O “Covidão” e a Crescente Banalização da Política
Quinta-feira, 23 de julho de 2020

O “Covidão” e a Crescente Banalização da Política

Governador Wilson Lima (PSC) – Imagem: Secom / Divulgação – Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

 

Por Marcos Almir Almeida de Souza

 

Não é de hoje que o encargo de político é rebaixado ao lócus de desprezo e zombaria por parte da sociedade, seja através de uma simples anedota ou de uma manifestação nas urnas que promovam um candidato pitoresco.

 

 

Desse modo, as eleições ocorridas nos últimos anos perpassaram uma responsabilidade colossal aos políticos eleitos, pois, imprevisivelmente fomos acometidos por uma pandemia que pôs em questão todas as escolhas políticas feitas no pretérito. Talvez a grande hipocrisia política expressa nesta pandemia tenha sido o fato de os próprios políticos que se elegeram com promessas contra a corrupção, estarem sendo acusados da mesma.

 

Nesse contexto de uma trágica pandemia e uma crise política surge o termo “covidão”, que alude ao aproveitamento criminoso nas ações políticas de proteção contra o Covid-19, ou seja, a utilização de uma situação de caos coletivo que visa benefícios individuais ilegítimos.

 

De acordo com o levantamento feito pelo Jornal de Brasília juntamente com organizações federais e estaduais, dezesseis unidades da Federação, até o momento, estão sendo investigadas. São os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Bahia, Ceará, Mato Grosso, Pará, Paraíba, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rondônia, Roraima, Santa Catarina, São Paulo, Tocantins e o Distrito Federal[1].

 

Alguns casos apresentam particularidades que se tornam inacreditáveis, vale ressaltar como exemplo o estado do Amazonas, em especial o governador Wilson Lima, eleito pelo Partido Social Cristão. A própria eleição para governador em 2018 fez-se por uma certa popularidade que o referido construiu como apresentador de programa, ganhando popularidade a partir de seu carisma e de suas falas veementes contra a corrupção e a criminalidade no estado.

 

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Nos últimos dias o nome do governador popularizou-se nacionalmente, só que dessa vez de modo extremamente negativo. Durante o “boom” do coronavírus em Manaus, Wilson Lima recebeu diversas denúncias de corrupção, a mais enfática foi a compra de respiradores em uma loja de vinho, a aquisição resultou na entrega de ventiladores mecânicos hospitalares inadequados, com preços superfaturados[2]

 

Para além de analisarmos este e outros casos como uma bizarrice sem tamanho, devemos ponderar que essas práticas põem vidas em risco, e em uma pandemia tais escolhas são fatais e criminosas, principalmente com a situação em Manaus, em que ocorreu o colapso dos hospitais públicos.

 

Dadas os acontecimentos históricos e os atuais, torna-se compreensível a revolta popular com o cargo político, que recai na banalização da política. Contudo, a banalização por si só não deve ser entendida como um processo fragmentado na sociedade, pois a partir desse fato há reflexos diretos e indiretos no comportamento dos cidadãos, bem como o desinteresse pelo diálogo político, o reducionismo de questões essenciais para a vida pública, o enfraquecimento da democracia, a ridicularizarão de ativismo e posicionamentos políticos, entre outras ações.

 

Obviamente que as críticas submetidas a corrupção necessitam ser analisada não apenas como uma atitude própria do político ou das instituições públicas, mas de uma questão que fez-se presente neste território desde o período colonial. Para nos situarmos nesta discussão, ressaltemos, a interpretação de Emerson Garcia e Rogério Alves (2011, p. 9) que “a corrupção está associada à fragilidade dos padrões éticos de determinada sociedade, os quais se refletem sobre a ética do agente público. Sendo este, normalmente, um mero ‘exemplar’ do meio em que vive e se desenvolve, um contexto social em que a obtenção de vantagens indevidas é vista como prática comum dentre os cidadãos, em geral, certamente fará com que idêntica concepção seja mantida pelo agente nas relações que venha a estabelecer com o Poder Público”[3].

 

Portanto, o político e, consequentemente, a política, denotam uma complexidade irredutível e indissociável para com a sociedade. A política deve ser dialogada e executada em práxis, ou seja, no movimento dialético entre teoria e prática, relacionando o pensar e o agir. E que todos os indivíduos possam, como nas palavras de Immanuel Kant (1964), agir segundo a máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal, sendo uma ação com fim em si mesma[4].

 

 

Marcos Almir Almeida de Souza é graduando de Geografia pela Universidade Federal do Amazonas – UFAM


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Notas:

[1] CAVALCANTI, Hylda. Além da covid-19, persiste o vírus da corrupção no país. Jornal de Brasília, 2020. Disponível em: https://jornaldebrasilia.com.br/politica-e-poder/alem-da-covid-19-persiste-o-virus-da-corrupcao-no-pais/

[2] PF faz buscas na casa do governador do Amazonas em operação contra corrupção. Diário do poder, 2020. Disponível em: https://diariodopoder.com.br/destaques-home/pf-faz-buscas-na-casa-do-governador-do-amazonas-em-operacao-contra-corrupcao

[3] GARCIA, Emerson; ALVES, Rogério Pacheco. Improbidade administrativa. 6. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2011.

[4] KANT, I. 1964. Fundamentação da metafísica dos costumes. São Paulo, Editora Nacional.

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