é empreendedorismo?, postado no site do SEBRAE [3] em 2016, não difere dessa definição, porém, é cuidadoso ao observar que “não significa que um empreendedor seja, necessariamente, um empresário ou vice-versa.” Outro artigo, postado no blog da empresa de “marketing de conteúdo”, Rockcontent, estrutura, inclusive, uma espécie de taxonomia do empreendedorismo, que pode ir do “empreendedor social” à peculiar figura do “intraempreendedor”, isto é, aquele que empreende enquanto empregado de alguém — vulgo, pelego. O artigo, além disso, é generoso e revela o segredo da charada: 

“O ponto é: muitas organizações modernas perceberam que dar autonomia e capacitação aos colaboradores institui neles um sentimento de dono. Isso traz resultados muito superiores ao negócio, além de deixar o profissional mais satisfeito.”[4]

 

O engodo acima pode ser traduzido para o bom português como: balela, conversa furada, borracha, caô. É sintomática a alteração do termo “empregado” por “colaborador”. Troca oportuna ao discurso que difunde o empreendedorismo, pois soa mais fancy e é mais agradável aos ouvidos ser considerado alguém que contribui para o crescimento da empresa do que apenas mais um subordinado de alguém ou trabalhador de carteira assinada. Essa alteração da nomenclatura, inevitavelmente, fomenta um sentimento de possessão/pertencimento e, em paralelo, de não-reconhecimento da condição de empregado/trabalhador na qual um sujeito se encontra. 

 

Em linhas gerais, o empreendedorismo flerta com a imagem do self-made man, o qual administra o próprio negócio de forma inovadora e a despeito de qualquer obstáculo. Se por acaso obtiver sucesso, o mérito é dele e apenas dele, será mais um exemplo do dito success case. Do contrário, é apenas mais um loser com o qual ninguém se importa. Resumindo: não importa onde, quando, nem como, tudo basta apenas ao indivíduo.  

 

Guardem isso, pois será importante para pensarmos adiante sobre o MEI (Microempreendedor Individual).

 

Apesar disso, algumas características são necessárias para uma pessoa se tornar em uma verdadeira empreendedora, as quais, é importante salientar, são pessoais, quase inatas ao indivíduo, são elas: a iniciativa, empreender exige um passo à frente, para vencer é preciso correr atrás dos seus sonhos, “não se esqueça do tubarão na piscina!”; a resiliência, (no pain no gain), ter sangue frio e ser firme é também necessário, afinal de contas, pode ser que uma ideia inicial não dê certo, mas se cair uma vez, levante duas (tem como isso?), estilo Rocky Balboa no 12º round; a visão de mercado ou ser visionário, o bom empreendedor sabe onde pisa, averigua as fraquezas do concorrente e as utiliza ao seu favor, construindo seu diferencial; para resumir, outras qualidades um tanto quanto incertas como otimismo e autoconfiança também vêm a calhar. Ah, já ia me esquecendo, não pode faltar o livro A arte da guerra, de Sun Tzu, na cabeceira da cama, que pode ser substituído, se necessário, por uma leitura mais palatável, como O monge e o executivo, de James C. Hunter. Além disso, é importante decorar o ambiente de trabalho com uma fotografia do saudoso Steve Jobs.

 

 Pronto! Este é o esboço do verdadeiro empreendedor, a junção do pior da literatura de autoajuda com o detrito da iniciativa privada e da ilusão meritocrática elaboradas pelo neoliberalismo. Salvo o sarcasmo, o fato é que todas essas características são vagas e podem abranger toda e qualquer pessoa, bem como atividades diversas e inúmeras. No entanto, não é raro encontrar discursos que as considere como parte da “natureza” de alguém, como um tipo de código genético direcionado estritamente às qualidades e necessidades mercadológicas e empreendedoras.

 

Mas não para por aí, como não é todo mundo que nasce com a dádiva empreendedorismo, surge uma concepção que nutre um novo mercado, tão incerto quanto a definição de empreendedor, o coaching. Este verbo deriva do substantivo coach, que em inglês significa “treinador”. A função do coach seria encorajar, clarear a mente e instruir o empreendedor a consolidar algo que, provavelmente, ele mesmo, o coach, não realizou. Soa irônico, eu sei, mas é o que é. Os pré-requisitos para se tornar um coach são vagos tal qual os do empreendedor e, para piorar, a formação desse profissional é obscura e não-raramente é realizada com base em cursos online. 

 

O coach, portanto, é o empreendedor do empreendedorismo, cujo público varia em torno de 38,08 milhões de pessoas, que é, coincidentemente, o número de trabalhadores brasileiros na informalidade até março do presente ano, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Por trabalhadores na informalidade, entenda-se, pessoas que estão dando nó em gota d’água para sobreviver. Veja bem, se antes a visão empreendedora era uma espécie de talento e dom para a inovação e o sucesso, o coach, segundo o artigo Empreendedorismo: tudo o que você precisa saber sobre [5], — sim, eu li isso — é “comum pensar que algumas pessoas simplesmente nascem com uma personalidade de empreendedor e boas ideias”, mas existe “um significado mais amplo” em tudo isso, acrescenta, e o principal, coincidentemente, é que você pode desenvolver essas habilidades, ou seja, procure, e rápido, por um coach. Porque só ele pode te ajudar no mindset necessário para você se tornar um success case.

