25 de julho: Luta e resistência nas lições de Tereza de Benguela
Sexta-feira, 24 de julho de 2020

25 de julho: Luta e resistência nas lições de Tereza de Benguela

Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

 

Por Veyzon Campos Muniz

 

Mulher, negra, liderança nata, defensora da liberdade de pessoas marginalizadas, executada cruelmente por homens que, essencialmente, não aceitavam a sua existência em uma gestão comunitária sólida e o seu protagonismo em práticas políticas emancipadoras. No Brasil do Século XXI, ao pontuar tal trajetória, inequívoca e imediatamente, pensa-se na história de Marielle Franco – vereadora, socióloga e ativista de direitos humanos, assassinada a tiros em 14 de março de 2018 em um crime política ainda sem respostas.

 

 

Entretanto, em verdade, o introito corresponde à vida e morte de Tereza de Benguela. No Brasil do Século XVIII, a Rainha do Quilombo Quariterê, no atual Estado do Mato Grasso, por cerca de duas décadas, comandou a resistência negra e indígena frente ao sistema escravagista. Sob sua autoridade, a comunidade desenvolveu um profícuo ambiente de refúgio para as vítimas dos crimes praticados com aval do Estado brasileiro, estabeleceu um sistema democrático para a tomada de decisões cotidianas e estratégicas, fomentou atividades agrícolas para subsistência local e para o comércio com localidades vizinhas, e, ainda, implementou uma eficiente estrutura de segurança que evitou a destruição daquele ambiente de liberdade mesmo diante de incessantes ataques. Presente no imaginário popular da região pantaneira até os dias de hoje, a tradição oral relata que, ao responderem tais ataques, os quilombolas se apossavam dos armamentos de seus algozes e, como dominavam habilidades de forja, as transformam em utensílios domésticos. Consonante as orientações da governante, em Quariterê, armas que vinham para matar pessoas transforavam-se em panelas para alimentar o povo. Trata-se de um impactante exemplo para um país que convive com a sanha armamentista. As profundas lições de cooperação e empoderamento experenciadas naquele quilombo imortalizaram sua líder, que a historiografia conta ter sido cruelmente assassinada no centro do local.

 

Marginalizada pelas narrativas oficiais durante séculos, em 1994, tornou-se versos da Escola de Samba Unidos do Viradouro, campeã do Carnaval Carioca 2020. A partir do enredo “Tereza de Benguela – Uma Rainha Negra no Pantanal” ampliou-se o conhecimento público sobre sua história de luta e resistência. Vinte anos depois, a Lei nº 12.987/2014, veio reconhecer normativamente o dia 25 de julho como Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. Em alusão ao I Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas, desde 1992, a aludida data encontrava-se inscrita como marco internacional da afirmação dos direitos das mulheres negras – que, no país, restou justamente personificada, a partir da referida lei, na figura de Tereza de Benguela. 

 

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Com efeito, a líder que regia a metamorfose de arsenais em objetos de cozinha, certamente, não aceitaria que sua descendência fosse exterminada pelas mesmas armas e homens brancos que combateu até a morte. A dramática confluência entre misoginia e racismo foi o que vitimou Tereza, assinou Marielle e se manifesta ceifando a vida e o bem-estar das vidas negras brasileiras ainda hoje. O que se percebe na falta de representatividade em cargos de destaque em instituições públicas e privadas, nos lamentáveis índices de exclusão social e pobreza, nos flagrantes episódios cotidianos de barbárie policial e no alarmante crescimento dos casos de violência doméstica e das taxas de feminicídios de mulheres negras. 

 

A presente data, portanto, vem rememorar que não há conquistas, sem lutas, não há existência, sem resistência, e não há Estado Democrático de Direito, sem dignidade para o povo preto. Mulheres negras, como Terezas, Marielles, e tantas e todas outras, permanecem tendo as discriminações de gênero e de raça como algozes, mas têm no dia 25 de julho um momento de explicitação do seu direito à vida, ao bem-estar e a todas as demais garantias fundamentais que lhe são asseguradas constitucional e internacionalmente.

 

 

Veyzon Campos Muniz é doutorando e mestre em Direito


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