Desconstruir a escola por meio do ensino remoto
Terça-feira, 4 de agosto de 2020

Desconstruir a escola por meio do ensino remoto

Imagem: Marcelo Camargo / Agência Brasil

 

 

Por Luciano Freitas Filho

 

“Nós nos recusamos firmemente a endossar a condenação da escola. Ao contrário, defendemos sua absolvição. Acreditamos que é exatamente hoje – em uma época em que muitos condenam a escola como desajeitada à realidade moderna e outros até mesmo parecem querer abandoná-la completamente- que o que a escola é e o que ela faz se torna evidente. “. (MASSCHLEIN & SIMONS, 2013, p.10)

 

 

Pensar a escola e a universidade voltando-se cada vez mais ao ensino remoto e à Educação a Distância/EaD, requer problematizar o ensino presencial em virtude da emergência e/ou da contingência da pandemia do coronavírus. Mas, o debate sobre EaD não é de agora! 

 

Quando problematizo acerca do ensino remoto, atualmente, reitero um debate proposto na epígrafe desse texto quando buscar fazer a defesa da escola e da universidade (sobretudo as públicas), bem como conclamo o elogio da escola (Larrosa, 2017). Argumento que o desconstruir de uma escola e de uma universidade, a partir da expansão do ensino remoto ou da Educação a Distância, implica em pensar Ambientes Virtuais da Aprendizagem/AVA e as possibilidades de um letramento digital, justamente, a partir da própria escola e dos seus professores. É uma das possíveis formas da ‘morte da escola moderna’, por meio do aparato das novas tecnologias e suas linguagens. 

 

Repensar a escola, ressignificar os sentidos sobre o estar na escola e vivenciá-la em articulação com o ensino remoto, sugere vivenciar essa realidade virtual sem dispensar ou nos desfazermos da escola, e isso tem sido uma de nossas inquietações enquanto educador e pesquisador no campo da Educação. 

 

A mesma escola que aparentemente pode parecer atrasada no tempo e no espaço quando da não adequação às novas tecnologias e às potencialidades de uma educação não presencial, é a mesma escola que pode se ressignificar ou se reconstruir para se abrir às mudanças  impulsionadas pelo contexto tecnológico-globalizado e seus recursos variados (plataformas, aplicativos, AVAs etc). Apostamos no entremeio, no entrelugar. Não dá para apostar em discursos extremistas ou dicotômicos, em um ensino remoto substituindo escolas e professores, nem nas escolas e professores ‘virando as costas’ para uma realidade que já faz parte do cotidiano escolar e dos seus processos de ensino-aprendizagem. 

 

Independentemente do isolamento social imposto pela pandemia do coronavírus, esse tempo pedagógico remoto já vem interpelando a escola brasileira há algum tempo. Não há como fugir ou se negar às mudanças no campo das políticas educacionais, do repensar das didáticas, das metodologias e das práticas curriculares em face da educação a distância ou do ensino não presencial . 

 

O medo de mudança ou da quebra da zona de conforto é um desafio a ser superado por diversos professores e gestores. Contudo, não estamos, nesse texto, tentando culpabilizar professores e gestores pela não adesão às tecnologias da/na educação. Lembremos de uma realidade social brasileira que é a realidade da não inclusão digital, da falta de recursos e de investimentos que limitam tais avanços e reforçam realidades sociais desiguais em termos de conectividade e acessos. Estão todos os alunos em igualdade no tocante à conectividade ou acesso às ferramentas tecnológicas? Como se daria esse processo em locais de difícil acesso? Como tem sido pensado os investimentos ou aportes públicos para essa inclusão digital? Para a adequação desses recursos para alunos com algum tipo de deficiência? Como estão sendo articuladas as formações iniciais e continuadas de professores para essa prática docente remota?

 

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Por falar em pandemia e seu estado de sítio ou lockdown e/ou quarentena, ressalto que a emergência desse isolamento social colocam ‘sob rasura’ e ‘sob suspeita’ ( HALL 2000/ Gabriel, 2008)  os sentidos de ensino presencial, os sentidos de escola e de currículo aos quais estamos habituados enquanto verdades em circulação no interior da escola. Por outro lado, essa mesma pandemia e seu estado de quarentena tem reforçado a importância de se pensar o uso de tecnologias, de ambientes virtuais e modalidades de ensino remoto a partir do professor e da própria escola.

