Como argumentar e melhorar sua capacidade retórica para não passar vergonha
Terça-feira, 21 de julho de 2020

Como argumentar e melhorar sua capacidade retórica para não passar vergonha

Imagem: CNN – Grande Debate – Caio Coppola

 

Por Plínio Ubiratan Figueiredo Vieira

 

Atribuir qualidade a algo é um problema clássico de filosofia. A descoberta dos predicados essenciais das coisas é objeto de investigação desde os primórdios do saber humano. Certo que, diferente das ciências exatas, nas quais se pode inventar variáveis e medi-las por signos numéricos (ambiente da quantidade), nas ciências humanas não é sempre possível determinar parâmetro de medição e aferição dos epítetos que acompanham ou não pessoas, coisas, tempos ou lugares determinados (ambiente da qualidade).

 

 

Se é dessa forma, uma teoria aritmética ou lógica da vitalidade não dá conta da representatividade do real. Enquanto humanidade, temos dois grupos de signos representativos básicos do real: números e letras. Se a resposta não é encontrada pelos números, então deve estar nas letras (inspiração vinda de fala do filósofo e psicanalista Lucio Massafferri Salles).

 

Uma outra dificuldade é superar o impacto passivo da linguagem, como o ouvinte/leitor recebe a mensagem e de que maneiras pode arguir contra ela ou apresentar alternativas (refutação). Uma linguagem numérica é de simples signos e operações. Deixa pouca ou nenhuma margem para uma alternatividade. Uma linguagem composta por letras é complexa e tem como passividade os afetos humanos (agradar ou não). Assim, poderá haver uma alta alternatividade.

 

Do que se fala em concreto? Vejam-se exemplos. Qual pão é melhor? O rústico, o de forma, o francês? Veja-se, pão é uma coisa e seus predicados possíveis são diversos. Inclusive é possível inventar outros tipos de pães que não existem. Então todos esses adjetivos, esses epítetos de pães, entram em uma escala de qualidade, conforme as diversas afetações. De que forma se poderia quantificar a qualidade dos pães? Temos o preço. Mas não há também coisas que são mais baratas e nos agradam mais do que outras caras? Se é desse jeito, pode-se afirmar que há uma hermenêutica, uma alternatividade na hierarquia de valores sobre qualidades.

 

Outra coisa que é relevante para mostrar ao(à) leitor(a) é que a lógica não auxilia o suficiente numa tomada de valores. Pois quando se põe um epíteto numa proposição lógica, ela se torna uma petição de princípio, para, em seguida, se tornar uma argumentação circular. Explica-se: Proposição universal: Todo cidadão de bem (epíteto) deve andar armado. Proposição concreta: A é cidadão de bem. Conclusão: A deve andar armado. Investigação de arguição: Por que A deve andar armado? Porque é cidadão de bem. Porque A é cidadão de bem? Porque andará armado. Veja-se um circuito que se justifica em si, sem fundamento que não seja um juízo escondido sobre o que significa a qualidade “de bem”. Poderia vir o argumento platonista, de uma inocência pura, quase que a de um argumentador noviço: o cidadão de bem usa a arma para defender, o de mal, para atacar. Ora, pode ser garantido, ao menos em maioria, que o cidadão, até então de bem, não meta um balaço em alguém por ciúme, trânsito, futebol, dinheiro ou qualquer picuinha menor que a integridade física ou saúde do outro? Eis a falácia da aferição de qualidade e duas suas refutações: notar a petição de princípio e o argumento circular; notar argumentos idealistas, como se a realidade obedecesse, quase que perfeitamente, a alguma teoria argumentativa.

 

Daí, o exercício a ser feito é, por mais incrível que pareça, associar a lógica à retórica. Uso da lógica, para determinação de identidade (uma das três leis da lógica) de qualidade e dispor um acordo prévio sobre a qualidade da coisa (dialética, com uso de recursos de retórica, rumo a um juízo com alguns elementos analíticos, que ajudem na deliberação). Quer dizer, processar o assunto em uma fase dialética, para ver se é possível chegar a uma analítica sobre a qualidade. É aí que entra a retórica no jogo dos valores – seu papel será grosar hierarquias de valor que pareçam absurdas. Há neste processo dois saberes de base que ajudam no juízo retórico: a evitação de argumentos antiéticos (A deve ser segregado ou morto) e dos antipáticos (A não deve se sentir dessa maneira, mas da maneira que eu digo para se sentir). Em seguida vêm outros dois saberes: (i) sobre alguma de duas oposições basais de onde vêm argumentos – útil/nocivo (política); justo/injusto (direito); bem/mal (ética); belo/feio (estética); (ii) sobre quantidade (mais, menos; maior, menor) e qualidade (melhor, pior; frequente, raro; fácil, difícil/simples, elaborado). De modo que, o que é bom, visa-se a aumentar e o que é ruim, a reduzir. Daí, por fim, os epítetos podem entrar no jogo, para que se chegue a um juízo sobre a arguição.

 

Então, se desejo comprar um pão rústico, preciso dizer que é mais (lugar retórico da quantidade) saudável (epíteto ligado à boa saúde), que alimenta por mais tempo (nutritivo é o epíteto escondido), que tem melhores ingredientes (diversos epítetos possíveis – frescos, naturais, não processados). Veja-se a argumentação para convencer é a de que o pão que desejo é hierarquicamente superior a outros. Se é dessa forma, há uma técnica retórica que auxilia na formulação de acordos sobre hierarquias de valores em nosso dia a dia, em nossos ofícios e em nossa política. Não há de se pensar, portanto, que a lógica seja uma mathesis universalis. Porque, sem a retórica, ela é uma das pernas de uma bípede humanidade. 

