Sexo e gênero: expectativas e realidades
Terça-feira, 28 de julho de 2020

Sexo e gênero: expectativas e realidades

BG: Tomaz Silva / Agência Brasil – Imagens: Reprodução – Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

 

Por Kamila Michiko Teischmann

 

Embora coexistentes com a própria essência de cada ser humano, os debates sobre sexo e gênero ganham contornos de novidade. Costumeiramente reavivados em discursos políticos, o corpo e o ser acabam reduzidos a “pré-conceituações” e opiniões da profundidade de um pires.

 

Não há como tentar tratar de sexo e gênero sem citar Simone de Beauvoir, que estremeceu a hierarquia do poder ao entoar em seu Segundo Sexo [1] no final da década de 40, que “ninguém nasce mulher: torna-se mulher”. E por qual motivo Beauvoir disse isso?

 

Responder a essa pergunta nos leva a uma diferenciação básica que ajuda a compreender a diversidade existencial dos seres, levando-nos até mesmo a, talvez, um autorreconhecimento.

 

Isso porque se desvincula o sexo biológico do gênero.

 

O sexo biológico, de maneira simplória, corresponde à genitália de cada pessoa e, na sociedade atual, há um consenso mais ou menos solidificado da existência da genitália masculina e da genitália feminina (neste ponto é importante destacar também a existência de pessoas intersexuais, que são assim identificadas por possuírem genitália com correspondências tanto à masculina quanto à feminina – pauta para outro texto).

 

Com o nascimento de cada pessoa, identificando-se a genitália, o que ocorre é apenas e tão somente isso: a identificação genital. Entretanto, a sociedade cria uma expectativa quanto ao gênero daquele ser humano baseado na sua genitália. Ou seja, com o nascimento de uma pessoa do sexo biológico masculino se projeta uma expectativa de que esse se identifique com o gênero masculino, e do nascimento de uma pessoa com a genitália feminina cria-se a expectativa social de que se identifique como uma mulher.

 

Quando as expectativas não são correspondidas, isto é, quando o ser humano de genitália masculina não se identifica com o gênero masculino ou um ser humano de genitália feminina não se identifica com o gênero feminino, há uma desestabilização social, com efeitos deletérios para aquela pessoa que se desajustou do caminho que estabeleceram para si. Tratando sobre o assunto Adelaide Miranda [2]:

A sexualidade talvez seja uma das mais difíceis representações a ser alijada do poder, porque tão intimamente ligada a ele. De fato, dentro do dispositivo da sexualidade, a sexualidade periférica estabelece arbitrariamente a fronteira do que é considerado normal, natural e saudável. Como consequência, qualquer alteração em sua representação implica necessariamente uma ruptura na ideologia dominante. […] O resultado é o sofrimento e a exclusão de todos que não se encaixam no modelo hegemônico, estabelecido pela heterormatividade. (MIRANDA, 2008, p. 209-10)

 

Diferente do sexo biológico que é inerente e vinculado ao nascimento do ser, o gênero se caracteriza por uma construção social, dentro da influência de socialização que nos é imposta desde muito cedo, na tentativa de transmitir a cada um as lições de como ser menino/homem e de como ser menina/mulher.

 

Dentro desse contexto há uma espécie de performação, na concepção de Judith Butler (2013) [3], no sentido de que as pessoas vestem personagens e assumem performances do que é ser homem e do que é ser mulher (conforme ensinado e aprendido), havendo necessidade constante de reiteração e afirmação de condutas que caracterizem um gênero e outro, de modo a garantir sua reprodução contínua.

 

A título ilustrativo, basta notar as cores a que são associados um gênero e outro (rosa/azul), esportes (futebol/dança), impondo-se verdadeiras barreiras para transitar entre um universo e outro, especialmente na infância. A própria ideia de criação de um universo específico do que seja masculino ou feminino já é, por si só, representativa da segregação entres os gêneros no plano existencial.