 

Quantos pais de alunos têm compreendido em casa, em quarentena com os filhos, como é importante os saberes de um professor para lidar com os diversos conteúdos propostos para um ensino remoto? Não basta um ambiente virtual de aprendizagem bem equipado ou bem estruturado, se a relação com o conhecimento científico, as metodologias utilizadas ou didáticas não condizem com uma prática docente qualificada. É preciso um professor qualificado, um ambiente social como a escola, para haver um processo de ensino-aprendizagem mais producente. Isso não implica em afirmar que não há aprendizado em outros espaços para além dos muros da escola, mas é uma defesa política da escola como o lócus mais adequado para esse processo. 

 

O professor de uma escola é um profissional. O ato de ensinar, a docência, é uma atividade de um profissional formado e em formação, qualificado para tanto. Por mais autodidata e bem escolarizado que seja um pai ou mãe de um aluno, por mais bem equipado que seja um ambiente virtual e os recursos nele dispostos, ensinar requer formação iniciada e continuada, formação profissional. “Cada macaco em seu galho”, como professor não irei substituir um médico em sua área profissional. E isso põe sob terra, inclusive, um debate bastante fomentado pelo governo federal acerca da Educação Domiciliar ou homeschooling

 

Afirmo com toda convicção, não há o que temer com a abertura cada vez maior da escola e das universidades para as novas tecnologias e o ensino remoto. Não substituiremos professores e escolas/universidades, embora existam interesses mercadológicos por parte de reformadores empresariais ou político-ideológicos por parte de partidos para uma política de desescolarização. 

 

O ensino a distância ou remoto não substitui ou esvazia a escola. Ao contrário, pressiona essa mesma escola a se reinventar, a se desconstruir. Impulsiona reivindicar maior aporte financeiro para investimentos que visem superar as assimetrias de acesso, que visem equipar escolas com instrumentos e laboratórios, suas manutenções, bem como a conectividade do aluno em seu domicílio ( políticas de equidade para o setor das escolas públicas, frente aos privilégios do setor educacional privado e sua inclusão digital) .  Impulsiona, sobretudo, revisão curricular e políticas de formação de professores mais atualizada.

 

Ensino a distância é uma modalidade de ensino, uma possibilidade suplementar, e não uma alternativa para substituir o ensino em uma escola ou universidade. Disputemos esses sentidos de inclusão e letramento digital, a fim de evitar manobras políticas para o esvaziamento da escola e a desprofissionalização docente. 

 

Por outro lado, não percamos de vista as interpelações políticas por parte de interesses econômicos, a partir de reformadores empresariais que tendem a propor medidas ou políticas curriculares neotecnicistas e que propiciam desescolarização, bem como por parte de grupos sociais que interpelam a escola, seu currículo e as suas docências, na perspectiva de modernizar, ‘tecnologizar’ as metodologias ou práticas de ensino se desfazendo dessas mesmas escolas .  

 

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Modernizar ou dar uma nova “roupagem” ao currículo e à docência escolar brasileira não é um mal a se combater. Contudo, não nos deixa desatentos aos interesses mercadológicos de práticas de um ‘Estado-mínimo’ para diminuir números de professores, para fechamento de escolas,  salas de aula com número excessivo de alunos,  vendas de apostilas e materiais didáticos produzidos por grupos empresariais para substituir livros didáticos, ou o pagamento com verba pública de acesso ou uso de aplicativos, plataformas digitais, diferentemente de ambientes virtuais gratuitos e qualificados como o moodle.

 

A existência do ensino remoto e da educação a distância com maior frequência nas cargas-horárias do ensino básico ou superior (Ver Portaria 2117, 6/12/2019) põe em xeque o próprio sentido de ensino não presencial, coloca-o ‘sob suspeita’ ( GABRIEL, 2008), sugere sua própria reconfiguração em articulação com o ensino presencial. 

 

O período de pandemia e isolamento social tem comprovado a necessidade de uma sociointeração em uma sala de aula e em outros ambientes escolares, um “tete a tete”, a emergência do afeto, do poder questionar o professor enquanto ele fala/explana, do estudante ajudar o colega com uma dúvida, das atividades presenciais de educação física e artes, da relação com o conhecimento escolar/científico em diálogo com o professor. Até a bagunça do recreio e as ‘brincadeiras fora de hora’ em sala de aula fazem falta. Uma aula presencial que observe à saúde mental das crianças (inclusive, estar sob quarentena implica na existência de possíveis transtornos mentais para os alunos). 