 

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Faça-se o teste do oposto, da refutação. Quanto vale, em números, uma vida? Para o empregador, vale uma pensão, uma indenização – dinheiro. Para quem perde a vida, certamente é valor infungível. Para a família e os amigos, pode ser valor infungível nos afetos, mas fungível, ao receber uma pensão/indenização. A seguridade social também é um campo fértil para tentativas de contabilização numérica de valores (pôr economia acima de valores como saúde e vida). Quanto vale, como aposentadoria, a sobrevida de um idoso? Quanto vale, como saúde, o tratamento de um doente? Então, leitores, posso dizer seguramente que saber retórica é uma via para entrar ativamente nos jogos de valores de nossa sociedade e argumentar ativamente acerca deles. É uma forma vital de participar dos acordos sociais – aceitando-os, na falta de melhores proposições assertóricas e de argumentação, ou criticando-os, com outras hierarquias de valores e arguições lançadas a outras perspectivas de convencimento.

 

Gostaria de terminar ilustrando acerca de três itens para exercício prático do que chamo de filosofia do discurso (retórica) para identificação de valores e de como são pesados pelo falante. O primeiro implica observar o que é dito em fala viva. Como pensava o movimento sofista, o sujeito mostra seu nicho e seu saber enquanto fala ao vivo – não tendo chance de formular um discurso de nicho projetado (hipócrita, que não equivale ao nicho interno). Por exemplo, quando Guedes se incomoda com a “festa” das empregadas domésticas indo para a Disney, revela-se no discurso um afeto antiético do ministro quanto a uma classe laboral mais humilde gozar de valores iguais aos de outras classes que ele julga serem mais elevadas. O segundo trata da ideia de hierarquização de valores pessoais. Quando, da esdrúxula (cuidado com o epíteto: ninguém é obrigado a aceitar o valor de quem escreve ou fala) reunião ministerial, o valor primeiro era a particularidade ética – quero dizer, cada um protegendo seu nicho particular: Bolsonaro – a família (valor nós sobre os outros); Ricardo Salles – seu nicho antiético ambiental (valor nós sobre os outros, e valor lucro sobreposto ao ambiente); Weintraub – seu nicho político antiético, desejoso de eliminar os críticos, usado poder autoritário contra eles (valor nós sobre os outros). E quais os meios de disputa, os argumentos? Uma vontade de poder da canalha, que faria Nietzsche se arrepender de ter escrito certas coisas. O terceiro trata da hierarquização de valores públicos. Conforme prioridades da república sobre a fatídica reunião: Weintraub foi o que chamou mais atenção (valor superior da reputação dos ministros); Bolsonaro veio na segunda alça (valor superior da impessoalidade sobre a pessoalidade na gestão pública); Ricardo Salles, em último (valor superior do ambiente ao lucro). Salles não deveria ter sido o primeiro? Se o ambiente se acabar, não haverá mais onde toda essa picuinha acontecer! Acabado o palco, acabado o teatro (e os atores). Surpreendeu, mais recentemente, a hierarquização feita por uns farristas, sem máscara, em fala a um agente público: “Sou seu chefe” ou “pago seu salário”. Ora, se o agente público der um centavo aos “chefes”, capaz de ainda ficarem devendo, tão diluída que fica a contribuição deles, nos tributos, para o salário do agente. Poderiam, também, dizer para o agente patrulhar outra área ou teriam autoridade para dizer que não os multasse? E o clímax da ópera degenerada foi: “engenheiro civil, melhor que você”. A sujeita nem sabia que o agente é doutor dos bichinhos, e que não é dinheiro ou um parâmetro de instrução o que permite dizer ser superior engenheiro ou agente público – são alternatividades de papéis distintos e necessários no jogo social. Uma lancha vale mais que um carro de passeio, mas ela não anda no asfalto, nem o carro anda na água. Então, a cada um o que lhe pertine.

 

Muitos argumentos (meios para um fim) são construídos, portanto, sem alteridade ética, com pobre lógica/retórica e sem consideração aos afetos dos outros. E isso não é um problema da retórica, como pensavam os clássicos gregos contra os que chamavam de sofistas. A retórica é um saber humano que apenas empodera, que está além do bem e do mal. Só me resta, por fim, dar alguns poderes (os que conheço) à plateia. E esperar que os éticos (no caso aqueles que desejam disputar acréscimo, alteração, extinção de coisas e ideias, não simplesmente uma segregação/prisão ou extinção/morte de pessoas), lógicos/retóricos (cientistas exatos e humanos) e com consideração aos afetos alheios (dotados não só do cuidado de si, mas do outro) estejam preparados para disputas com os que lhes fazem oposição, em cada tempo, em cada lugar. Boa sorte.

 

 

Plínio Ubiratan Figueiredo Vieira é mestre em Filosofia, pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais – IFCS – UFRJ; Graduado em Direito, pela Faculdade Nacional de Direito – UFRJ, título cum laude; Graduado em Comunicação Social, jornalismo, pela UNESA – Niterói.


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