 

Nesse ínterim, podemos dizer com alguma tranquilidade que o cenário atual mudou e mudou para pior. Essa transformação parece ter cooptado o termo e impulsionado o seu alcance de modo indiscriminado, atingindo ocupações que surgem em ambientes vulneráveis ou tornando suscetíveis à fragilização trabalhista ocupações nem tão frágeis assim, embora ao seu modo também sejam. Forma-se, então, uma espécie de Don Draper [6] com menos luxo, inteligência, lábia e charme. Há quem considere, aliás, que o autônomo, isto é, aquele que trabalha por conta própria, estranho à relação de emprego disposta pela CLT, como uma pequena “empresa”. Isto é, vendedor ambulante, catadores de materiais recicláveis, entregadores de aplicativo, maquiadores e maquiadoras, enfim, toda uma infinidade de atividades extremamente vulneráveis são abarcadas pela ideia de empreendedorismo

 

É aí que entra o tal MEI. Vocês sabiam que um motorista de plataforma pode contratar um funcionário [7], desde que pague a ele um salário mínimo e seu rendimento anual não ultrapasse 85 mil reais anuais? Sim, o suposto não-empregado de uma plataforma de alcance internacional, pode ser aquele “intraempreendedor”, e ter o prazer de empregar. É dizer, para ser empreendedor basta apenas que você não tenha a carteira assinada e que execute uma tarefa por conta e risco próprios. Atribui-se, desse modo, uma relevância à vontade individual que, por definição, é isoladora e adversa à coletividade e entrega, ao cabo, o trabalhador à própria sorte. Vale lembrar que os nomes das coisas tampouco são ingênuos; não é sem razão que o I de MEI significa individual, o termo procura no próprio nome autocentrar o trabalhador, pulverizando a categoria, pois dividindo se governa mais fácil.

 

É possível afirmar, portanto, que empreender deixa de ser uma ação propriamente dita e passa a ser senão uma prática, uma “filosofia de vida”, ou seja, uma ideologia. Envolve um conjunto de ideias e valores, bem como uma forma de se comportar — lembra do mindset? — baseados em uma individualidade positiva, egocêntrica e ignorante da importância da coletividade. Ao mesmo tempo que subentende um projeto de vida e de mundo, nos quais os indivíduos competem entre si de maneira equivocadamente plena, cada um munido de suas próprias capacidades, convivendo sob o teto de vidro do Estado mínimo. 

 

Cheira a um completo futum hayekiano neoliberalista. Portanto, esse ideário não considera as circunstâncias que envolvem cada sujeito em sociedade e esquece, frequentemente, de enunciar que para se construir algo ou desempenhar uma atividade autônoma é necessário algo chamado capital, sem falar no tempo, na formação especializada, no famigerado network — nome sofisticado para o popular “quem-indica” — e em condições e garantias dignas de vida. Basta ver nosso exemplo de success case: Betina, cujo patrimônio foi feito com o dinheiro do pai, ou os Miranda de Arruda da vida, para não perder a piada. Isto é, essa falácia chamada empreendedorismo não leva em conta as desigualdades sociais e os tratamentos distintos recebidos pelos sujeitos que são produzidos no seio da sociedade a qual pertencem.

 

Para concluir não significa que empreender é certo ou errado ou que reduz alguém, da perspectiva legal pelo menos, já que tenho dúvidas quanto à ética. Mas falta à atividade transparência, pois, provavelmente, autoafirmar-se como ideologia ou filha primogênita do neoliberalismo, seria ruim para os negócios. Fica mais fácil simplesmente ignorar aquilo que não queremos ver, eu sei. Mas, uma coisa é certa, a mentalidade empreendedora enfraquece, dificulta e impede que uma consciência de classe se enraíze, pois gerir o próprio negócio possibilita que as pessoas se autoiludam e neguem a própria exploração na antiga e na nova divisão internacional do trabalho que vem se desenvolvendo na última década. A conclusão é óbvia, o não reconhecimento da classe trabalhadora enquanto tal, perdida nos devaneios e nos sonhos de fazer parte do empresariado, flertando com a meritocracia, afugenta-a e a torna cada vez mais cativa de um sistema perverso, cuja principal estratégia e ferramenta é a virtualização das relações de trabalho. No fim, após os investimentos feitos e malsucedidos, sobrará apenas o give your jump ou o velho salve-se quem puder.

 

 

Marcos Vinícius Gontijo é pesquisador e historiador, Mestre em História pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e Doutorando em História e Culturas Politicas pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

 


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Notas:

[1] Isto é, a empresa contrata o funcionário como pessoa jurídica de modo a evitar os encargos trabalhistas, os quais guardam pela segurança e valorização do empregado via CLTs.

[2] Termo relativo aos aplicativos de entrega e transporte, que se isentam dos deveres de empregador a partir de um imbróglio jurídico fundado nos “termos de uso”, os quais imputam ao entregador a completa responsabilidade sobre os meios de trabalho, enquanto a plataforma se autointitula apenas como intermediária.

[3]  Disponível em: https://blog.sebrae-sc.com.br/o-que-e-empreendedorismo/ Acesso em 19 de maio de 2020.

[4] Disponível em: https://rockcontent.com/blog/o-que-e-ser-empreendedor/ Acesso em 19 de maior de 2020.

[5] Disponível em: https://www.sbcoaching.com.br/blog/empreendedorismo-guia/ Acesso em 18 de maio de 2020.

[6] Personagem da série, lançada em 2007, Mad men: inventando a verdade, que foi criada e produzida por Matthew Weiner,

[7] Segundo matéria da Exame, a partir de agosto de 2019, os motoristas de aplicativo se tornaram atividade inclusa na lista de permissão do registro. Ironicamente, a categoria na qual eles se enquadram é intitulada como “motorista de aplicativo independente”. O independente aqui é cirúrgico, reafirmando que não exista qualquer vínculo direto entre a empresa que gere o aplicativo e o motorista. Disponível em: https://exame.com/pme/motoristas-de-99-cabify-e-uber-agora-podem-se-registrar-como-mei/ .

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