 

A este respeito é oportuno mencionar o pensamento do sociólogo Anthony Giddens [4]:

O que é ser um homem? O que é ser uma mulher? Talvez você pense que ser um homem ou uma mulher esteja fundamentalmente associado com o sexo do corpo físico com que nascemos. Mas como muitas questões de interesse dos sociólogos, a natureza da masculinidade e da feminilidade não é facilmente classificável‖ (GIDDENS, 2005, p. 99).

 

Entretanto, a atualidade nos apresenta uma universalidade existencial que parece denotar um avanço libertário. Em lojas de departamento de roupas, por exemplo, nota-se que algumas vestimentas já não podem mais ser classificadas como unicamente “femininas”. As mulheres hoje usam bonés, mocassim, shorts, enfim, uma gama de elementos tipicamente ligados ao universo masculino. Já os homens, por sua vez, têm se sentido mais à vontade para os cuidados com o corpo, com cada vez menos pêlos, com mais liberdade em usar e abusar das cores de roupas, cabelos, sapatos.

 

Isso significa dizer que a construção social do que é ser homem e do que é ser mulher está cada vez mais desvinculada de uma orientação e normatização geral sobre como se vestir, se portar e se colocar.

 

Aqui se reporta, de maneira absolutamente sucinta, à pergunta feita inicialmente sobre o motivo pelo qual Beauvoir afirmou que não se nasce mulher, mas se torna uma. As pessoas se conhecem, se reconhecem e se identificam conforme o fluxo da vida, de modo que as expectativas que se criam com o nascimento de alguém de determinado sexo biológico podem não corresponder à realidade de seu ser.

 

Entre as expectativas e a realidade existe uma questão existencial bastante subjetiva, de um ser que ao longo de sua jornada irá então se reconhecer enquanto um homem ou enquanto uma mulher, ou ainda enquanto os dois gêneros ou nenhum dos dois gêneros (haja vista a infinidade das identidades e transidentidades existentes).

 

Contudo, com todo ponto de avanço há também pontos de resistência e, sobre este tema, os pontos de resistência acabam desconsiderando constatações factuais, estudos e pesquisas sobre gênero e sexualidade, e pautam-se por discursos moralizadores, fruto de achismos, que acabam por estigmatizar ainda mais e impor sofrimento desnecessário a todos aqueles que se apresentam como sociodesviantes das normas de gênero impostas, simplesmente por se descobrirem avessos ao rótulo que lhe impuseram ao nascer (LANZ, 2014) [5].

 

A multiplicidade existencial evidenciada torna ainda mais claro que o sexo biológico não determina o gênero do ser humano, e sim como há mais de 70 anos nos impactou Beavouir ao trazer à luz a ideia de que ninguém nasce com o seu gênero atrelado, definido. Isso permitiu no decorrer das décadas apropriar-se dessa constatação para compreender que as pessoas se autorreconhecem com determinado gênero no desenrolar de sua vida, de modo que todas as expectativas criadas socialmente não passam disso: expectativas, não se podendo concebê-las como realidade.

 

 

Kamila Michiko Teischmann é advogada e professora universitária. Mestranda em Política Social pela UFMT. Conselheira Estadual pela OAB-MT, vice-presidente da Comissão da Diversidade Sexual (CDS/OAB-MT).

 


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Notas:

[1] “O segundo sexo” de Simone de Beauvoir foi publicado em 1949.

[2] MIRANDA, Adelaide Calhman de. O mapa da morte na literatura homoerótica brasileira contemporânea. Protocolos Críticos. São Paulo: Iluminuras  Itaú Cultural, 2008.

[3] MIRANDA, Adelaide Calhman de. O mapa da morte na literatura homoerótica brasileira contemporânea. Protocolos Críticos. São Paulo: Iluminuras  Itaú Cultural, 2008.

[4] GIDDENS, Anthony. Sociologia. Porto Alegre : Artmed, 2005

[5] LANZ, Letícia. O corpo da roupa: a pessoa transgênera entre a transgressão e a conformidade com as normas de gênero. Curitiba: transgente, 2015.

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