 

É preciso evitar imediatismos por parte de governos acerca do uso do ensino remoto (de forma síncrona ou assíncrona) . Ele precisa existir, não há contexto para ensino presencial, atualmente. Contudo, é preciso estar atento que o semestre de forma remota significa estar em processo de formação, observando a possível ausência de estudantes que não estão incluídos no processo digital, bem como implica na atualização de professores e, principalmente, em não se pensar a reprovação de quaisquer alunos, no contexto desses semestres. A ideia que defendo é pensar a aula não presencial durante a pandemia voltada para uma formação sem reprovação.  

 

Que venham as críticas à EaD e ao ensino remoto. Gestores e professores não podem implementar ou ampliar cargas-horárias de ensino remoto sem questionamentos, pela força da lei, sem formação adequada e inclusão digital de todos os alunos. A Resistência à EaD e educação remoto não é de todo um mal, pois ela provoca emergir aquilo que é marginal, o que está de fora em várias escolas, no caso das tecnologias, o que não se tem acesso. Criticar a EAD é normal. A gente faz isso com o ensino presencial, sempre. A própria aula presencial na escola apresenta desigualdades persistentes e passíveis de críticas. Questionar o ensino remoto, suas metodologias, aspectos filosóficos e sociológicos etc impulsiona a desestabilização de práticas hegemônicas, e é assim que nos reinventamos, desorganizando para nos organizar, de forma contínua. 

 

É preciso disputar os sentidos de EaD. Daquela lógica original mercantilista de Estado- mínimo, de enxugar custos com docentes e escolas, fechar cursos e escolas. Da lógica de graduações e pós-graduações 100% remoto ou a distância. Não adianta EaD, mídias e suas tecnologias, se o conteúdo de aula é tecnicista, com metodologias tecnicistas. É preciso diferentes formas de interação com o conteúdo, um bom ambiente virtual não garante um bom processo de ensino-aprendizagem se a forma de pensar o conhecimento escolar/científico é reacionária ou conservadora (colocando para fora discussões sobre direitos humanos, por exemplo). 

 

A modalidade, que para muitos ainda era vista (erroneamente) como uma paliativo ou  “ tapa-buracos” das aulas presenciais, passa a ser encarada com maior protagonismo no processo de ensino-aprendizagem e que, dessa forma, requer não somente sua importância nos processos formativos da Educação básica e superior, mas também estimula professores a se reinventarem no que concerne às suas práticas docentes, a partir do uso das tecnologias diversas. 

 

Não é uma reflexão e um arranjo social apenas durante os meses em distanciamento social da covid19, mas é um estado didático-metodológico que tenderá a ser contínuo e que nos provoca a problematizar esse cenário, não somente nos “fazeres pedagógicos”, como também nas pesquisas em Educação.  A EaD e o ensino remoto não substituirão o professor em sala de aula, mas vão estar posicionadas bem “na sala ao lado”.

 

Trata-se de um terreno de incertezas quando pensamos o estreitamento entre pensamentos imersos em dois campos distintos, por outro lado, um terreno de muitas possibilidades, de entrecruzamentos e hibridismos didático-metodológicos.

 

 

Luciano Freitas Filho é doutorando em Educação pela UFRJ, professor do Instituto Federal da Bahia/IFBA e membro da Comissão Dom Helder Câmara de Direitos Humanos da UFPE. 


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Referências

GABRIEL, CARMEN TERESA. Conhecimento escolar, cultura e poder: desafios para o campo do currículo em “tempos pós”, In: Multiculturalismo Diferenças Culturais e Práticas Pedagógicas. (orgs) Moreira & Candau, Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2008, pgns 212-245. 

GOVERNO FEDERAL, oferta de carga horária na modalidade de Ensino a Distância – EAD em cursos de graduação presenciais ofertados por Instituições de Educação Superior – IES pertencentes ao Sistema Federal de Ensino, Portaria Nº 2.117, de 6 de dezembro de 2019. 

HALL, S. Quem precisa de identidade? In SILVA, T. T. (org) Identidade e Diferença. a perspectiva dos Estudos Culturais. Petrópolis, Vozes, 2000.

LARROSA, Jorge. Elogio da Escola. Belo Horizonte: Autêntica, 2017.  

MASSCHELEIN, Jan & SIMONS, Maarten. Em defesa da escola. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.

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